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Salvando vidas: biodiesel e a poluição em São Paulo


BiodieselBR.com - 31 out 2012 - 15:56 - Última atualização em: 01 nov 2012 - 17:46
Paulo Saldiva
As palestras da Conferência BiodieselBR 2012 tiveram início no dia 1º de outubro com o médico Paulo Saldiva, especialista em patologia pulmonar. O pesquisador e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) destacou a relação entre o aumento da poluição e os malefícios à saúde sofridos pela população que vive nas grandes metrópoles brasileiras. Os estudos de Saldiva apontam que uma redução de 10% na poluição do ar na cidade de São Paulo poderia salvar a vida de 114 mil pessoas adultas e 735 crianças por ano.

A análise dos pulmões de paulistanos não fumantes, explicou o médico, apontam uma elevada concentração de grafite, metais, hidrocarbonetos e outros compostos no tecido. Esses compostos não são expelidos e acabam provocando um processo inflamatório”, apontou. Os dados coletados por Saldiva indicam que há uma relação direta entre o aumento do acúmulo de material particulado no ar e um aumento do risco de morte para a população.
Para comprovar essa realidade alarmante, o cientista apresentou os resultados de inúmeros estudos que comprovam a existência de uma correlação direta entre a exposição aos poluentes produzidos pelo trânsito e a mortalidade por falência cardíaca.
O ângulo do gráfico [da relação entre a poluição e o aumento do risco de morte] aponta uma média de 4 mil mortes por ano no estado de São Paulo, destacou. Isso é mais do que as mortes causadas por Aids e tuberculose.

Para o pesquisador, a situação é particularmente grave em metrópoles como São Paulo, por causa do aumento não só da poluição, mas do tráfego e dos congestionamentos. Segundo Saldiva, o acúmulo de material particulado no ar, evidenciado nos dias de inversão térmica
na cidade, pode parecer homogêneo, mas na realidade é muito mais intenso nas imediações de áreas com maior concentração de tráfego. Ainda por cima, o excesso de carros nas ruas de São Paulo acaba aumentando problemas de mobilidade, que os carros, em tese, foram inventados para resolver. Em São Paulo hoje se anda a uma velocidade média de 12 quilômetros por hora. Isso significa que todo o investimento feito em tecnologia não se traduziu em maior mobilidade, porque foi focado na mobilidade individual, revelou.

Tudo isso resulta numa combinação perigosa. As pessoas estão passando mais tempo expostas em regiões que concentram justamente os maiores índices de acúmulo de material particulado no ar. Ficamos cada vez mais presos a esse cenário, advertiu o médico. Para ilustrar como a poluição influi no risco de morte dos paulistanos, Saldiva apresentou um estudo que relaciona a ocorrência de infartos com a rotina seguida pelos pacientes nos três dias anteriores ao evento. Há uma relação entre o infarto e o tempo de permanência no tráfego, apontou. O risco de enfartar aumenta cerca de 2,5 vezes nas duas horas seguintes ao paciente ficar exposto ao tráfego.  

Pior que cigarro 

Para o médico, reduzir a poluição seria muito mais eficiente para salvar vidas do que as campanhas contra o consumo de cigarro. Embora o fumo seja um fator de risco muito maior, tem seus riscos circunscritos aos fumantes, enquanto a poluição atmosférica atinge a população como um todo. Ele dá mais um exemplo: só a diferença entre o nível de poluição médio registrado em São Paulo em relação ao de Curitiba já significa 3,5 anos a mais de expectativa de vida.

O médico declarou que não entende por que as decisões sobre aumento do teor de combustíveis renováveis, como o biodiesel, terminam sempre barradas pelas preocupações com os efeitos inflacionários ou manutenção dos motores. O Ministério da Saúde tinha que estar aqui, porque é ele que paga a conta, alertou. Isso porque, além do aumento no número de mortes, a poluição também resulta em outros efeitos danosos, como problemas respiratórios, crises de asma, doenças cardíacas.

Na opinião do palestrante, se nas contas do PNPB fossem levados em consideração os gastos extras que a poluição acarreta ao sistema de saúde pública e os prejuízos econômicos relacionados com mortes prematuras e perda de produtividade, haveria pouca dúvida de que a roca do diesel fóssil por uma alternativa mais limpa é bom negócio.

Saldiva também destacou dados da Organização Mundial de Saúde que apontam que o número de mortes causadas por malária e água contaminada irá diminuir até 2050, enquanto as provocadas pelo aumento da poluição do ar aumentarão. O que vemos é que nos locais onde há investimento em pesquisa científica, há uma diminuição dos níveis de materiais particulados no ar. A poluição está se deslocando para a Ásia, América Latina e África.

Rosiane Freitas – BiodieselBR.com