Bio

Falta de mudas e burocracia atrapalham desenvolvimento do dendê


BiodieselBR.com - 06 abr 2011 - 23:30 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:16
Mudas de dendê estão em falta no mercado brasileiro impactando os projetos de crescimento do setor. Empresários reclamam de burocracia e governo diz que é necessário planejamento e cautela

O Brasil tem um plano ambicioso em relação ao mercado de palma de óleo. Mas o crescimento acelerado da área plantada pode estar limitado por uma barreira que promete ser difícil de ser contornada: a escassa disponibilidade de mudas com genética definida para o plantio das lavouras.

Segundo o coordenador geral de agroenergia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Denilson Ferreira, essa dificuldade é uma bola que já vinha sendo cantada desde antes do governo lançar o Programa de Produção Sustentável de Palma de Óleo em maio passado. “A falta de mudas é um problema mundial da indústria de palma, não é só aqui no Brasil”, diz acrescentando que a existência desse gargalo até se encontra sinalizada no material que o MAPA elaborou para a divulgação do programa.

O chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Frederico Durães, também não demonstra a menor surpresa. “Nos últimos 40 anos o Brasil plantou 70 mil hectares de palma, mas agora existe a perspectiva de plantarmos 400 mil hectares num horizonte entre 5 e 10 anos”, esclarece calculando que é preciso entre 180 a 200 mudas para se chegar a um hectare de dendê adulto que tem, em média, 144 plantas.

Esses números colocam a demanda brasileira em algum lugar entre 72 e 80 milhões de mudas – e isso sem levar em conta a necessidade de reposição das lavouras atuais ou eventuais perdas. Não é coisa que se encontre nas prateleiras, assim, de uma hora para outra até por que, segundo Durães, esse volume ficaria bem perto da produção de mudas de dendê mundial.

Hoje a Embrapa é a única produtora de sementes para o mercado nacional e, embora esteja com um projeto engatilhado que deve ampliar sua capacidade produtiva de sementes para mais de dois milhões de unidades até o final desse ano, Durães alerta que o foco da empresa é pesquisa e não o abastecimento do mercado. “Nós queremos repassar a tecnologia de produção de sementes para o setor privado para que eles possam ampliar a oferta”, resume, apontando que já está em busca de parceiros comerciais.

Na falta de material nacional, alguns dos grandes projetos de plantio de palma esperavam poder recorrer ao mercado externo, mas importar mudas não é tarefa fácil. É o que alerta o diretor comercial do Grupo Agropalma, Marcello Brito, para quem o problema maior não está na disponibilidade das mudas no mercado mundial, mas no excesso de burocracia. “Alguns processos chegam a durar entre três a cinco anos”, reclama apontando que a Agropalma só não enfrenta dificuldades por contar com 29 anos de experiência no plantio de palma. “Nossas encomendas de mudas são feitas com uma antecedência entre dois e três anos”, explica.

O presidente da Biovale – subsidiária da mineradora Vale que está tocando o maior projeto de plantio de palma do país –, Silvio Maia, garante que existe boa disponibilidade de sementes na Indonésia por causa da redução dos plantios no país asiático, mas indica que não tem sido fácil trazer esse material para o Brasil por causa da “dificuldade de obtenção das permissões de importação para estas sementes”.

De acordo com Durães, não se tratam de entraves aleatórios criados por vontade do governo. Além de ressaltar que o Brasil é signatário de acordos internacionais de proteção de cultivares, o pesquisador alerta que todo o cuidado é pouco quando se trata desse tipo de importação por causa dos riscos de trazer uma praga de fora. Para justificar toda essa cautela, Ferreira lembra da forma como a doença Vassoura de Bruxa arrasou com as lavouras de cacau na Bahia.

Embora o cuidado possa ser saudável, ela demanda que os interessados em investir em projetos de palma planejem com um grau de antecipação difícil para um recém-chegado. Embora reconheça que os projetos em andamento ou anunciado tem tido dificuldades em encontrar mudas, Silvio Maia, assegura que isso não tem afetado seus cronogramas de plantio. “Nosso fornecimento de sementes tem sido atendido de forma satisfatória”, assegura o presidente da Biovale, atribuindo isso ao planejamento de longo prazo e aos contratos fechados antecipadamente com os fornecedores.

De acordo com as projeções do Ministério da Agricultura, ainda faltam cinco anos até que a capacidade de produção de sementes do Brasil consiga dar conta do mercado interno. Até lá os produtores terão que ter paciência e muito planejamento.

O biodiesel e a palma de óleo
A reportagem “Um oceano de palma ” publicada na última edição da Revista BiodieselBR abordou em profundidade o desenvolvimento da planta no Brasil e a estratégia de algumas usinas de biodiesel em relação ao dendê.

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com