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Antônio Iafelice: PNPB e soja


BiodieselBR.com - 29 jun 2007 - 07:43 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:13
Revista BiodieselBR Você acredita no sucesso da inclusão da agricultura familiar no programa de biodiesel?
Antônio Iafelice
Sim, mas depende do que é considerado área para enquadramento como agricultura familiar e qual oleaginosa será produzida. Há oleaginosas alternativas à soja, como o dendê, o pinhão-manso e o girassol. A classificação como agricultor familiar deve ser revista em função do valor da produção, para que possa garantir a subsistência do produtor e da sua família. Esse tipo de produtor não sobrevive na modulagem atual nem com pasto, nem com soja e nem com milho, mas sobreviveria muito bem com dendê em módulos de até 100 hectares. Falamos de subsistência sustentável.

Qual a sua avaliação da evolução do programa de biodiesel?
Antônio Iafelice
O Brasil tem uma situação altamente favorável ao desenvolvimento de energias limpas, e deveria ser bem mais agressivo do que tem sido com o início do programa. Deveríamos olhar este programa como olhamos e incentivamos o Proálcool algumas décadas atrás, o que permitiu chegarmos à liderança mundial. Ao contrário da Europa e da América do Norte, o Brasil poderá fixar o biodiesel a 20% de mistura sem afetar a produção de alimentos, somente com base no desenvolvimento de culturas num programa de fomento. Assim, logo seremos o exemplo para o mundo. Há milhões de hectares de terras ociosas, desmatadas e/ou devastadas, hoje com pastagem extensiva, que poderão ser ocupadas com oleaginosas alternativas, sem falar nas áreas mais secas que podem ser ocupadas com pinhão-manso.

Como você observa o comportamento do mercado nos últimos anos?
Antônio Iafelice
A percepção sobre biodiesel como fonte de energia limpa e econômica foi afetada pelo modelo americano e europeu, com disputa por subsídios e concorrência com a produção de alimentos. Insucesso na Europa; grande sucesso na Malásia, Indonésia, Papua Nova Guiné, Austrália e outros países que dobraram a produção de óleo de palma em dez anos, ultrapassando a soja e se transformando no óleo vegetal mais produzido do mundo, com mais de 40 milhões de toneladas. Este modelo sul-asiático, entretanto, sofre hoje restrições de caráter ecológico e não tem como expandir nessa base. Ora, nós brasileiros temos mais de 16 milhões de hectares de terras só na Amazônia Legal, que poderiam ser reflorestadas com dendê e perfeitamente exploradas por pequenos e médios produtores, hoje legados à miséria e à desordem. A palma, por exemplo, leva cinco anos de investimentos na lavoura, num total de US$ 5.000/ha antes de começar a produzir. Depois produz durante 22 anos, demandando um custo de produção e colheita de US$ 1.000/ha ao ano. Aí entram os bancos de fomento e suporte de qualquer país. Isto não é doação ou subsídio, mas investimento que será pago. Onde estão o fomento e o suporte do Brasil?

Que impacto teve o programa de biodiesel no mercado de soja no Brasil?
Antônio Iafelice
Criou demanda interna, permitindo assim a manutenção da produção e até algum incremento nos Estados do Centro- -Oeste. A alta do petróleo e dos fertilizantes levou ao aumento dos custos de produção e de fretes internos, que teria prejudicado em muito a produção ou levado o governo a subsidiar o setor se não fosse a demanda para o biodiesel. Observe que 12 milhões de toneladas de soja devem ser processadas para o atendimento da mistura compulsória, e esta indústria está basicamente localizada no Centro-Oeste, neutralizando assim a influência logística nos custos de comercialização.

Hoje o preço do principal insumo da indústria de biodiesel, o óleo de soja, está acumulando queda, contribuindo para aumentar a lucratividade das usinas. Quais são os riscos desta commodity sofrer o mesmo pico ocorrido em 2008?
Antônio Iafelice
Não devemos tomar decisões de longo prazo baseados num momento de mercado. O preço é em função da oferta e procura, são vasos comunicantes. Assim, tivemos picos e precipícios para produtos agrícolas, petróleo, finanças e minérios. Cria-se uma demanda específica com um programa de longo prazo, incentivando o aumento da oferta. Em Chicago a cotação está a US$10/ bushel e este é um novo patamar, graças à combinação de duas demandas: consumo humano e energia. Conseqüentemente, os óleos vegetais têm duas referências para formação de preço. Esta tendência é irreversível, dado o aumento da população, maior acumulação de riqueza e a necessidade de energia limpa. Não vejo risco em produzir e investir na produção brasileira, que pode atender ambas as demandas com custos altamente competitivos, como ocorre com açúcar (alimento) e álcool (energia). O Brasil é o único país que tem clima, terra e infra-estrutura para promover a produção de tudo sem ter que derrubar uma árvore sequer – ao contrário, reflorestando. A produção de soja há alguns anos está na casa dos 55 milhões de toneladas. Isso é crescimento? Se o governo criar um programa de desenvolvimento, de fato, e executá- lo, será criada uma demanda específica para óleo de 10 milhões de toneladas/ano, podendo dobrar a produção de óleos vegetais com uma mistura de apenas 20% de biodiesel no diesel. A Europa usa o biodiesel a 100% em carros e caminhões dos mesmos modelos fabricados no Brasil há mais de dez anos. O consumidor tem a opção de escolher o combustível mais adequado ao seu veículo. Se tomarmos como exemplo o cultivo de dendê, isso significaria, em mais de 16 milhões de hectares disponíveis, apenas 1,7 milhão de hectares de produção em áreas declaradas de recuperação, além de gerar créditos de carbono.