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O plano do rei do biodiesel


IstoÉ - 07 mai 2021 - 09:19

Na história da música popular brasileira, sempre coube a Erasmo Carlos o rótulo de amigo do rei, aquele que foi o principal parceiro de Roberto Carlos nas composições em mais de cinco décadas de carreira. No mundo industrial, a conversa é outra. Pelo menos no setor de biodiesel, o reinado é do Erasmo. Precisamente de Erasmo Carlos Battistella, um empresário gaúcho de 43 anos que há 16 fundou a BSBios, maior companhia do segmento no Brasil e que no ano passado faturou R$ 5,3 bilhões, o equivalente a US$ 1 bilhão. Para este ano, a previsão é de chegar a R$ 7,5 bilhões. Como um legítimo soberano, planeja ganhar território rápido. E o plano está traçado: ser o terceiro maior produtor do mundo de biocombustíveis em 2030, quando pretende alcançar receita de US$ 5 bilhões. Isso significa um faturamento superior a R$ 25 bilhões quando a empresa completar 25 anos, com crescimento acima de 20% ao ano. “Vamos ter desafios, mas teremos muitas oportunidades. Já estamos entre as 15 maiores empresas globais e felizes com o que construímos”, disse Battistella à Dinheiro

O caminho passa pela internacionalização da companhia sediada em Passo Fundo (RS). No segundo semestre deste ano começam as obras do projeto Omega Green, megarrefinaria que será construída no Paraguai, com investimentos de US$ 800 milhões, para a produção de biocombustíveis como o biodiesel verde (HVO) e o querosene de aviação renovável (SPK), feitos a partir de matérias-primas como gordura, óleo de cozinha, pongâmia e a própria soja. A capacidade de produção no país vizinho será de 1 bilhão de litros ao ano, maior do que a soma do que é produzido na cidade gaúcha e na unidade de Marialva (PR). Só esse projeto vai adicionar à companhia, a partir do segundo semestre de 2024, US$ 1 bilhão no faturamento. E colocará o grupo na liderança na América Latina de biocombustíveis de segunda geração. Segundo o CEO da BSBios, praticamente toda a produção futura já está comercializada. Em janeiro, o empresário assinou contrato com a gigante Shell para venda de 2,5 bilhões de biocombustíveis. Também negociou fornecimento de mais de 1 bilhão do produto para a britânica bp.

CONDIÇÕES Há duas razões objetivas para que o empresário tivesse decidido investir no Paraguai. A primeira foi a condição favorável oferecida pelo país ao empresário, incluindo redução tributária. No ano passado, Battistella assinou contrato com o governo, que concedeu regime de zona franca por um prazo de 30 anos. Projeções mostram que a biorrefinaria deve gerar um aumento estimado de US$ 8 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) do Paraguai em uma década.

A segunda delas é a clara falta de regulamentação brasileira sobre o biocombustível avançado. A expectativa de Battistella, que também preside a Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), é de que as definições das regras devem ser concluídas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) até o fim do ano, mais tardar início de 2022. A ANP não crava a data, mas disse que o ritmo está avançado. “O processo de regulação do diesel verde se encontra em fase final, já tendo ultrapassado as fases de consulta e audiências públicas, estando próximo de apreciação pela diretoria colegiada da ANP”, afirmou, em nota.

Para Valéria Amoroso Lima, diretora de downstream do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), o Brasil já perdeu tempo com essa discussão. “Somos defensores das novas tecnologias. E o Brasil já tem na legislação o fato de não ficar refém de uma só rota energética. Entendo que há um trabalho para atrasar a regulamentação final que permite a produção de biocombustível avançado. E a gente não concorda com isso.”

Com as regras definidas e a segurança jurídica garantida, Battistella assegura ter planos de construir no Brasil uma usina semelhante ao projeto paraguaio. “É um enorme avanço tecnológico e a solução para os grandes centros urbanos. Com o biodiesel verde, por exemplo, São Paulo poderia parar de usar diesel fóssil”, disse o executivo da BSBios.

Se o futuro se mostra promissor, apesar de ainda depender de etapas, o presente para a BSBios já tem sido de crescimento nas unidades brasileiras. Entre o fim de 2019 e o início deste ano, foram aportados R$ 100 milhões tanto na refinaria de Passo Fundo quanto na unidade de Marialva. A capacidade da companhia aumentou, no mesmo período, 62,5% por causa dos investimentos.

Mas nem tudo foi boa notícia no ano da crise provocada pela pandemia. No ano passado, a empresa atravessou uma mudança no quadro societário. Desde 2010, a Petrobras tinha 50% de participação na BSBios, parte que foi adquirida pelo próprio grupo ECB, de Battistella, controladora da BSBios, hoje dona integral da operação. A decisão da Petrobras, negociada desde 2018, segue o mesmo caminho de desinvestimentos em outras atividades adotado pela estatal nos últimos anos. “Esse novo ciclo vai trazer crescimento e reorganização. A saída da Petrobras não será um limitador.”

A mudança societária, no entanto, não mudou a disposição de Battistella. Pelo contrário. O empresário resolveu fazer desse limão uma limonada. Ou dessa soja, ainda mais biodiesel. O grupo avançou na governança corporativa. Para isso, trouxe para a presidência do conselho de Administração do ECB Group, controlador da BSBios, o ex-ministro da Agricultura e ex-presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) Francisco Turra, como uma espécie de recado ao mercado sobre os planos ambiciosos da empresa. “Encaro esse desafio como uma missão de muita responsabilidade. Tenho grande identidade com a história da empresa e encaro com muita disposição toda discussão sobre avanços do agronegócio”, disse o ex-ministro. Para Battistella, Turra traz “mais experiência à companhia”.

Outro desafio enfrentado pelo grupo foi lidar com a decisão — equivocada, na avaliação de Battistella — do governo federal de redução de 13% para 10% a presença de biodiesel na mistura do diesel, no último leilão para comercialização do produto, como uma forma de compensar o aumento no preço em razão do fim da isenção fiscal do diesel. Segundo cronograma do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), a mistura mínima irá alcançar 15% até 2023. “Sinalizamos ao governo que precisa voltar para os 13%. O que tenho ouvido é que o Brasil está comprometido em manter essas metas. É necessário”, disse Battistella. O rei do biodiesel sabe disso. A questão é se o poder público vai seguir na mesma direção.

Entrevista

Antes de levar a refinaria de biodiesel para o Paraguai, houve tentativa para montar a fábrica no Brasil?
O setor de biodiesel sempre conseguiu ter boa interlocução com o governo federal, independentemente do presidente. Como empresário, a gente precisa ter a noção do que é possível e do que não é. E não adianta nos iludirmos. O Brasil não é competitivo para exportar produtos industrializados. Se não passar por uma grande reforma tributária, não vai ser competitivo nos próximos anos. Não gastamos muito tempo em querer colocar essa unidade no Brasil porque sabíamos que as condições dadas não eram favoráveis. Porém, desde o governo de Michel Temer, o Ministério de Minas e Energia começou a enxergar o biocombustível para o mercado brasileiro e não exportação.

O Brasil ainda não tem o marco regulatório para o biocombustível avançado. Não estamos deixando essa oportunidade passar?
É necessário saber quais as condições para produzir o biocombustível. Com esse marco, somos candidatos a fazer um investimento no Brasil para atender ao mercado nacional. O País tem dois patrimônios, que são o etanol e o biodiesel. É claro que essa é uma oportunidade que está passando, mas ainda há tempo de corrigir. Se a gente instituir o marco regulatório neste ano, o Brasil vai recuperar esse tempo. Como brasileiro, gostaria de instalar a primeira unidade da América do Sul no Brasil. Mas como planejo estar entre os maiores do mundo, preciso estar em outros países também. E todo o conhecimento para a implementação da usina no Paraguai vem da equipe técnica de Passo Fundo.

O que achou do discurso de Jair Bolsonaro na Cúpula de Líderes?
Para ser honesto, fui surpreendido positivamente. Quando o Brasil fala em carbono neutro para 2030, mostra comprometimento. No quesito mensagem, fomos muito bem. Agora precisamos transformar essa mensagem em ação na prática. Precisamos entregar o que prometemos para o mundo.

Mas quando a gente vê uma carta de CEOs e banqueiros pedindo políticas públicas ambientais mais concretas, não mostra que o governo vem errando?
Isso mostra que a sociedade está comprometida, preocupada e quer mudanças. O governo federal, ao se comprometer, permite que o setor industrial faça as devidas pressões para que isso aconteça. O grande problema é a execução. Além de planejar, é necessário executar bem. Treinar, todo time treina. Agora, levar todo esse treino para dentro de campo e ganhar o jogo é outra história.

E o Brasil não está perdendo esse jogo?
Temos tudo para ganhar. Temos boas ações, mas precisamos mudar a postura. Quem faz política pública é o governo. O empresário reage à política pública e investe.