Do óleo comestível ao biodiesel: canola diversifica lavouras e indústria no inverno gaúcho
Enquanto o Rio Grande do Sul se destaca nacionalmente na fabricação de biocombustíveis a partir da agricultura, cresce no campo a busca por matérias-primas capazes de acelerar a diversificação energética e produtiva no Estado. É o caso da canola, uma oleaginosa que ganha espaço como aposta de renda e de negócio na economia gaúcha.
O interesse pela cultura mais do que dobrou este ano. A produção estimada pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS) é de 571.975 mil toneladas para a safra de 2026, um aumento de 100,3% em relação ao ciclo passado. A colheita ainda é inferior à de grãos tradicionais de inverno, como o trigo, mas já se destaca pelo potencial apresentado.
Antes conhecida como matéria-prima para óleo comestível e farelo de ração animal, a canola conquistou espaço na produção de energia verde. Ou seja, além das lavouras, ganha força na indústria, mostrando versatilidade.
Um dos motivos para o maior interesse vem da rentabilidade. Tanto o trigo quanto a canola são cultivos com forte apelo para a indústria. No entanto, a canola tem se mostrado mais rentável na ponta do lápis, especialmente pelo preço de mercado. Além disso, plantar canola chegou a custar quase R$ 550 a menos por hectare do que o trigo no inverno de 2026, segundo a Emater.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola), Vantuir Scarantti, a cultura é altamente promissora. E muito pelo que já se aperfeiçoou nos últimos anos em desenvolvimento de pesquisa para o melhor rendimento possível.
"É uma construção que não vem de hoje. Houve evolução em genética, as indústrias se adequaram para captar o grão e nos últimos cinco anos a canola tem garantido rentabilidade ao agricultor. As empresas estão incentivando todo o elo da cadeia. O crescimento é sustentável e tende a se manter", avalia Scarantti.
Os planos para o futuro são ambiciosos. A projeção da Abrascanola é de que em 2030 a cultura chegue a 1 milhão de hectares plantados no Rio Grande do Sul.
“Isso se sustenta em preço, rentabilidade e rotação de cultura. O agricultor que não estava inserido lá atrás, neste momento está olhando para a canola’, diz o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Canola, Vantuir Scarantti.
Do grão ao acerto industrial
O noroeste do Estado e a região das Missões concentram a maior parte da produção, sobretudo porque as indústrias processadoras estão instaladas neste raio. O maior município em área plantada é Tupanciretã, seguido de Giruá e São Luiz Gonzaga. Aos poucos, o grão começa a se espalhar, por exemplo, em direção ao sul do Estado.
Se há oferta no campo, há interesse na indústria. Com sede em Giruá, a Celena Alimentos é a principal processadora de canola no RS e consolida sua atuação com novos investimentos.
A companhia inaugurou em agosto de 2025 uma linha exclusiva para o processamento da canola em São Luís Gonzaga. Mas esta mesma linha já está sendo ampliada, para num futuro próximo chegar à capacidade de mil toneladas processadas por dia. Conforme o supervisor comercial agrícola da Celena Alimentos, Marcos Orzechoski, são investimentos constantes para acompanhar o crescimento da cultura.
“A facilidade hoje da colocação do grão na indústria é determinante para a aposta no inverno. A canola é muito responsiva quanto à tecnologia e não é tão afetada pelo clima como o trigo, que é mais sensível. Isso ajuda na tomada de decisão do agricultor e da própria indústria”, observa Orzechoski.
A chamada transição ou adição energética é um apelo muito forte à cultura da canola. Dividindo espaço com o trigo nesta frente — que igualmente vê ampliar investimentos no Estado como os encabeçados pela gigante Be8 —, a oleaginosa ganha papel de destaque nas iniciativas de processamento verde. Para a Embrapa, a oportunidade dos cultivos diversos é um grande diferencial para o Rio Grande do Sul e o Brasil.
“Somos privilegiados porque em muitos países eles têm que tomar uma decisão sobre uma cultura ou outra, e, no Brasil, tem espaço para todas”, analisou o chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento na Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola.
Para o dirigente da Celena Alimentos, os combustíveis verdes são a alavanca que impulsiona o crescimento em oferta e demanda no mercado nacional.
“Precisávamos de uma nova cultura que se adequasse bem ao mercado, e a canola se consolida como uma alternativa bastante sólida. O mercado de biocombustíveis é ascendente e sem volta”, comenta Orzechski,
Com o avanço dos biocombustíveis, a Abrascanola prevê um crescimento gradativo do cultivo, atraindo novos players e beneficiando toda a cadeia econômica, desde a pesquisa genética até a indústria, os transportes e o consumo.
Bruna Oliveira – GZH


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