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A história conta que, durante um final de semana em 1977, Expedito descansava sob a sombra de um ingazeiro em seu sítio no município de Pacoti, quando o formato dos frutos da árvore chamou sua atenção. De repente, sua mente teve um estalo e o formato da molécula de biodiesel surgiu – prontinho – em sua cabeça, qual uma revelação. Menos de uma semana depois, ele não só já tinha dominado o processo de produção como já fazia motores funcionarem com o novo biocombustível. O resultado é que em 1983 o cientista obteve a primeira patente brasileira para a produção de biodiesel em escala.
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Fábio Rodrigues, de São Paulo
“Papai nunca gostou dessa conversa de ‘pai do biodiesel’. Para ele, as substâncias químicas são naturais, ninguém as inventa”, lembra Expedito Parente Jr. Gostasse ou não, Expedito Parente – Sênior – acabou entrando para a história brasileira com essa alcunha. Na mitologia do setor dificilmente há narrativa mais solene do que a da invenção do biodiesel pelo engenheiro químico cearense, falecido em 2011. Nas devidas proporções, é o nosso Gênesis.
A história conta que, durante um final de semana em 1977, Expedito descansava sob a sombra de um ingazeiro em seu sítio no município de Pacoti, quando o formato dos frutos da árvore chamou sua atenção. De repente, sua mente teve um estalo e o formato da molécula de biodiesel surgiu – prontinho – em sua cabeça, qual uma revelação. Menos de uma semana depois, ele não só já tinha dominado o processo de produção como já fazia motores funcionarem com o novo biocombustível. O resultado é que em 1983 o cientista obteve a primeira patente brasileira para a produção de biodiesel em escala.
Mas seria injusto dar-lhe todo o crédito. Primeiro porque, mundialmente, a primeira patente para o biodiesel apareceu em 1937, pelas mãos do pesquisador belga G. Chavanne. Além disso, desde 1975 o governo militar mantinha o Plano de Produção de Óleos Vegetais para Fins Energéticos (Pro-óleo), uma espécie de irmão menos notório e bem-sucedido do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), com foco na busca por uma alternativa nacional ao diesel importado. Ambas as iniciativas foram desenhadas para tentar blindar o país contra choques nos preços do petróleo como o de 1973, quando uma redução na oferta dos países da Opep fez o preço do barril disparar [veja gráfico].
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Pro-óleo / Oveg
Em algum momento – nenhuma das fontes ouvidas por esta reportagem soube precisar quando – o Pro-óleo cedeu lugar ao Programa de Óleos Vegetais (Oveg), que permaneceu ativo até 1985. “[Esse programa] tinha uma visão geopolítica muito forte. O que o governo queria saber era se, no caso de uma situação extrema como uma guerra no Oriente Médio, teríamos uma alternativa viável”, explica Fábio Trigueirinho, que, como secretário da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), acompanhou a iniciativa. “Foi algo muito ousado”, elogia o economista, acrescentando que ao longo dos testes foram rodados 1 milhão de quilômetros – o equivalente a fazer 180 vezes a proverbial viagem entre o Oiapoque (AM) e o Chuí (RS).Outro dos veteranos do Oveg foi Francisco Nigro, que na época era pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), sendo responsável por conduzir uma parte importante desses testes todos. Ele conta que quando as atividades começaram, o biodiesel sequer existia e a ideia inicial era avaliar o uso de óleo vegetal in natura. “Tivemos uma série de problemas relacionados à formação de depósitos em motores de injeção direta”, relembra. A alternativa seria usar motores com pré-câmara, onde o óleo vegetal funcionava melhor, o que teria como efeito colateral uma perda de eficiência nos motores. “Não seria uma boa opção”, arremata.
Foi para resolver essa dificuldade que os técnicos do Oveg acabaram trocando o óleo vegetal pela novidade descoberta por Expedido Parente. O nome “biodiesel” ainda nem tinha sido cunhado. “Para nós eram ésteres de óleos vegetais. A gente rodava os motores usando misturas de até 30% de ésteres metílicos e etílicos”, completa o pesquisador.
Passados 30 anos desde o encerramento do programa, uma parte significativa do que sabemos a respeito do biodiesel e suas interações com motores continua sendo o que foi descoberto por esses primeiros pesquisadores. “As conclusões a que chegamos continuam válidas. Eu uso o material [do Oveg] até hoje”, orgulha-se Nigro.
De modo geral, o biodiesel passou no teste inaugural. Logo nas primeiras páginas de seu relatório final do Programa Oveg – publicado em 1985 – está dito que se trata de “uma opção adequada para substituir o diesel”. Trigueirinho confirma. “Tivemos alguns problemas localizados, mas nada que mostrasse que a tecnologia estava fundamentalmente errada”, resume.
Preço alto
Ainda assim, foram precisos praticamente 20 anos antes que o biodiesel saísse dos laboratórios. O motivo? A relação pouco favorável entre os preços do diesel convencional e do produto renovável. Com o impacto da crise do petróleo ficando cada vez mais para trás, a conta já não fechava mais. Resultado: o governo federal engavetou o projeto. “O Brasil desenvolveu a tecnologia, mas teve que deixá-la na prateleira”, pontua Trigueirinho.Cabe lembrar que, na época, o Brasil estava longe de ser uma potência global da sojicultura. Em 1985, a área plantada com soja no país era pouco maior que 10 milhões de hectares e a produção chegava a 18,2 milhões de toneladas. Três décadas mais tarde, multiplicamos esses números por um fator 3 e 5, respectivamente. Segundo a Conab, na safra atual chegamos a 31,9 milhões de hectares plantados e a uma produção de 96,2 milhões de toneladas.
Até Expedito Jr. admite que não dava pé. Ao comparar os motivos do sucesso do Proálcool com a aparente falta de interesse pelo Pro-óleo/Oveg, o entrevistado ressalta que “a cultura da cana tem uma história muito maior que a de oleaginosas no Brasil”. “A gente já tinha uma indústria importante de açúcar que poderia se beneficiar com a abertura do mercadode etanol”, pondera, isentando o governo federal de culpa sobre o final um tanto melancólico daquela primeira empreitada. “A falta de apoio governamental naquela época foi muito mais uma consequência dessa imaturidade do que sua causa”, sintetiza.
Preço baixo
Encerrado o Oveg, o entusiasmo com o biodiesel refluiu até que o biocombustível desapareceu do radar. Mesmo no meio acadêmico. “O interesse praticamente não existia”, lamenta Expedito Jr.Acontece que o mundo dá voltas e, lá por meados dos anos 90, o Brasil não só tinha se tornado um grande produtor de soja como a indústria de esmagamento já não sabia o que fazer com todo o óleo que produzia. O diretor-presidente da Oleoplan, Irineu Boff, lembra dessa época. “Na virada para os anos 2000, a tonelada do óleo [de soja] estava girando em torno dos US$ 300. Era um preço muito baixo, que estava prejudicando todo mundo”, recorda.
Nesse contexto, não demorou para que os esmagadores voltassem a falar no Oveg. “Entre os anos de 1997 e 2000, começamos a promover seminários sobre o biodiesel aqui no Rio Grande do Sul”, relata o empresário. O timing não poderia ter sido melhor: a preocupação com as mudanças climáticas vinha alimentando um revival no interesse global por biocombustíveis. Foi mais ou menos nessa mesma época que a Europa começou a dar os primeiros passos para estabelecer sua própria indústria de biodiesel, o que reacendeu o interesse nos meios acadêmicos – inclusive aqui no Brasil. “Os meios universitários compraram a ideia de que o biodiesel poderia ser um programa antipoluição. O clima era muito favorável, com uma consciência de que [o biodiesel] era uma necessidade e que acabaria acontecendo [o programa]”, conclui.
Foi nesse período que começou a se consolidar a noção de que o biodiesel poderia ser uma oportunidade promissora de negócios. Vários empresários que permanecem ativos no setor até hoje começaram a se aglutinar e investir na ideia. “O Juan Diego [Ferrés], da Granol, foi um dos maiores incentivadores dessa ideia”, homenageia Irineu, confidenciando que a própria Oleoplan já tinha um protótipo de usina totalmente funcional em 2002. A paulista Fertibom também começou a espichar o olho nessa direção mais nos primeiros anos do século. De acordo com o diretor geral da companhia, Geraldo Martins, o plano era atender a demanda de grandes clientes do setor agrícola. “Nosso objetivo era fazer biodiesel para nossos clientes que são produtores de açúcar, laranja etc. e usam muito diesel em seu maquinário”, recorda. A proximidade com o segmento sucroalcooleiro levou a companhia a ser uma das poucas a desenvolver uma tecnologia para a produção de biodiesel pela rota etílica. “Porque a gente achava que faria mais sentido usar o álcool de nossos clientes e devolver o biodiesel para eles”, resume.
A confiança era tanta que a empresa chegou a fabricar 1 milhão de litros de biodiesel de sebo anos antes do lançamento do PNPB.
Com o interesse crescente, faltava atrair o governo para a mesa. Foi então que a Abiove começou a rondar a Agencia Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocom-bustíveis (ANP) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “Sentimos que tinha receptividade e que a discussão sobre um programa de biodiesel poderia ser retomada”, relata Trigueirinho, da Abiove.
“Quando chegou gente [na ANP] falando em fazer um novo biocombustível, aquilo soou como música para mim”, diverte-se Luiz Horta Nogueira, que entre 1998 e 2004 ocupou o posto de diretor técnico da ANP. Durante boa parte de sua longa carreira acadêmica, Horta havia trabalhado com a questão da bioenergia, o que fez dele a pessoa certa no lugar certo para fazer a ponte entre a agência reguladora e a Abiove.
A primeira especificação nacional do biodiesel – Portaria ANP 255/03 – foi obra da equipe liderada por Horta. “Fizemos uma série de eventos com técnicos da Europa e dos Estados Unidos para que a gente pudesse fazer uma especificação baseada na deles”, conta, explicando que esse foi o primeiro documento oficial a impulsionar o biodiesel ao permitir que fossem feitos novos testes em frotas cativas.
Pilar social
Enquanto as coisas iam fermentando por esse lado, no Nordeste Expedito Parente também sentia que havia uma nova abertura para a criação de um programa de biodiesel no Brasil. Para ele, a vitória de Lula no pleito de 2002 foi o que seria a chave de uma nova janela de oportunidade. Especialmente quando o ex-governador cearense Ciro Gomes foi nomeado ministro da Integração Nacional. “Convencemos o governo do estado a patrocinar um estudo sobre as potencialidades da indústria do biodiesel e da revitalização da cultura de mamona no Ceará”, explica Expedito Jr.Meio que sem saber, eles haviam acertado na mosca e mudado substancialmente o rumo da futura indústria de brasileira de biodiesel. O documento com os resultados foi apresentado ao ministro Ciro em abril de 2003, que resolveu que o então titular da pasta da Agricultura, Roberto Rodrigues, poderia se interessar. “O Roberto Rodrigues achou que aquilo era a cara do Lula, porque tinha tudo a ver com a agricultura familiar”, diz [parte dessa história já havia sido contada na entrevista que Roberto Rodrigues deu à edição 28 de BiodieselBR]. “Pouco depois disso [em dezembro de 2013], foi criada a Comissão Executiva Interministerial que desenharia o PNPB. O resto dessa história é bem conhecida”, completa.
Foi quando o biodiesel começou a realmente ganhar a(s) cara(s) que tem hoje em dia. Foi o biodiesel que atraiu José Honório Accarini para sua atual colocação na Casa Civil. “Eu tinha experiência na área de economia agrícola e como consultor do MDA quando fui convidado para atuar na Casa Civil durante o ciclo de audiências que deu origem ao PNPB”, aponta.
Rafael Menezes, atualmente coordenador do MCTI, mas que, então, trabalhava na Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica, também começou a ter parte ativa no PNPB desde o começo. Ele foi um dos articuladores na formação da Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel (RBTB). “Trabalhei diretamente com os técnicos que estavam responsáveis pelo biodiesel no MCTI”, narra.
Talvez um pouco menos visível, o esforço foi igualmente importante na espinha dorsal do PNPB, não apenas por envolverde forma articulada todos os grupos de pesquisa relacionados ao biodiesel, mas também porque permitiu estruturar uma rede de laboratórios de caracterização e controle de qualidade que foi fundamental para que a introdução do biodiesel acontecesse sem grandes sustos. “A capacitação e estruturação dessa rede foi um grande esforço do ministério em parceria com a ANP”, diz.
Como se vê, colocar um programa dessa envergadura para funcionar era um desafio nada trivial. Para a coisa toda engrenar, muita coisa tinha que dar certo ao mesmo tempo, e em parte foi por isso que o governo optou por iniciar o programa por uma etapa autorizativa entre 2006 e 2007. “Foi uma decisão muito sábia porque proporcionou uma curva de aprendizado”, afirma Accarini.
Isso também aumentou a janela de tempo para que mais gente aderisse à novidade. Embora seja um dos nomes mais reconhecidos do setor, Erasmo Battistella não faz parte da primeira onda de pioneiros. “Eu fiquei sabendo do biodiesel em 2004, quando me mostraram uma reportagem sobre o assunto”, explica. Dono de uma pequena rede de postos, mas com background na área agrícola, ele logo percebeu que o biodiesel seria uma grande oportunidade para empresários da região Sul e, por isso, em 2005 iniciou o projeto que levaria à fundação da BSBios. “O Sul sempre foi um grande produtor de soja e sempre teve muita agricultura familiar, então estávamos no lugar certo do ponto de vista da matéria-prima”, explica.
Para valer
Erasmo não foi o único. Entre março de 2005 – mês em que a Soyminas se tornou a primeira usina comercial autorizada a vender biodiesel – e o lançamento do B2 obrigatório em janeiro de 2008, nada menos que 51 usinas de biodiesel haviam sido inauguradas no país, com um potencial produtivo somado da ordem de 3,36 bilhões de litros.Em parte, Erasmo atribui essa marcha acelerada ao sistema de leilões bolado pelo governo federal. “Uma dificuldade que tínhamos no começo era convencer os bancos a financiarem usinas. Foi quando o governo veio com essa sistemática de leilões”, aponta Battistella, garantindo que a conversa com os banqueiros flui muito melhor com um contrato assegurando a venda de alguns milhões de litros na mesa.
O sucesso não foi sem custo. Esses primeiros leilões criaram sua própria cota de dificuldades por obrigarem as usinas a se comprometer a entregar biodiesel a preços fixos por períodos muito longos de tempo. “Apesar das boas intenções,[o leilão] tinha uma formatação equivocada de querer preços fixos por muito tempo. Se você consultar a lista de usinas dos primeiros leilões, vai ver que muitas não conseguiram ficar no mercado”, lamenta. “Essas empresas pagaram um preço muito caro por esse aprendizado”, arremata.
De fato, se pegarmos uma lista com as 11 empresas vencedoras dos Leilões 6 e 7 – que negociaram o biodiesel usado na estreia da fase obrigatória – nada menos de 5 já saíram do mercado. E todas as cinco usinas do primeiro leilão não estão mais em funcionamento.
Da parte de iniciar a toda velocidade, não faltava quem não estivesse convencido. Segundo o diretor do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), Luciano Libório, as muitas distribuidoras estavam um pouco céticas quanto ao futuro do programa. “Todo mundo ficou esperando para ver se a coisa ia mesmo para a frente, o que eu acho uma reação até um pouco natural”, lembra. Foi só em 2007, com a obrigatoriedade aparecendo no horizonte, que as coisas ganharam um passo mais firme, e não sem um pouco de pressão.
“Foi quando o governo começou a fazer um acompanhamento mais de perto para ver se tudo estava indo bem e mandaram uma mensagem forte de que não tinha mais volta. A mistura obrigatória ia acontecer e todos teriam que fazer um esforço”, reconhece. Apesar disso, Libório ressalta que a distribuição sempre fez o esforço necessário. “Nada [no programa de biodiesel] deixou de ser feito por nossa causa”, orgulha-se.
Nem tudo, é claro, correu sempre conforme o script. Accarini reconhece que o PNPB não conseguiu ter o papel de catalisar a agricultura familiar no Nordeste como se sonhava. Apesar disso, ele se declara orgulhoso do trabalho realizado ao longo de todos esses anos, primeiro com o lançamento e depois com a consolidação do setor de biodiesel no Brasil. “Introduzir um novo combustível na matriz energética de um país continental como o Brasil é uma tarefa enorme, então houve desafios para todos. Mas isso não desanimou ninguém”, indica, satisfeito, Accarini ao discorrer sobre os muitos desafios que precisaram ser superados.
Chegamos, no entendimento de Geraldo Martins, a uma etapa onde o biodiesel se tornou um setor orgânico da economia. “Ele está ganhando um corpo próprio, independente da política governamental que o instituiu. Isso está ficando para trás conforme a indústria toma outros rumos com base na lei do mercado”, analisa.
Nesse sentido, é Erasmo Battistella quem melhor amarra o que pode ser aprendido dessa longa história de quase quarenta anos. Ela não é feita apontando para um final. “Não tem ‘felizes para sempre’ e nunca vai ter para quem é empresário num setor competitivo como o que construímos. A pauta da implantação do setor pode ter sido superada, mas temos outras pautas igualmente importantes à nossa frente. ”

