Biodiesel e saúde humana: uma proposta que une sustentabilidade e saúde pública


As mudanças do clima batem à nossa porta já há alguns anos. Os períodos de estiagem por que passam as regiões Nordeste e Sudeste do Brasil, a emergência de doenças transmitidas por insetos vetores e as ilhas urbanas de calor compõem um retrato do que se afigura no futuro próximo. Dada a gravidade da situação, vários países, notadamente do G7, propuseram a não utilização de combustíveis fósseis até o final deste século.

As fronteiras tecnológicas para atingir esta meta não são triviais. Felizmente, nosso país possui condições para enfrentar o desafio imposto pela deterioração do clima da Terra. Nesse contexto, os biocombustíveis são a alternativa mais rápida e eficiente para enfrentar a gravidade da questão ambiental. Eles emitem quase nenhum gás de efeito estufa e, ao mesmo tempo, exibem menor emissão de poluentes tóxicos de efeito local, nas cidades.

Alguns esclarecimentos são necessários aqui. Os gases responsáveis pelo aquecimento global exibem uma vida média de décadas, ou seja, medidas de redução da sua emissão terão efeito após muito tempo. Por outro lado, os mesmos processos de combustão de onde resultam gases que promovem aquecimento global emitem, simultaneamente, poluentes com tempo de residência na atmosfera bastante reduzido, porém capazes de promover danos à saúde humana, notadamente o material particulado fino.

Em outras palavras, fontes de combustão provocam aquecimento global pela emissão de CO2 e metano (de longo prazo), bem como partículas finas com efeito nocivo à saúde. Neste cenário entram como solução os biocombustíveis, notadamente o biodiesel.

Nas cidades brasileiras, os veículos movidos a diesel são responsáveis por mais da metade da poluição por essas partículas finas, o poluente mais consistentemente associado com mortalidade precoce por doenças cardiovasculares, respiratórias e câncer do pulmão. Quanto maior a mistura de biodiesel, menor será a emissão de gases de efeito estufa (de efeito global) como também de partículas finas tóxicas, com efeito local.

Resumindo, sustentabilidade e saúde caminham juntas num caminho virtuoso. Vejamos um exemplo simples. O aumento ocorrido de 5% para 7% de biodiesel no litro do diesel será, em condições muito conservadoras, capaz de evitar cerca de 2.100 mortes prematuras, apenas nas regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro nos próximos 10 anos. Em outras palavras, 2% de acréscimo de biodiesel será equivalente, em termos de saúde pública, a algo semelhante a evitar a mortalidade por dengue nestas duas regiões.

Fica claro, portanto, que medidas muito simples de mudanças de políticas energéticas implicam em significativas melhoras na saúde humana. Por outro lado, caso a proporção de biodiesel na mistura do diesel seja elevada para 20%, nos próximos dez anos seriam evitadas cerca de 13.000 mortes prematuras somente em São Paulo e Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, seriam economizados mais de R$ 2 bilhões em custos de internações hospitalares e mortalidade prematura. Quando se leva em conta as demais regiões metropolitanas do país, os números são ainda maiores, embora menos precisos devido à precariedade de dados.

Concluindo:

a) Biocombustíveis reduzem a emissão de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, emitem menos poluentes tóxicos de efeito local;

b) Os motores diesel emitem mais da metade das partículas finas, o poluente mais consistentemente associado à mortalidade precoce por doenças respiratórias, cardiovasculares e câncer;

c) No presente cenário, o aumento da proporção de biodiesel ao diesel atende, simultaneamente, a questões de aquecimento global e promove significativos benefícios à saúde humana;

d) Além destes benefícios à saúde humana, são significativos os ganhos econômicos decorrentes do aumento da proporção do biodiesel ao diesel.

Paulo Hilário Nascimento Saldiva.
Faculdade de Medicina /USP

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