Distribuição

Privatização da BR Distribuidora põe R$ 8,56 bi no caixa da Petrobras


Valor Econômico - 24 jul 2019 - 09:08

A privatização da BR Distribuidora vai colocar no caixa da Petrobras pelo menos R$ 8,56 bilhões e deve duplicar a liquidez em bolsa da líder do mercado de combustíveis e lubrificantes. É a maior oferta de ações desde abril de 2015 e a maior operação do processo de desinvestimentos estatais do novo governo via mercado de capitais.

A ação da BR foi precificada ontem a R$ 24,50 na oferta subsequente de ações (follow-on), conforme antecipado pelo Valor PRO, serviço de notícias em tempo real do Valor. Com alta demanda de investidores, o lote adicional também foi exercido, chegando aos R$ 8,56 bilhões. Se exercido também o lote suplementar - o que fica a critério dos bancos coordenadores da oferta e eles têm 30 dias para decidir fazê-lo -, o volume total da operação sobe a R$ 9,63 bilhões.

Excluídos 1,65% de custos sobre o valor da oferta, esse montante vai direto para o caixa da Petrobras, que era a acionista vendedora. Com essa operação, o volume de vendas de participações acionárias detidas por estatais em bolsa desde outubro já atinge R$ 32 bilhões.

A Petrobras tinha 71,25% da distribuidora e, com lote adicional e suplementar, pode ficar com 37,5%. Assim, a BR Distribuidora deixa de ser uma empresa de controle estatal e passa a ser uma companhia de capital pulverizado em bolsa. A operação terá um efeito imediato na liquidez das ações – já que, até agora, somente 28,75% das ações estavam em circulação. Com a oferta, o percentual de ações em circulação duplica.

O conselho de administração da BR Distribuidora, que era majoritariamente indicado pela Petrobras, uma indicação pelo Ministério da Economia e outra por funcionários, será modificado pelos novos acionistas e a expectativa é de melhora de governança.

É a maior oferta de ações do ano, seguida da operação recém-concluída do IRB Brasil Re, em julho, e da operação da Petrobras em junho. A tese dos bancos para atrair investidores para a BR é que a saída da Petrobras do controle da companhia dará a ela ganhos de eficiência por deixar de funcionar sob os parâmetros de uma estatal. Hoje, a BR tem que fazer licitações para a distribuição de seus produtos por trechos e sempre faz as contratações de empresas pelo menor preço oferecido. A partir de agora, ela pode se desamarrar desse modelo e pensar em contratos, por exemplo, regionais em que negocia com uma empresa condições mais vantajosas e eficientes.

Outro aspecto é em relação à equipe, destacou uma fonte. A BR será capaz de oferecer planos de remuneração que atraiam profissionais que julgar mais qualificados e preparados para as funções e para esse novo momento de melhora de eficiência. A empresa teria relatado, no ano passado, dificuldades de contratar um diretor financeiro, por exemplo. As informações que circularam era que, nas concorrentes, executivos de primeira linha recebem cerca de 30% a mais do que a BR pode pagar. Espera-se também um plano de demissão voluntária, para que a empresa enxugue o quadro ou consiga realizar as substituições que julgar necessárias.

A companhia prometia ajustes semelhantes quando fez sua oferta inicial de ações (IPO), mas o argumento para não ter entregado esses ganhos antes, segundo gestores, foi o fato de a Petrobras ter seguido no controle. Como agora a petroleira sai do comando, o mercado resolveu refazer a aposta. "Apesar de o risco ser alto, nenhum outro ativo hoje no mercado oferece um potencial de valorização tão alto quanto a BR", disse um gestor. Ele observa que nesse sentido também a Petrobras foi inteligente ao manter 37,5% da empresa. "Se o plano da BR der certo, daqui a dois ou três anos a Petrobras fará um novo follow-on on e captará toda valorização esperada para BR", afirma.

Para uma fonte próxima à distribuidora, a operação pode colocar pressão maior sobre as concorrentes em bolsa - Ipiranga, do Grupo Ultra, e a Raízen. Isso porque, se confirmadas a melhora de liquidez e especialmente de governança, essas companhias se tornam mais comparáveis. O mesmo não acontece quando há controle estatal e os investidores automaticamente atribuem um desconto ao papel. "Assim, a BR Distribuidora pode disputar atenção de investidores que estavam concentrados nas concorrentes privadas", diz essa fonte.

Apesar da melhora de liquidez e de governança esperadas, alguns analistas ainda veem riscos para a operação, uma vez que a distribuidora continua tendo um vínculo relevante com a Petrobras. "O setor de distribuição de combustível ainda é bastante dependente da política de preços da Petrobras", diz a analista Diana Stuhlberger, da Eleven Financial, em relatório.

Grandes gestoras brasileiras independentes e ligadas a bancos entraram com força na oferta, segundo as fontes. Entre elas, a SPX Capital, a Truxt, a XP Asset e os bancos Itaú e Safra, apurou o Valor. Também houve participação, em menor medida, de investidores estrangeiros.

Ontem pela manhã, os bancos coordenadores tinham contabilizado uma demanda três vezes maior que a oferta para a ação ao preço de R$ 24, conforme duas fontes. A demanda a R$ 25 era um pouco inferior ao livro, mas como interesse dos investidores na operação e a valorização da ação no dia, os bancos conseguiram subir um pouco o preço para o meio do caminho. A ação da BR subiu 2,04% em sessão de queda do Ibovespa.

Os bancos coordenadores da oferta são J.P. Morgan, Citi, Bank of America, Credit Suisse, Itaú BBA e Santander.

Maria Luíza Filgueiras e Ana Paula Ragazzi – Valor Econômico