PUBLICIDADE
cremer cremer
012

Selo Social: Falta tecnologia


BiodieselBR.com - 01 set 2007 - 13:07 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:44
Falta tecnologia
Se por um lado as empresas produtoras de biodiesel tiveram dificuldade em adquirir matéria-prima nas quantidades estabelecidas pelas antigas regras do selo, por outro, para a agricultura familiar também é um desafio atender às necessidades da indústria. “Temos uma agricultura familiar decadente”, sentencia o consultor do Sebrae. Gomes afirma que há muitos produtores inadimplentes e endividados, terras deterioradas e uma força de trabalho comprometida pelo êxodo dos jovens para as cidades. “A mecanização está distante, não é interessante para o jovem retornar ao campo. Somente com sol, chuva e enxada não é possível atender à demanda”, avalia.

A falta de tecnologia nos campos de mamona, dendê, girassol, entre outras culturas, não se refere apenas ao uso (ou desuso) de máquinas, mas ao conhecimento das melhores técnicas de plantio, desenvolvimento de sementes geneticamente superiores e utilização dos insumos e dos defensivos mais adequados, ou seja: tecnologia, pesquisa e assistência técnica. Hoje, a única oleaginosa que tem toda sua cadeia produtiva mapeada é a soja – e não por acaso a produção nacional está centrada nela. “Apenas a política de incentivo fiscal não leva à diversificação da matriz. Em última instância, só favorece a soja como matéria-prima, já que é a cultura mais pesquisada e tecnificada e, por isso, com mais produtividade”, explica o assessor econômico da gerência de mercados da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), Marcos Matos. “É a diversificação que vai dar viabilidade para o biodiesel, e isso só vai acontecer a partir dos investimentos em pesquisa”.

Agregar valor
Prover de matéria-prima as indústrias de biodiesel é pouco: a agricultura familiar quer e precisa mais. É o que dizem as entidades que a representam, como a Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de São Paulo (Fetaesp). “O agricultor é um mero fornecedor de matériaprima. Isso é um erro no processo”, define Bráz Albertini, presidente da entidade. Para ele, deveria haver um incentivo para que o agricultor participasse da cadeia produtiva até a extração do óleo. A venda de um produto com valor agregado e a utilização dos subprodutos na propriedade – farelo ou torta como adubo ou ração animal – incrementaria os ganhos do produtor rural com a atividade.

Opinião semelhante tem Lucena, da Fetraf Brasil: “O selo foi muito mais um incentivo para as empresas produtoras de biodiesel do que para a agricultura familiar. Ela não pode ser tratada apenas como produtora de matéria-prima para as empresas do agronegócio”.

Mal assistidos

A responsabilidade pelo fornecimento de assistência técnica está a cargo das empresas, que, desde fevereiro, passaram a poder contabilizar esse gasto como parte do custo com aquisição de matéria-prima. Mas as empresas admitem que não têm know-how para prestar essa assistência. Segundo os especialistas, a agricultura familiar, para ser economicamente sustentável, precisa de assistência não só para a produção das oleaginosas que serão compradas pelas usinas de biodiesel, mas também para outros cultivos consorciados. “A assistência se restringe às oleaginosas, não dando atenção ao conjunto das atividades da unidade de produção, o que é insuficiente para garantir que os agricultores tenham um desempenho melhor”, problematiza Lucena.

Waldyr Pascoal Filho, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Minas Gerais, diz que a contratação da assistência apenas para o cultivo da oleaginosa não é errada, de acordo com as normas no selo. “Se o técnico inclui informações de outras culturas que não sejam as contratadas pela empresa, o relatório não é aceito; tem que fazer outro”, justifica.

Além disso, há uma certa resistência por parte dos agricultores na aceitação de novas técnicas de plantio. “Ninguém faz uma experimentação com aquilo que vai ser o sustento da família durante dois anos, com o risco de perder tudo. Não é conservadorismo, é cautela”, afirma o sociólogo Arilson Favareto, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), que concluiu em março o estudo “Análise dos impactos do programa brasileiro de biodiesel nas economias locais do Semi-Árido do Nordeste”.

Para o professor, outro aspecto que merece atenção é a quantidade de técnicos disponíveis – trabalha-se com uma média de um técnico para cada cem famílias. “Não há uma quantidade de técnicos com experiência e qualidade para viabilizar em grande escala a inserção da agricultura familiar no programa de biodiesel”, analisa.