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Risco iminente para a segurança nas usinas: incêndios e explosões


BiodieselBR.com - 27 jul 2009 - 15:15 - Última atualização em: 15 mar 2012 - 12:38
Explosão em fábrica do interior de Goiás levanta uma questão importante: as usinas brasileiras de biodiesel estão preparadas para evitar acidentes?

Por Rosiane Correia de Freitas, de Curitiba

Falar de biodiesel é discutir os grandes problemas que a recém-criada indústria brasileira enfrenta: matérias-primas a serem desenvolvidas, novos processos e tecnologias, preços, leilões, expansão do mercado interno etc. Mas um fato ocorrido no final de março no interior de Goiás chamou a atenção de todo o setor para um outro problema igualmente importante: a segurança das usinas – especialmente no que diz respeito à segurança dos trabalhadores e das instalações.

O fato ocorreu na sede da empresa Binatural, no município de Formosa (GO). Operários estavam fazendo um serviço de manutenção em um tanque de glicerina. Uma faísca produzida involuntariamente causou a combustão do solvente que ainda estava na glicerina e a explosão foi inevitável.

O acidente lembra o grau de risco com que as fábricas de combustível trabalham e levanta algumas discussões importantes: será que as usinas de biodiesel estão preparadas para evitar que eventos como esse se repitam? Quais são os maiores desafios para a segurança e como fazer para superálos?

Mão-de-obra
O diretor-geral da Binatural, João Batista Cardoso, diz que a explosão foi causada por uma falha humana. “Nós estávamos preparados”, afirma. “Temos até uma empresa que nos presta consultoria em toda essa parte de segurança do trabalho. Mas houve uma falha das pessoas que estavam trabalhando”.

Segundo Cardoso, não houve ordem para que os funcionários fizessem obras de manutenção com o tanque contendo glicerina. O diretor diz que não acredita que os funcionários estivessem fazendo uma soldagem, como se cogitou à época, mas acredita que um simples atrito entre objetos de metal pode ter causado a fagulha que gerou a explosão. “É difícil encontrar mão-de-obra preparada no nosso ramo, que é novo”, diz.

Segundo especialistas em segurança, seja qual for o serviço de manutenção, ele jamais poderia ter sido executado com o tanque em uso e contendo substâncias inflamáveis. “É preciso tomar todo tipo de cuidado quando você está trabalhando com produtos inflamáveis”, afirma o engenheiro químico Richard Fontana, diretor de tecnologia da AustenBio, que acumula três décadas de experiência em indústrias químicas. “No caso de um tanque como esse, você tem que primeiro esvaziar, lavar e dessolventizar para garantir a segurança”.

“Dessolventizar” significa retirar qualquer traço do solvente usado, que pode ser, por exemplo, álcool etílico ou metílico, ambos altamente inflamáveis e perigosos. Para retirar todos os resquícios do material, é preciso, depois da lavagem comum, aplicar vapor úmido a 140ºC no tanque, durante várias horas, antes de qualquer atividade que possa produzir faísca. “O álcool pode entrar nos poros, nos interstícios. E é preciso tomar toda a precaução”, diz.

Fontana concorda que é difícil achar mão-de-obra especializada para realizar esse tipo de trabalho. E, por isso mesmo, ressalta que é obrigação da própria empresa que está contratando os funcionários dar a eles a formação necessária para que o trabalho decorra sem maiores problemas.

Os serviços de manutenção, aliás, são os maiores vilões da segurança em uma usina, segundo afirma Frederico Augusto Lima Silva, consultor técnico da Petrobras. “Na produção, o risco é baixíssimo, porque normalmente as usinas trabalham em baixas condições de temperatura e pressão”, afirma. Não são condições suficientes para trazer problemas. Durante os serviços externos, porém, a situação pode mudar.

As miniusinas que não produzem em escala comercial e normalmente destinam a produção para o consumo próprio podem ser as mais suscetíveis às falhas de segurança, seja por falta de estrutura ou de informação. “Eu tenho muita preocupação é com as empresas de fundo de quintal”, diz Silva. “O biodiesel é uma indústria química, e como qualquer outra tem risco, sim, tanto de poluição quanto de segurança”, alerta.
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