BiodieselBR
Publicidade

Biocombustíveis fizeram EUA se tornarem importadores líquidos de óleo de soja

Aceleração no consumo de diesel de biomassa nos Estados Unidos está afetando os fluxos da commodity

BiodieselBR.com 7 min de leitura

Pela primeira vez em sua história, os Estados Unidos importaram mais óleo de soja do que exportaram. A diferença foi pequena – menos de 44 mil toneladas – mas dá uma boa medida do impacto que a expansão do mercado de diesel de biomassa vem tendo sobre os fluxos globais da commodity.

Não se trata de uma mudança pouco significativa em termos globais. Até poucos anos atrás, os Estados Unidos eram os maiores produtores do mundo da oleaginosa – pelas contas da FAO, o Brasil só foi assumir a liderança do mercado em 2019.

Além disso, o país é o segundo maior processador de soja do mundo, atrás apenas da China, e engatou uma sequência de recordes que, caso confirmadas as projeções mais recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), devem chegar até 2025 quando as indústrias do país irão processar 66 milhões de toneladas.

Pela primeira vez em sua história, os Estados Unidos importaram mais óleo de soja do que exportaram. A diferença foi pequena – menos de 44 mil toneladas – mas dá uma boa medida do impacto que a expansão do mercado de diesel de biomassa vem tendo sobre os fluxos globais da commodity.

Não se trata de uma mudança pouco significativa em termos globais. Até poucos anos atrás, os Estados Unidos eram os maiores produtores do mundo da oleaginosa – pelas contas da FAO, o Brasil só foi assumir a liderança do mercado em 2019.

Além disso, o país é o segundo maior processador de soja do mundo, atrás apenas da China, e engatou uma sequência de recordes que, caso confirmadas as projeções mais recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), devem chegar até 2025 quando as indústrias do país irão processar 66 milhões de toneladas.

Com muita soja para moer e uma base industrial robusta à disposição, não é de se estranhar que os Estados Unidos tradicionalmente sejam um grande exportador de óleo de soja. Nos dez anos entre 2013 e 2022, a indústria norte-americana exportou uma média de 806,6 mil toneladas de óleo de soja por ano.

Em 2023, no entanto, o mercado virou do avesso. Enquanto as exportações tombaram três quartos – 76,3% – de um ano para o outro, ficando abaixo de 150 mil toneladas, o volume importado avançou mais de 50%, fechando o ano em 193,9 mil toneladas.

Crescimento acelerado

Um relatório publicado este mês pelo USDA aponta que o principal driver dessa virada é a expansão do mercado de diesel de biomassa – categoria que engloba tanto o biodiesel convencional quanto o diesel verde – nos Estados Unidos. Os dados mais recentes da Administração de Informação de Energia (EIA) apontam que, entre 2022 e 2023, houve uma expansão de 38,3% na produção de alternativas renováveis do diesel de petróleo.

No total, as usinas e biorrefinarias norte-americanas fabricaram um pouco mais de 16,2 milhões de m³ do produto.

Essa alta tem sido puxada principalmente pelo crescimento acelerado do diesel verde. Em apenas um ano, a produção deste novo biocombustível, que é fabricado a partir do hidrotratamento de óleos e gorduras renováveis, avançou impressionantes 75%. No total, as biorrefinarias dos EUA fabricaram 9,81 milhões de m³.

Já os fabricantes de biodiesel convencional colocaram outros 6,43 milhões de m³ à disposição do mercado norte-americano. Avanço de 4,8% sobre o resultado de 2022.

Embora essa inversão já viesse se insinuando há algum tempo, esta foi a primeira vez que o diesel verde assumiu a liderança do mercado. Embora ambos sejam substitutos do diesel de petróleo, o diesel verde é quimicamente similar ao combustível fóssil e pode ser usado em qualquer percentual – até puro – em motores não modificados. Não é o caso do biodiesel, que precisa ser misturado em proporções relativamente menores ao diesel fóssil.

Califórnia

A despeito das diferenças técnicas entre os dois produtos, a legislação da Califórnia é o que tem realmente alavancado a produção local de diesel verde.

Maior economia dos EUA com PIB de US$ 3,23 trilhões – cerca de 14,5% do total –, os californianos consumiram 13,8 milhões de m³ de diesel no ano passado. Mais de metade do total, 7,43 milhões de m³, foram de diesel verde, com mais 1 milhão de m³ de biodiesel. Somando tudo, o diesel de biomassa representou 61% do diesel consumido na Califórnia. Apenas um ano antes, os renováveis representavam 45,2% do mix de diesel da Califórnia, com o diesel verde representando 5,22 milhões de m³ do volume consumido e o biodiesel nos mesmos 1 milhão de m³.

O motivo desse desequilíbrio entre as duas opções vem do fato de que o Low-Carbon Fuel Standard (LCFS) – lei californiana que incentiva o uso de energias renováveis no setor de transportes – limita o uso de biodiesel convencional a 5%, mas libera o volume de diesel renovável.

E há motivos para crer que a produção norte-americana esteja para receber um novo impulso. Dessa vez por conta de uma mudança na legislação federal. A partir da virada do ano, um subsídio de US$ 1 que vinha sendo pago para as petroleiras que misturam biomassa ao diesel mineral passará a ser pago diretamente aos fabricantes.

Embora pareça um pormenor, essa mudança deverá alavancar a indústria nacional. No último ano, os EUA importaram 3,21 milhões de m³ de biocombustíveis acabados que deverão passar a ser atendidos pela produção nacional.

Importação de óleos e gorduras

Para abastecer o crescimento da indústria, os Estados Unidos deverão não apenas acelerar a tendência de reterem uma parcela maior de sua própria produção de óleos e gorduras, como também aumentarem suas importações.

No último ano, as importações de óleos e gorduras diferentes de soja cresceram 40,4%, atingindo a marca de 10,2 milhões de toneladas. Descontadas as exportações, o saldo ficou negativo em cerca de 9,1 milhões de toneladas.

Diferente do que acontece com o óleo de soja, os EUA sempre foram importadores de outros óleos vegetais. Essa dependência externa se aprofundou de forma perceptível depois de 2021. Não tanto no segmento de óleo de palma, que parece não ter se desviado tanto de sua trajetória histórica, mas, certamente, no segmento de outros óleos.

Segundo o USDA, boa parte do volume extra que está entrando no país é de óleo de canola vindo do Canadá. A expectativa é que na temporada 2024/25, um pouco mais de 3,5 milhões de toneladas de óleo de canola sejam desembarcados nos portos dos EUA tanto para abastecerem diretamente a produção de biocombustíveis, como para reabastecer o mercado alimentar à medida que mais óleo de soja passa a ser absorvido pelos fabricantes de biodiesel e diesel verde.

Mas a busca por matérias-primas para o setor de biocombustíveis extrapola a oferta de óleos virgens. Isso levou os EUA a se tornarem importadores líquidos de gordura animal e óleo de cozinha usado, que são materiais considerados residuais e, portanto, têm balanço de carbono mais vantajoso. Característica valorizada pela indústria de biocombustíveis.

Apenas no último ano, os EUA multiplicaram por três vezes e meia seu déficit no volume de gordura animal, que foi para 644,5 mil toneladas, e em 33 vezes o de óleo de cozinha usado, que beirou os 1,18 milhão de toneladas. As importações de ambos os produtos movimentaram mais de US$ 3 bilhões.

O aumento repentino do mercado já alimenta, inclusive, tensões comerciais. Em maio passado, um grupo de fabricantes de biocombustíveis dos Estados Unidos passou a acusar a China de vender óleo de palma virgem como se fosse óleo de cozinha usado pela União Europeia em meados do ano passado.

No Brasil, a demanda crescente nos Estados Unidos já afeta a disponibilidade de sebo bovino e começa, também, a impactar o mercado de coleta e reciclagem de óleo de cozinha usado.

Embora a coleta de óleos e gorduras residuais no Brasil ainda não seja uma atividade tão estruturada, tudo indica que isso vem mudando rapidamente. Dados oficiais do governo brasileiro apontam que, no último ano, o segmento exportou 26,2 mil toneladas de óleos pós-consumo. Já de janeiro a maio deste ano, os embarques já passam das 20,6 mil toneladas.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

Compartilhar: