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Fundador da Agrenco dispara contra bancos e ex-administradores


Valor Econômico - 08 ago 2013 - 15:35 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
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"Roubado" e "injustiçado" são as palavras a que o empresário Antônio Iafelice recorre para descrever como se sente em relação aos acontecimentos que determinaram a bancarrota da Agrenco, trading de commodities agrícolas que fundou em 1992 e que, no auge, faturou R$ 3,4 bilhões e movimentou mais de 6 milhões de toneladas de grãos.

Iafelice recebeu o Valor na sede da Agrenco depois de os credores recusarem uma nova – e controversa – proposta de Recuperação Judicial, que pretendia reestruturar o pagamento de uma dívida de quase R$ 1,2 bilhão, após o fracasso dos planos aprovados em 2009 e 2011.

Durante quase duas horas, o empresário discorreu sobre as causas que levariam o juiz da 1ª Vara de Falências de São Paulo a decretar a falência das empresas Agrenco no Brasil. A sentença é o desfecho de um imbróglio iniciado há cinco anos, em 20 de junho de 2008, quando Iafelice, sócios e alguns dos principais executivos da companhia foram presos durante a Operação Influenza da Polícia Federal, sob um leque de acusações que incluía lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e remessa ilegal de dinheiro ao exterior.

"A Operação Influenza quebrou a Agrenco", afirma Iafelice. "Os agentes da Polícia Federal vieram aqui, confiscaram todos os arquivos e computadores. Imediatamente, perdemos a condição de trabalhar. Os bancos cortaram o crédito, arrestaram os estoques de grãos e não permitiram que a empresa cumprisse seus contratos". A paralisação da mesa de operações obrigou a empresa a liquidar cerca de US$ 250 milhões em derivativos na bolsa de Chicago. "Fomos obrigados a 'abrir' nosso hedge. Em pouco mais de um mês, perdemos R$ 800 milhões".

Em 2010, as acusações contra Iafelice foram retiradas depois que a Justiça Federal declarou ilegais as escutas telefônicas usadas como provas pela Política Federal. "Foi uma armação, que até hoje não sei de onde surgiu. Estamos processando a União. Daqui a uns 20 anos a gente vê o que acontece".

Presos, Iafelice e seus sócios imediatamente renunciaram aos cargos na Agrenco. "Não sabia o que estava acontecendo e não queria prejudicar a companhia. Sequer morava no Brasil. Vim para o casamento de um sobrinho em Cuiabá. Quando desembarquei, a Polícia estava me esperando de metralhadora na mão". Solto após 15 dias, o empresário retornou à França, país onde residia e no qual começou seus negócios.

Com os sócios afastados, três membros externos do Conselho de Administração – o empresário José Monforte, o ex-presidente do Banco do Brasil, Cassio Casseb e o economista James Wright – foram nomeados copresidentes e assumiram a tarefa de recuperar a Agrenco.

Em setembro de 2008, a Agrenco entrou com um período de recuperação judicial e contratou a Íntegra Associados, do consultor Nelson Bastos, para elaborar e acompanhar a aprovação de um plano de recuperação. Ainda naquele mês, Monforte pediu desligamento do Conselho, e seu posto passou a ser ocupado por Bastos. Pouco tempo depois, Casseb também renunciou ao posto, abrindo caminho para a nomeação de Ruy Schneider e Nils Bjellum – acionista e sócio de Iafelice na Agrenco Holding BV, com sede na Holanda.

Em março de 2009, os credores aprovaram o primeiro plano de recuperação da Agrenco, que previa a venda de ativos e a contratação de uma empresa para concluir e operar as plantas da companhia. A Íntegra, de Bastos, foi então contratada pelos bancos para acompanhar a execução do plano.

Nelson Bastos é o alvo preferencial da metralhadora de Iafelice. O empresário acusa o consultor de trabalhar com o único objetivo de vender as fábricas da companhia, atendendo ao interesse dos bancos credores. "Nelson Bastos e sua turma comandaram a empresa. O interesse deles era liquidar as fábricas, pegar o dinheiro e ir embora", diz Iafelice.

O fundador da Agrenco acusa Bastos e os bancos de terem vendido uma planta de esmagamento de soja, em Marialva (PR), por um preço inferior ao do mercado. "Se desfizeram da planta por R$ 37 milhões e, dois meses depois, o comprador, muito bom de negócio, revendeu para a Petrobras por R$ 110 milhões", ironiza. A Agrenco também vendeu seus estoques de soja, por cerca de R$ 50 milhões, e uma participação acionária na norueguesa Denofa, por cerca de R$ 18 milhões.

O objetivo das vendas era levantar recursos para concluir a construção de outras duas unidades de esmagamento e cogeração de energia, em Caarapó (MS) e Alto Araguaia (MT), de modo que a companhia pudesse voltar a operar e gerar caixa.

A planta de Alto Araguaia havia sido inaugurada em março e, segundo Iafelice, operava normalmente, embora demandasse arremates. Conforme ele, os aportes necessários para que as duas fábricas começassem a trabalhar era inferior a R$ 10 milhões. No entanto, cinco anos depois, as indústrias seguem paradas.

"Caarapó hoje está igualzinha cinco anos atrás. Até hoje a parte da alimentação da caldeira está desmontada no chão. Ainda não sei onde enfiaram mais de R$ 100 milhões, mas não foi no que devia. Nada foi feito", afirma Iafelice. O empresário diz ainda que, sob o comando de Nelson Bastos, a empresa confessou débitos fiscais sobre operações realizadas em 2007 "que por óbvio não existiam", acarretando dívidas de aproximadamente R$ 250 milhões.

Bastos sustenta que os valores arrecadados na venda de ativos foram insuficientes para concluir as plantas e fazer frente às ainda elevadas necessidades de caixa da companhia para pagamento de salários, fornecedores e financiamentos. Relatório apresentado pela Íntegra em dezembro de 2009 aponta que, só naquele ano, a Agrenco destinou mais de R$ 22 milhões ao término das fábricas.

O consultor disse ainda que não dava ordens na Agrenco e que todas as medidas tomadas pelo Conselho durante o período foram respaldadas por Nils Bjellum, aliado de Iafelice. Bastos e os demais conselheiros (exceto Bjellum) renunciaram em outubro de 2010, depois que uma assembleia de acionistas, convocada por Iafelice, tentou destituí-los.

Em seguida, o empresário conseguiu aprovar um aumento do conselho e voltou a dar as cartas na empresa. Em agosto 2012, amparado por uma decisão judicial, foi contratado como conselheiro e passou a trabalhar diretamente na elaboração de um novo plano de recuperação – rechaçado pelos bancos.

Iafelice havia tentado retornar à companhia em 2008 e 2009, mas teve seus pedidos negados pelos credores e pela Justiça. "Os credores financeiros argumentaram, através de seus advogados, que a minha volta não era necessária porque a empresa se recuperava bem. Mas como uma empresa parada pode se recuperar bem?"

Segundo o empresário, o destino da Agrenco teria sido outro caso os administradores da época e os credores tivessem cumprido os contratos vigentes. "Tínhamos contrato de 10 anos com a Votorantim para fornecimento de energia, terminais portuários e operações logísticas, que poderiam ser fonte de receita. Mas os credores deixaram tudo se perder". E prossegue: "Não posso dizer [que agiram de má fé], mas os bancos foram incompetentes, tomaram decisões equivocadas e medidas inúteis, que impediram que a empresa saísse daquela situação".

O represente de um credor financeiro, que pediu para não se identificar, afirma que os bancos nunca tiveram qualquer ingerência sobre os negócios da Agrenco e que todas as decisões tomadas desde 2008 sempre contaram com a aprovação do representante de Iafelice no conselho de administração. De acordo com ele, a falta de capital de giro e a dificuldade em contratar um operador diante do ambiente 'hostil' dentro da companhia inviabilizaram a recuperação da companhia. "É um absurdo dizer que os credores venderam ativos abaixo do valor de mercado. Ninguém rasga dinheiro."

Antes da crise
Antônio Iafelice já era um nome conhecido no mercado brasileiro quando fundou a Agrenco. O empresário operava com commodities desde 1966, quando foi contratado pelo Grupo Zilo Lorenzetti. Em 1978, negociou o primeiro embarque de soja brasileira para a China.

Foi presidente para América do Sul da Continental Grain Company e da Ceval International, comprada pela Bunge, com rápida passagem pela Louis Dreyfus. Além disso, foi diretor da Associação Comercial de São Paulo, presidente da Bolsa de Mercadorias e cofundador da Abiove, entidade que representa as processadoras de soja do país.

Em 1992, decidiu "recomeçar do zero" e, com US$ 7,5 mil, fundou a Agrenco em Annecy, na França. "Os clientes estavam todos na Europa. Annecy tinha a vantagem de estar a 35 minutos de Genebra, um centro estratégico. Abrir uma empresa na Suíça custava o dobro, e a comida e o vinho eram piores", disse ao Valor.

Em pouco mais de uma década, a Agrenco se tornou uma empresa com operações em uma dezena de países e grandes números. Em 2007, movimentou mais de 6 milhões de toneladas de grãos, tendo originado diretamente mais de 1,4 milhão, com faturamento de R$ 3,4 bilhões.

Um ano antes, a Agrenco deu início ao seu projeto mais ambicioso – a construção de esmagadoras no Paraná e no Centro-Oeste para a produção de farelo e óleo de soja, biodiesel e energia. À época, a empresa captou US$ 150 milhões em um empréstimo junto ao Credit Suisse por meio da emissão de eurobonus.

Em outubro de 2007, "no limiar da crise internacional", fez uma emissão de R$ 666 milhões em recibos de ações na BM&FBovespa.

O cenário começa a se deteriorar no primeiro semestre de 2008. A escalada dos preços da soja no mercado internacional ampliou as necessidades de capital da companhia para financiar as operações de hedge em Chicago e pressionou o caixa.

"Mas a situação estava equalizada. Tínhamos uma dívida correspondente a uma vez e meia o nosso caixa e estávamos fechando a captação de mais US$ 125 milhões de um investidor estratégico, para reduzir ainda mais essa relação", afirma Iafelice. O negócio foi abortado pela Operação Influenza. 

Gerson Freitas Jr – Valor