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Governo sabotou o programa de biodiesel


BiodieselBR.com - 31 out 2012 - 15:56 - Última atualização em: 01 nov 2012 - 17:53
jose carlos aguilera
O sonho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de transformar a mamona num motor de desenvolvimento do Nordeste brasileiro foi um dos motes do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). Mas, segundo o ex-presidente da Brasil Ecodiesel, José Carlos Aguilera, em declaração durante a Conferência BiodieselBR 2012, o próprio ex-presidente “jogou a pá de cal no processo no momento em que viu que a mamona não se concretizou, quando viu que a oleaginosa determinante era a soja.”

“Espero que o governo brasileiro perceba que ao sacrificar essa geração ele não está sacrificando esse momento, mas está sacrificando o futuro desse país”, decretou o executivo. Ele também desejou sorte “aos sobreviventes”, uma vez não está mais ligado à indústria de biodiesel. A própria Brasil Ecodiesel – empresa que Aguilera assumiu com a missão de salvar da bancarrota e com a qual não tem mais qualquer ligação –, que já foi a força dominante do ramo de biodiesel, saiu do negócio. A empresa agora quer se tornar uma potência em outros setores do agronegócio.

Para Aguilera, o governo substituiu o sonho de promover o uso de energias renováveis com o biodiesel pelo Pré-sal. “Desde então, o biodiesel saiu da agenda do governo”, apontou. Para ele, o ex-presidente Lula trabalhou o programa muito atrelado à mamona e à ideia de que a promoção do biodiesel seria uma ferramenta para alavancar uma série de objetivos de ordem social. “Estava tudo ancorado no desenvolvimento da agricultura familiar no Semiárido brasileiro. Era um potinho de mamona. Depois integraram o pinhão-manso. É de lá que vai sair a matéria-prima, os recursos que vão sustentar a revolução”, recordou.

No entanto, disse Aguilera, “só um marciano não poderia ver que a soja seria determinante”. O sinal mais evidente de que as coisas não teriam como ser de outro jeito era a própria pujança da soja com sua enorme área plantada. “A soja tinha na época 20 milhões de hectares. Hoje está perto de 26 milhões de hectares. Metade da área agrícola do Brasil está com soja. Estamos entre os maiores produtores. Tudo mostrava que esse mercado seria da soja”, elencou. Ele também lembrou que na Brasil Ecodiesel, por dois anos, uma equipe de 580 profissionais tentou desenvolver a mamona no Nordeste brasileiro. “Foi um fracasso total”, admitiu.

O empresário também criticou a atual aposta na palma. Ele diz que embora haja megaprojetos calcados no plantio de palma de óleo – um tocado pela Vale e outro pela Petrobras – é necessário compreendê-los corretamente antes de depositarmos todas as esperanças em mais essa oleaginosa. “A gente tem que entender os fatores que levaram a Vale a fazer isso [investir em palma]. É por um motivo totalmente alheio à possibilidade da palma substituir a soja”, opinou. Ele lembrou que a maior produtora de palma de óleo do país há muito abandou qualquer ambição no segmento de biodiesel, preferindo se concentrarem mercados mais rentáveis.

O palestrante também relatou que um dos maiores produtores de palma da Tailândia esteve no Brasil em 2009 com a intenção de investir em palma no Pará. “Gostaria que vocês identificassem um desses 50 mil hectares [que o produtor estipulou que ia plantar na região]”, desafiou. A razão da desistência, segundo Aguilera, seria o alto preço da mão de obra brasileira quando comparado ao que é pago na Ásia. “Lá ele tem uma relação quase escravocrata com o operariado”, disse. O custo aqui ia ser muito maior, avaliou, sem contar os valores que precisariam ser investidos na agricultura familiar.

Social

Para Aguilera, o papel social estipulado para o programa de biodiesel tem pouco a ver com sua função real. “No mundo todo o fundamento do biocombustível está em duas pontas: segurança energética e problemas ambientais. As nações levam em consideração essas duas coisas ao tomar suas decisões sobre energia limpa. Não tem agricultura familiar, não tem fixação do homem no campo”, defendeu.

No Brasil, avaliou, a agricultura familiar acabou se convertendo num tributo que a indústria de biodiesel precisa pagar. “Eles pagam a título de incentivar e inserir na sociedade os agricultores familiares. Há empresas que compram mamona para justificar o Selo Combustível Social e depois vendem sem fazer biodiesel. É socialmente louvável, mas não tem nada a ver com biodiesel”, disse.

Aguilera defendeu que a missão do Brasil é “alimentar o mundo”. “A capacidade de resposta do agronegócio brasileiro é inconteste. Temos que aproveitá-la. Somos líderes nisso. Esse é o nosso papel”, completou. Também disse que o biodiesel tem que ser entendido como parte dessa indústria maior que é o agronegócio. “Estamos falando de agronegócio. Não de um negócio, que é o biodiesel. É a cadeia como um todo. Quando vejo alguém na plateia dizer que o risco é um pouco alto, penso que é o risco de uma nação, projeto de uma nação. Nossa agricultura é nossa vida”, discursou.

O Brasil deveria ter uma ação mais firme em relação aos biocombustíveis, conectada à política de segurança energética do país. Para Aguilera, essa área terá como líder os Estados Unidos, que decidiram investir na produção de etanol, destinando 40% de sua produção de milho para esse fim. “Apesar deles estarem vivendo um boom de extração de petróleo, o governo norte-americano tomou essa decisão”, destacou.

“Essa é uma agenda que é válida mesmo na quebra da safra americana, mesmo quando há outras possibilidades de extração”, apontou. A produção de 50 bilhões de litros de etanol nos EUA significa, para Aguilera, a destruição de parte da safra nacional de milho. Mesmo a quebra da safra desse ano não alterou essa programação. “O mundo está pagando essa conta”, concluiu.

Rosiane Freitas – BiodieselBR.com

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