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Macaúba: O dendê do cerrado


BiodieselBR.com - 26 abr 2010 - 14:00 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:55
Rosiane Correa de Freitas, de Curitiba

É comum que alguém, depois de passar muito tempo procurando a solução para um problema importante que o aflige, descubra que a solução estava o tempo todo à frente dos seus olhos. É quase como se fosse evidente demais para que a pessoa se lembrasse de procurar justamente ali. Pesquisadores de todo o país debatem há algum tempo qual é a matéria-prima que pode ajudar o país a superar a dependência quase completa da soja na produção do combustível verde. E a resposta estava ali, em quase todos os cantos do Brasil. Estamos falando da macaúba.

O nome pode não ser muito conhecido, e a planta está longe de estar na lista das mais populares do país, mas é impressionante como ela se espalha por boa parte do território nacional – especialmente nas terras mais quentes do Norte, Centro-Oeste e Nordeste, mas também em Minas Gerais, São Paulo e até mesmo no Paraná. Na verdade, é raro encontrar uma região do Brasil que não tenha essa palmácea, que no Sul e no Sudeste é mais conhecida pelo nome de bocaiúva.

Como se sabe, hoje o biodiesel nacional é feito quase que inteiramente de soja (80%), sebo animal (15%) e algodão (5%). Há tentativas de emplacar outras plantas, como a mamona, o pinhão-manso, o girassol e o dendê – para ficar só em alguns exemplos. No entanto, a nova estrela do biodiesel pode ser mesmo a macaúba. Além da proliferação natural e da adaptação ao clima do país, a planta parece oferecer tudo o que se espera de uma boa matéria-prima: elevado teor de óleo, compatibilidade com todas as exigências técnicas do combustível, baixo custo e facilidade de produção. Será que o país encontrou mesmo a saída?

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Os entusiastas da macaúba estão espalhados por unidades de pesquisa do país. Um deles é o agrônomo Leonardo Behring, da Embrapa Agroenergia, que vem dedicando parte de seu tempo ao mapeamento dos maciços naturais da planta no território brasileiro. Ele conta que hoje praticamente só existem as plantas que a natureza espalhou pelo país: plantação comercial é coisa recente, e ainda sem muito resultado para mostrar. “Estamos fazendo um levantamento das características da macaúba em seus locais de origem”, diz ele. A planta está sendo estudada em Goiás, no Distrito Federal e em Minas Gerais.

E até agora o que a Embrapa descobriu só anima mais os pesquisadores. “A macaúba é uma planta perene, que dura 60 anos, não tem registro de doenças e resiste a muita coisa sem grandes problemas”, diz Behring. A resistência da macaúba é tão impressionante que muitas vezes nem o fogo é suficiente para acabar com ela. “A parte da planta que fica debaixo da terra resiste e ela volta a dar frutos”, conta.

A espécie foi considerada por Décio Gazzoni, engenheiro agrônomo da Embrapa, o “dendê do cerrado”, pelo seu grande potencial de produção de óleo por hectare. Assim como a palma africana, a espécie pode render 5 mil litros de óleo por hectare de plantação.

Behring lembra que tudo está apenas no início e que as pesquisas ainda precisam determinar muita coisa sobre a planta. Mas que os primeiros dados são bons, isso ninguém nega. “Se o fruto da macaúba cai na terra sem ser colhido, ele pode ter um problema de acidez para o biodiesel. Mas se ele é colhido antes, a acidez dele é de 0,5% ou menos. Isso é suficiente para fazer azeite extra-virgem”, compara.

Até hoje, só a Petrobras teve a iniciativa de comprar macaúba, usada na usina de Montes Claros (MG). Ainda há vários obstáculos para seu uso comercial. “A planta ainda está em processo de domesticação, é preciso fazer o zoneamento agrícola, o registro no Ministério da Agricultura, entre outras coisas. Mas o certo é que parece muito promissor”, diz o pesquisador.

No Tocantins, outro Estado com grande produção natural de macaúba, o governo local vem atuando para conhecer melhor a espécie e saber suas potencialidades. “Uma das grandes vantagens da macaúba é a facilidade da colheita”, afirma Luiz Antônio Vieira, coordenador de Agroenergia da Secretaria de Agricultura do Estado. Segundo ele, ao contrário de outras palmáceas que trazem dificuldades na colheita e exigem maquinários específicos, a macaúba precisa apenas de alguém para cortar e de um trator comum que passe recolhendo.

“Outra coisa importante é que a plantação pode servir tanto para o grande produtor quanto para o pequeno. Até porque ela pode conviver tranqüilamente com a pastagem”, diz o técnico. Aliás, hoje a adubagem dos maciços naturais é toda feita por gado – e pesquisar adubos que substituam o esterco é uma das tarefas a serem desenvolvidas daqui por diante.
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