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Antônio Iafelice: Leilão e mercado


BiodieselBR.com - 29 jun 2007 - 07:49 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:13
Revista BiodieselBR Com a exigência de baratear o custo de produção do biodiesel para este concorrer com o preço do diesel, haverá espaço para as pequenas e médias usinas no mercado futuro de biodiesel?
Antônio Iafelice
Sim, naturalmente. O mundo inteiro considera o biodiesel como um produto agrícola, com sua carga tributária diferenciada dos combustíveis minerais. Há a impressão que se perderia renda tributária e/ou controle. Nem um e nem outro. Cada dólar investido na agricultura multiplica- se na economia de 12 a 90 vezes, conforme estudo de Harvard. O que era Sorriso (MT), Lucas do Rio Verde (MT), Roda Velha (BA) há 25 anos? O que é hoje? Foram assentamentos de pioneiros do Sul que deram muito certo, promoveram riqueza sustentada e hoje são exemplos mundiais, com indústria local. A tecnologia ainda utilizada para a produção de biodiesel no Brasil é muito simples, existindo unidades completas, compactas, que cabem num contêiner.

O preço médio negociado no 17º leilão, de R$ 2,23, foi bom para as usinas?
Antônio Iafelice
Foi bom e é sempre necessário que a indústria ganhe dinheiro e que o lavrador ganhe dinheiro para que o sistema cresça. A indústria pagou mais pela matéria- prima, e assim não é margem de lucro só para a indústria, mas para o sistema. Sem lucro não há como investir, e sem investimento não há progresso.

Qual a sua opinião sobre o leilão eletrônico e o mercado de livre comercialização?
Antônio Iafelice
Sempre fui e sempre serei a favor de mercado livre sem interferência ou controle. Fomento e programas de desenvolvimento são função dos governos, neste caso necessários e bem-vindos, enquanto interferência e controle na comercialização, não. Nunca deu certo e nem dará. Que o diga o pessoal da soja, do açúcar e álcool, do café e outros que vivem muito bem e cresceram muito após a extinção do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), do Instituto Brasileiro de Café (IBC), fim do Conselho Interministerial de Preço (CIP) e da Superintendência Nacional do Abastecimento (Sunab).

Por um lado, o governo quer estimular a participação da agricultura familiar no fornecimento de matérias-primas para a indústria de biodiesel; por outro, quer provocar uma queda no preço no biodiesel para este competir com o diesel. As duas coisas podem avançar juntas, na sua opinião?
Antônio Iafelice
Sim, não há qualquer incompatibilidade. Aumento da oferta via produção a custos mais competitivos redundará em preços menores, porém com margens adequadas aos agricultores familiares e às indústrias. Agricultura familiar tem que ser aquela que produz maior rendimento sustentado por hectare. Exemplificando: um hectare de palma oferece ao produtor ao longo de 22 anos um rendimento médio de US$ 1.800 ha/ano, enquanto que a pecuária ou a soja resulta entre US$ 250 e 350 ha/ano. Finalmente, objetiva-se mais óleo vegetal para o biodiesel, e não mais proteína. A soja é 77% proteína e 20% óleo, contra canola, girassol, pinhão-manso e outros com mais de 40% de óleo na semente. A palma tem um teor de óleo de 26%, porém um rendimento agrícola dez vezes maior do que soja. Estimular, sim, de forma adequada e economicamente racional.

O dendê não teve muita chance de desenvolvimento aqui no Brasil, apesar do clima e solo favoráveis à cultura. Por que, na sua avaliação, os investimentos privados no cultivo desta oleaginosa ainda são escassos no país?
Antônio Iafelice
Devido às políticas de restrição fundiária e agrária, à falta de programas de fomento e desenvolvimento de longo prazo, e à falta de linhas de crédito a custos e condições compatíveis. Basta um programa sério e o f luxo de investimentos virá. O Brasil é a última fronteira segura e estável para acolher estes investimentos num mercado financeiro com liquidez e sequioso de investimentos dessa natureza.