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Debate: Diesel de Cana


BiodieselBR.com - 31 out 2012 - 15:56 - Última atualização em: 31 out 2012 - 18:22
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As perspectivas de crescimento do diesel renovável feito a partir de cana-de-açúcar foram o tema do debate de encerramento da Conferência BiodieselBR 2012.

As perspectivas de crescimento do diesel renovável feito a partir de cana-de-açúcar foram o tema do debate de encerramento da Conferência BiodieselBR 2012. A conversa foi mediada pelo professor José Vitor Bomtempo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e colocou frente a frente o diretor da Amyris do Brasil, Adilson Liebsch, e o diretor da LS9, Michael Rinelli.

Em sua fala de abertura do debate, Bomtempo ressaltou que as estratégias de ambas as empresas possuem diversos pontos de contato. Para começar, as duas vem atuando com produtos da biologia sintética para converter açúcares de cana em diesel renovável, o que faz de seus produtos biocombustíveis de 1ª geração. Mas ambas também estão de olho nas tecnologias de 2ª geração, que vão agregar valor à biomassa que hoje é considerada um simples rejeito agrícola.

As duas também possuem um background bastante típico das start-ups de tecnologia dos Estados Unidos, tendo nascido em função de pesquisas desenvolvidas dentro de universidades norte-americanas de ponta. Além disso, optaram por se instalar no Brasil para fazer o desenvolvimento industrial de suas tecnologias e contam com um portfólio de produtos que não se baseia apenas na aposta nos biocombustíveis. Nas palavras de Bomtempo, a questão mais imediata é: quanto falta até que o custo dos produtos da Amyris e da LS9 seja competitivo?

Adilson Liebsch informou que não tem um número totalmente fechado ainda, mas que a lógica da formação de preço do diesel de cana da Amyris não é muito distinta da registrada pela indústria do biodiesel, com a matéria-prima correspondendo a algo entre 70% e 80% do custo do produto final, sem contar que a escala e a verticalização pode ter um grande impacto na viabilidade financeira da operação.

“Nossa meta numa primeira fase é sermos competitivos em relação ao biodiesel convencional. Se as nossas projeções sobre a produção de matéria-prima estiverem corretas, poderemos chegar a ser competitivos em relação ao diesel de petróleo”, completou o executivo.

Entre as informações trazidas por Michael Rinelli, uma das que mais chamaram o interesse da plateia foram as pesquisas da LS9 a respeito do potencial de aproveitamento da glicerina como matéria-prima para o diesel renovável. Bomtempo aproveitou o debate para questionar Rinelli sobre o rendimento dessa conversão. O palestrante respondeu que a meta é chegar perto de 85% de conversão, mas que esse é um objetivo comercial, e que nada impeimpediria a reação de ser otimizada acima de 90%.

Outro tema que preocupou a plateia foi a possibilidade da fabricação de diesel de cana vir a competir com o etanol pela disponibilidade de matéria-prima. Segundo Liebsch, não seria o caso. As projeções da Amyris indicam que mesmo que a empresa atinja 100% da sua meta de abastecer veículos de transporte público das principais cidades brasileiras com seu diesel de cana até 2020, o impacto na oferta de matéria-prima seria modesto. “A gente consumiria cerca de 34 milhões de toneladas de cana para uma produção que, hoje, já é superior a 600 milhões de toneladas e deve crescer bastante nos próximos anos”, declarou.

Ao dar mais opções comerciais para a indústria sucroalcooleira e tornar a cana-de-açúcar mais atraente para os investidores, Liebsch acredita que o trabalho da Amyris pode até catalisar o crescimento da área plantada com canaviais.

Rinelli concordou que as novidades que a LS9 e a Amyris estão colocando no mercado não deverão representar qualquer problema para a oferta das usinas de etanol. “Nossa produção vai somar uma parcela muito pequena da terra que se usa hoje para plantar cana”, disse. Isso sem contar o crescimento na produtividade esperada para os canaviais, conforme variedades mais produtivas, derivadas da engenharia genética, entrarem no mercado. E há também o salto esperado quando as primeiras tecnologias de 2ª geração começarem a virar realidade.

Outra vantagem que o executivo destacou está no fato de as tecnologias que a LS9 está desenvolvendo se enquadrarem no conceito de biorrefinarias flexíveis. Estas podem processar mais de um tipo de matéria-prima e produzir mais de um tipo de produto. Haveria até uma complementariedade entre o biodiesel comum e o novo produto. “Uma das ideias que temos trabalhado é usar o nosso biocombustível como um aditivo para fazer melhoria do blend do biodiesel”, explicou.

A crise que o setor canavieiro está vivendo nesses últimos anos, segundo Bomtempo, tem sido principalmente de oferta de matéria- -prima, o que beneficiaria usinas verticalizadas. O acadêmico questionou se esse era um caminho que os palestrantes vislumbravam.

Para Liebsch, esse não é o caso da Amyris, que está apostando num modelo de parcerias com usinas de etanol para garantir acesso à cana.

Rinelli foi na mesma linha ao reconhecer que o negócio da LS9 é o desenvolvimento de biotecnologias. “Produção agrícola não é bem nossa área, então vamos trabalhar com parceiros e usinas que entendem mais que a gente sobre produção agrícola.”

Como uma provocação final, Bomtempo perguntou aos dois palestrantes como eles imaginavam a Conferência BiodieselBR 2022.

“Em dez anos, o paradigma vai mudar. Teremos uma diversidade maior tanto de matérias- -primas quanto de tecnologias do tipo drop–in, que você consegue jogar no tanque dos veículos sem ter que fazer adaptação nenhuma dos motores”, arriscou.

Rinelli acrescentou que, além do diesel de cana, em dez anos a Conferência BiodieselBR deverá tratar do diesel feito a partir da biomassa do eucalipto. “A velocidade de evolução vai ser muito grande e vamos falar desses novos produtos da cadeia do agronegócio. O Brasil só tem a ganhar com esses novos desenvolvimentos”, comemorou.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

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