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Bioquerosene

Soja certificada sem desmatamento abastecerá aviões


Globo Rural - 17 jun 2026 - 10:43

A Petrobras, a Bunge e a Vibra realizaram um projeto-piloto que garantiu a certificação do primeiro lote de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) produzido a partir de soja plantada em áreas sem desmatamento recente. A certificação garante ainda que o biocombustível emite 70% menos gases de efeito estufa que o querosene de origem fóssil.

A parceria garantirá que a Vibra entregará, no Aeroporto Internacional do Galeão, a partir de sua base no Rio de Janeiro, 4 milhões de litros de querosene de aviação coprocessados pela Petrobras na refinaria de Duque de Caxias (Reduc) com o óleo de soja certificado. Do volume total, 1% terá como origem o óleo da soja que a Bunge esmaga em Rondonópolis (MT).

Essa é a primeira iniciativa de certificação de soja para a cadeia de SAF no mundo. A certificação das matérias-primas é um elemento crucial para o mercado de combustíveis sustentáveis de aviação. O segmento de transporte aéreo tem, no Brasil e também no exterior, metas de redução de emissões a atingir a partir do ano que vem, e, para cumprir esses compromissos, as empresas aéreas precisarão de combustíveis certificados que atestem o quanto reduzem de emissões.

O produto recebeu a certificação “ISCC CORSIA PLUS Low-LUC Risk”. É uma das certificações mais rigorosas para SAF, que atesta que a soja cultivada para dar origem ao óleo usado na produção não provocou desmatamento após 2008. “Não adianta descarbonizar com um combustível que provocou desmatamento”, diz Cristini Kubo, diretora de Soluções para Combustíveis Renováveis da Bunge.

A certificação foi emitida pela International Sustainability & Carbon Certification (ISCC), uma das três certificadoras reconhecidas pelo Corsia — programa da Organização da Aviação Civil Internacional (Icao, na sigla em inglês) para o combustível sustentável.

Para garantir a entrega do SAF de óleo de soja certificado, toda a cadeia também precisa ser certificada, desde os produtores de soja, passando pela esmagadora da Bunge em Rondonópolis, a Reduc e a base da Vibra no Galeão. A base da Vibra já tem a certificação ICSS Corsia Plus desde 2024.

“É um projeto piloto para mostrar que estamos prontos como cadeia”, afirma Daniel Sales, gerente executivo de Comercialização no Mercado Interno da Petrobras. Segundo ele, o gargalo hoje para SAF não é capacidade industrial, mas disponibilidade de matéria-prima devidamente certificada.

Atualmente, a Reduc é a única refinaria da Petrobras que ter certificação para produzir querosene coprocessado com conteúdo renovável. Quando demandada, a refinaria já produz querosene com 1% de conteúdo renovável. A produção que ocorreu até agora utilizou como matéria-prima renovável o óleo de milho certificado da FS.

A estatal espera concluir até o fim do ano a certificação de outras três refinarias para o querosene de aviação coprocessado: a Regap, de Betim (MG), a Revap, em São José dos Campos (SP), e a Replan, em Paulínia (SP).

Sales diz que, com a certificação dessas refinarias, a Petrobras poderá atender toda a demanda por SAF até 2029. Algumas refinarias utilizarão até 5% de conteúdo renovável no combustível final entregue às companhias aéreas.

Matéria-prima

Ainda que a Petrobras — e eventuais outros investidores na produção de SAF — possa utilizar outras matérias-primas para produzir o combustível sustentável dos aviões, o óleo de soja deverá ser a principal opção, na avaliação das empresas envolvidas no projeto. “O que o Brasil tem em escala para suprir é óleo de soja”, afirma Kubo.

A certificação da soja dentro dos padrões do Corsia pode ocorrer com dados padrão, que consideram uma média global de emissões da produção de soja, ou dados de cada uma das fazendas. Se a certificação tivesse ocorrido com dados padrão, as empresas garantiriam uma redução de emissões mais modesta, de apenas 30%.

Para garantir que a produção emite 70% menos, a Bunge utilizou os dados primários dos produtores envolvidos no Programa de Agricultura Regenerativa da Bunge. A certificação também foi possível porque a empresa hoje rastrear 100% de suas compras de soja, diretas e indiretas, diz Kubo.

Camila Souza Ramos – Globo Rural