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[CBBR 2024] A disponibilidade de matérias-primas para Combustível do Futuro

Com o B20 encaminhado, o setor precisa começar a fortalecer a cadeia de fornecimento de óleos e gorduras

BiodieselBR.com 11 min de leitura

Com a transformação do Combustível do Futuro em lei, o B20 já está ‘contratado’. O texto formulado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Lula estabelece que o teor de biodiesel no óleo diesel avance um ponto percentual por ano até chegar a 20% em 2030. As primeiras estimativas já indicam que a demanda de biodiesel deverá passar um pouco dos 14 milhões de m³ – crescimento de praticamente 100% em relação aos 7,3 milhões de m³ registrados no último ano. Para chegar lá, a cadeia terá que reforçar a oferta de óleos e gorduras no mercado doméstico e disputar matérias-primas com compradores externos.

O tema foi debatido durante o painel A competição pelos óleos e gorduras do Brasil, realizado no segundo dia da Conferência BiodieselBR 2024, que contou com as participações do coordenador da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), Lucas Cypriano; do gerente comercial da Cargill, William Siqueira; e do secretário do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Guilherme Campos.

Bioeconomia circular

Segundo o representante da Abra, Lucas Cypriano, a indústria de reciclagem animal faz parte da vanguarda que está dando origem à bioeconomia circular. O conceito – ainda em formação – busca revalorizar fontes de biomassa que, de outro modo, não seriam aproveitadas.

É uma ideia que começa bem antes de os animais serem abatidos, já que a alimentação animal permite que subprodutos de diferentes cadeias alimentares tenham uma destinação útil. “Não existe nada mais eficiente do que os animais de produção para fazerem essa revalorização de produtos que não servem para a alimentação humana, mas que têm valor nutricional”, explica Cypriano.

Com a transformação do Combustível do Futuro em lei, o B20 já está ‘contratado’. O texto formulado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Lula estabelece que o teor de biodiesel no óleo diesel avance um ponto percentual por ano até chegar a 20% em 2030. As primeiras estimativas já indicam que a demanda de biodiesel deverá passar um pouco dos 14 milhões de m³ – crescimento de praticamente 100% em relação aos 7,3 milhões de m³ registrados no último ano. Para chegar lá, a cadeia terá que reforçar a oferta de óleos e gorduras no mercado doméstico e disputar matérias-primas com compradores externos.

O tema foi debatido durante o painel A competição pelos óleos e gorduras do Brasil, realizado no segundo dia da Conferência BiodieselBR 2024, que contou com as participações do coordenador da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), Lucas Cypriano; do gerente comercial da Cargill, William Siqueira; e do secretário do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Guilherme Campos.

Bioeconomia circular

Segundo o representante da Abra, Lucas Cypriano, a indústria de reciclagem animal faz parte da vanguarda que está dando origem à bioeconomia circular. O conceito – ainda em formação – busca revalorizar fontes de biomassa que, de outro modo, não seriam aproveitadas.

É uma ideia que começa bem antes de os animais serem abatidos, já que a alimentação animal permite que subprodutos de diferentes cadeias alimentares tenham uma destinação útil. “Não existe nada mais eficiente do que os animais de produção para fazerem essa revalorização de produtos que não servem para a alimentação humana, mas que têm valor nutricional”, explica Cypriano.

A reciclagem animal entra num segundo passo. No caso do Brasil, o setor conta com 249 atores que recolhem tanto os resíduos gerados durante o abate de animais quanto as sobras produzidas no processamento posterior das carnes. “Processamos um volume anual de 13,9 milhões de toneladas de resíduos, gerando, após o processamento, 3,8 milhões de toneladas de farinhas e 2,1 milhões de toneladas de gorduras”, explica, acrescentando que a indústria de biodiesel corresponde a 15,4% do mercado total do setor.

Embora não represente o maior volume, Cypriano descreve o biodiesel como um mercado “essencial” para a indústria de reciclagem. “O preço do sebo deu um salto depois da mistura de biodiesel se tornar obrigatória. O biodiesel é vital para a sobrevivência de nosso setor”, considera.

Balanço de carbono

Segundo Cypriano, a ideia de circularidade pode ter desdobramentos fundamentais para a indústria de biocombustíveis, pois tem um impacto relevante nos balanços de carbono dos produtos do setor. Tipicamente, as emissões de carbono dos produtores são atribuídas aos principais drivers econômicos de sua produção. “Ninguém cria frango para produzir gordura ou boi para produzir sebo. O que se quer é produzir comida”, explica, indicando que, dessa forma, a gordura animal oferece um perfil de emissões mais favorável do que os óleos vegetais.

Embora esse ainda não seja um diferencial competitivo totalmente consolidado para a gordura animal, ele já tem aparecido com o aumento da procura internacional por esse tipo de produto nos últimos anos. Até setembro, as exportações brasileiras de gordura animal já tinham superado o resultado de 2023. “Para um setor que, historicamente, não exportava quase nada, estamos exportando volumes importantes; mesmo assim, não chega a 10% do que se exporta de óleo de soja. Temos que colocar as coisas em perspectiva”, diz, acrescentando que a maior parte do material exportado vai para os Estados Unidos, onde é usado na produção de diesel verde e de bioquerosene de aviação, justamente por ter uma intensidade de carbono que pode ser até 60% menor do que a do óleo de soja norte-americano. “Esse é o grande mercado”, completa.

Segundo Cypriano, esse aumento da competição internacional pela gordura brasileira tem preocupado os produtores de biodiesel. Muito embora essa preocupação não se reflita numa disposição do mercado interno em pagar melhor pelo produto. “Se a gente dolarizar o valor que tem sido pago pelo sebo bovino no mercado interno, ele fica abaixo das cotações internacionais. Essa diferença está favorecendo as exportações”, descreve, apontando que as altas recentes no mercado do óleo de soja não estão se transferindo para o sebo bovino.

Competir com os exportadores seria a forma mais direta de garantir a oferta de gordura no mercado interno, uma vez que a produção não pode ser facilmente aumentada. “Nosso produto é um resíduo. Ele só existe se houver demanda para as carnes”, diz.

Um posicionamento

“Será menos uma apresentação e muito mais um posicionamento”, disse Guilherme Campos, representante do MAPA, que lembrou o bom humor do setor com a aprovação do Combustível do Futuro. “Todo mundo está com um sorriso no rosto porque agora temos um norte, uma legislação que nos dá segurança para os biocombustíveis que vêm de nossas fazendas”, afirma.

Segundo o representante do MAPA, o setor tem a oportunidade de desenvolver seus produtos e superar barreiras não tarifárias impostas por outros países. “Todas as métricas são desenvolvidas pelos países importadores que subsidiam sua agricultura para segurar o Brasil. O mundo tem medo do Brasil! Da competência que temos na cadeia do agro, e a oportunidade aberta pelos biocombustíveis é fantástica; [mas] vamos ter que ser cada vez mais competentes para mostrar que a nossa produção é sustentável ambientalmente e justa do ponto de vista social”, diz, lembrando que estamos desenvolvendo esse mercado desde os anos 1970.

“O melhor modelo de transição energética do mundo é o brasileiro”, elogia, apontando que os carros híbridos movidos a biocombustíveis são tão ou mais eficientes que os elétricos puros. “Podemos bater no peito e ter orgulho”, pontifica, vaticinando que conseguiremos reproduzir com o biodiesel o desenvolvimento que tivemos no etanol. “Vai ter tecnologia para o uso do biodiesel puro. Ela vai ser desenvolvida”, garante.

Show de bola

Segundo Guilherme, o mundo tem fome de alimento e energia, e essas demandas podem ser supridas de maneira complementar e economicamente viável. "O Brasil é show de bola, gente!", entusiasma-se, ressaltando que o ministério está aberto para apoiar o setor produtivo por meio de suas câmaras setoriais, onde é possível construir soluções para os problemas que possam surgir. “Problema a gente tem de monte. (...) A solução é sempre sentar, conversar e trabalhar; essa é a disposição do Ministério da Agricultura”, defende.

Entre os pontos que precisam ser trabalhados está a questão da adaptação climática. “Temos que ter um grande cuidado com o clima. Todo mundo tem que estar preocupado com o aumento na frequência dos fenômenos climáticos extremos”, lembra, acrescentando que há muito a ser feito em termos de financiamento e seguro rural.

Também é preciso dar mais atenção à implementação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) para evitar acusações sobre a sustentabilidade da agricultura brasileira e garantir que os produtos brasileiros possam competir no mercado internacional. “O mundo que se cuide, porque o Brasil vai atropelar”, posiciona-se.

Esmagamento

Uma das maiores tradings e processadoras de grãos do mundo, a norte-americana Cargill, vem apostando pesado no mercado brasileiro de biodiesel. Tanto que – como lembrou o gerente de óleos e biodiesel, William Siqueira – a empresa adquiriu, no final do ano passado, toda a operação de biodiesel da Granol, tornando-se dona de quatro usinas e com uma capacidade instalada de 1,5 milhão de metros cúbicos. “Realmente levamos a sério questões ambientais e acreditamos em biocombustíveis como a forma mais eficaz de descarbonização dos transportes”, destacou.

Segundo o executivo da trading, a sojicultura brasileira tem um histórico bastante favorável na expansão de sua produção. No começo do século, o país produzia 32 milhões de toneladas. Menos de um quarto de século depois, estamos nos aproximando de 160 milhões de toneladas. Esse crescimento foi conseguido tanto pelo aumento da área ocupada pela soja quanto pela melhoria da produtividade das lavouras.

Esse crescimento acelerado fez com que o Brasil deixasse de processar a maior parte de sua produção e se tornasse um grande exportador de soja in natura. “A partir de 2013, houve essa inversão fruto do grande crescimento da produção rural”, diz, acrescentando que não foi que o esmagamento não tenha crescido, mas que ele só não conseguiu acompanhar o mesmo ritmo.

Impulsionador

Nesse ponto, o crescimento esperado para a produção de biodiesel nos próximos anos pode servir para alavancar novos investimentos em esmagamento de soja ao absorver volumes cada vez maiores de óleo. Desde 2021, o mercado de energia se tornou o principal driver de crescimento dos esmagadores, superando a demanda alimentar. “Entendemos que o biodiesel consegue agregar valor não só a um produto, mas a toda a cadeia da soja. Os mandatos são grandes impulsionadores do complexo soja”, analisa, lembrando que o óleo de soja representa cerca de 70% do biodiesel fabricado no Brasil.

Essa relação entre soja e biodiesel transparece no fato de que a maior parte do biodiesel fabricado no país vem de empresas verticalizadas – grupos que têm esmagamento e produção de biodiesel. Esse percentual tende a crescer. “Temos anúncios de fábricas de biodiesel que vão colocar unidades de esmagamento e esmagadoras que vão colocar plantas de biodiesel”, ressalta.

Crescimento

William espera uma aceleração nessa relação entre esmagamento e biodiesel à medida que a produção cresça; por um lado, como resposta ao aumento do mandato determinado pelo Combustível do Futuro, e por outro, pelo crescimento no consumo de óleo diesel esperado para os próximos anos. “Se o mercado de diesel crescer só 1,5% ao ano, o que é um número até baixo, sairemos de 68,1 milhões de m³ para chegarmos a 74,6 milhões de m³ em 2030”, calcula.

A oferta de biodiesel não deverá ser um gargalo. Ao longo dos últimos 10 anos, a indústria de biodiesel cresceu 6,4% por ano. “A indústria vem respondendo aos aumentos de mandato e trabalhando para garantir a oferta”, diz, estimando que, se o crescimento for de 5% ao ano, o parque industrial brasileiro deverá chegar a 19,2 milhões de m³ para uma demanda estimada em pouco mais de 14 milhões de m³. “Teremos oferta e capacidade instalada suficientes e, muito provavelmente, teremos uma melhora nos níveis de ocupação do setor”, prossegue.

A nova demanda deve estimular novos investimentos em esmagamento. Hoje, a quantidade de soja esmagada vem crescendo cerca de 3% ao ano. Se mantiver esse ritmo, deverá chegar em 2032 com 68 milhões de toneladas. William, no entanto, espera uma aceleração. “A indústria tem capacidade de reação, então, eu não acho que seja algo com o qual a gente deva se preocupar. (...) O Combustível do Futuro vai ser um impulsionador de investimentos”, diz, acrescentando que há alternativas para suprir eventuais falhas que podem surgir em períodos de entressafra ou anos menos favoráveis.

“Os gaps poderiam ser preenchidos por matérias-primas alternativas ou até por meio de importações (...) A gente entende que [a importação de óleo] pode ser um mecanismo eficaz para aumentar a produção de biodiesel”, avalia, ponderando que a importação de matéria-prima ainda permite que o Brasil capture parte da agregação de valor. “Estamos prontos! O único desafio para a indústria seria acomodar a oferta de farelo. Teremos que achar demanda internacionalmente ou, também, incentivar a indústria nacional de carnes”, complementa.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

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