Plantio sustentável de soja é o maior destino de ‘recursos verdes’
A iniciativa Inovação Financeira para a Amazônia, Cerrado e Chaco (IFACC) atingiu nos últimos quatro anos US$ 954,1 milhões em desembolsos para financiar a produção agropecuária livre de desmatamento. Liderada por The Nature Conservancy (TNC), Tropical Forest Alliance (Fórum Econômico Mundial) e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a iniciativa foi lançada em 2021, na COP de Glasgow, na Escócia, com meta de financiar US$ 1 bilhão até o fim de 2025.
“Chegamos muito perto da meta. Colocamos uma meta ambiciosa em 2021. E mesmo com juros altos, produtores endividados, quebras de safra por problemas climáticos, o mercado de finanças sustentáveis para o agronegócio se desenvolveu”, afirma Marcos Gambi, gerente de Finanças Agrícolas na TNC Brasil e integrante do secretariado do IFACC.
Em 2025 o IFACC teve o maior desembolso, de US$ 442,2 milhões, 68,8% mais que em 2024. No ano, seis instituições financeiras aderiram à iniciativa: Banco do Brasil, Banpará, Regai, Amerra Capital, MOV Investimentos e Régia Capital. Com isso, a rede de signatários subiu para 26, entre bancos, gestores de ativos, securitizadoras e empresas do agronegócio.
Entre 2021 e 2025, os recursos deram suporte a 668 mil hectares de plantio de soja sustentável e intensificação da produção de gado bovino — 320 mil hectares só em 2025. O fomento para proteção da vegetação nativa chegou a 94.142 hectares em 2025, contra 55 mil hectares até 2024. Os sistemas agroflorestais abrangeram 2.204 hectares e os esforços de restauração ecológica, mais 739 hectares.
Os números mostram uma concentração dos desembolsos. Do total financiado, 97,8% foram para projetos agropecuários no Cerrado brasileiro. Só para a soja os recursos somaram US$ 900 milhões. A Amazônia ficou com apenas 2,2% dos aportes. “A região do Cerrado tem aptidão para agropecuária muito forte e é um bioma que tem menos restrições do que a Amazônia para se investir”, afirma Gambi.
Na Amazônia, as atividades mais comuns são de extrativismo e pecuária agroflorestal, que têm ciclos de produção mais longos, volumes menores e perfis de risco que o mercado financeiro convencional ainda não incorporou plenamente, acrescenta. Apesar do valor baixo, afirma Gambi, as instituições ampliam a oferta de produtos financeiros para o bioma. Dos 20 já lançados pelos signatários, nove têm foco no extrativismo e na produção agroflorestal.
Do total de produtos financeiros, 13 são em reais, cinco em dólares e um em euros. Desses produtos, seis levam capital por meio de recebíveis agrícolas securitizados (CRAs ou FDICs), três incorporam estruturas de garantia com empréstimos comerciais, para atender projetos de prazo mais longo.
Para Gambi, a oferta ampliada de produtos mostra que a transição agrícola se consolida como uma agenda econômica, e não apenas ambiental. “O mercado encontrou uma lógica econômica consistente para a transição.”
A meta do IFACC é alcançar US$ 10 bilhões em desembolsos até 2030. “A ideia é continuar escalando esse tipo de investimento, talvez levando para outras geografias”, afirma Gambi. Entre as regiões em estudo estão o Sudeste Asiático e a América Latina.
Para atingir esse valor, o IFACC estima que será necessário ao menos US$ 2 bilhões em capital catalítico, para absorver riscos maiores e abrir caminho ao investimento privado convencional.
Um passo importante foi o lançamento, em novembro de 2025, do Fundo de Capital Catalítico para a Transição Agropecuária (CCAT). Gerido pela Vox Capital, com a TNC como consultora de impacto socioambiental, o fundo recebeu aporte inicial de US$ 50 milhões. “A ideia é ter um fundo de capital catalítico brasileiro, que empreste em reais, com tíquetes mais adequados à nossa realidade, e que seja mais ágil”, diz Gambi.
Esse fundo assumirá as fatias de maior risco em operações estruturadas por bancos e securitizadoras, servindo como mecanismo de proteção para investidores privados. A expectativa é que cada US$ 1 colocado pelo CCAT atraia outros US$ 4 em capital privado. A meta é que o CCAT atinja US$ 200 milhões até 2028, o que pode destravar outros US$ 800 milhões em recurso de mercado. O valor pode escalar para US$ 2 bilhões até 2030 e liberar US$ 10 bilhões em capital total.
O instrumento com o maior desembolso nesses quatro anos foi o Itaú BB ESG Agro, totalizando US$ 436,3 milhões. O segundo foi o Programa Reverte, da Syngenta, do Itaú BBA e da TNC, com US$ 231,2 milhões. Em 2025, foi lançado o crédito agrícola BanparáBio, com US$ 400 mil em recursos. Outro destaque foi a contratação pela Belterra de R$ 100 milhões do Fundo Clima, para financiar projetos agroflorestais, dos quais R$ 8 milhões já foram empregados.
Para Marcos Gambi , a combinação entre instrumentos públicos e privados é fundamental para dar escala ao financiamento sustentável. Um exemplo, cita, é o Programa Ecoinvest — que, no segundo leilão mobilizou R$ 16,5 bilhões em capital de baixo custo, para bancos financiarem a recuperação de áreas degradadas.


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