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Crise Econômica: Incertezas para o Biodiesel


BiodieselBR - 15 jan 2009 - 20:10 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 10:12
Crise na economia traz mais incertezas para um setor que busca consolidação

Ana Pécora, de São Paulo

Há algum tempo o cenário não se mostra dos melhores aos produtores de biodiesel. No começo do programa uma grande euforia resultou na instalação crescente de usinas, na certeza de retorno garantido. Em pouco tempo, a oferta do produto passou a superar a demanda e a competição para vender o biodiesel nos leilões fez os preços pagos caírem. Enquanto isso, uma bolha especulativa começou a inflar fortemente as cotações das commodities, provocando uma alta astronômica nos preços do petróleo e da saca da soja e, por conseqüência, levando também às alturas o preço do óleo de soja, a principal matéria-prima usada pelas usinas de biodiesel brasileiras. No segundo semestre deste ano, o setor voltou a fechar no azul, depois de pelo menos um ano de déficits. Os leilões foram encerrados com valores mais elevados – saíram da média de R$ 1,86 para R$ 2,60 – e os preços da tonelada do óleo de soja recuaram a partir de março do patamar de R$ 3 mil para fechar outubro ao nível de R$ 1,8 mil.

A melhora do cenário na relação custo e preço veio junto com a considerada pior crise financeira mundial desde 1929. Assim, a perspectiva de continuar investindo, agora que a rentabilidade melhorou, está sendo também frustrada pela falta de crédito. A União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio) não tem estatísticas dos projetos de expansão de novas usinas previstos para os próximos anos. Mas Sérgio Beltrão, diretor-executivo da entidade, acredita que já está havendo um movimento de tirar o pé do acelerador, até que se saiba com mais precisão os rumos que a economia mundial irá tomar.

A Fiagril, em Mato Grosso, decidiu não iniciar o processo para expandir a capacidade instalada dos atuais 123 mil para 180 mil metros cúbicos por ano até o final de 2009, como estava previsto nas metas da empresa. “Se não fosse essa crise, já teríamos iniciado o processo todo do investimento. Mas agora temos que esperar um sinal de melhora. Diante desse cenário mundial não dá para pensar em novos investimentos. O nosso foco é conseguir tocar o nosso negócio, porque temos que buscar linhas para financiar também a aquisição da matéria-prima”, diz Miguel Vaz Ribeiro, vice-presidente da empresa, localizada em Lucas do Rio Verde, no centronorte de Mato Grosso.

A Brasil Ecodiesel, que vem de um forte plano de investimentos – nos últimos dois anos, foram aplicados R$ 240 milhões em seis usinas, duas esmagadoras de grãos, terras e máquinas – informa que já concluiu as expansões em sua capacidade operacional e que daqui em diante precisará de capital para fazer manutenção em suas unidades, e, no longo prazo, novos investimentos em terras. Nesse sentido, a crise não afetaria as operações da empresa, assegurou a sua assessoria de imprensa.

Antes da turbulência nos mercados mundiais, a Brasil Ecodiesel conseguiu renegociar suas dívidas com prazos mais longos de pagamento, o que seria difícil neste momento em que as instituições financeiras estão mais restritivas na concessão de crédito e aplicando taxas de juros mais elevadas. A reestruturação desse endividamento foi fundamental à continuidade da operação da companhia, que teve seu crédito reaberto para financiamento de capital de giro.

A empresa tem a seu favor neste momento a redução no custo do óleo de soja, que incrementou sua lucratividade após um longo período de resultados negativos. No terceiro trimestre deste ano, o prejuízo foi de R$ 28,9 milhões, menor que os R$ 82,5 milhões do trimestre anterior. A empresa pondera que a queda no preço do óleo de soja não foi toda absorvida pelo setor, uma vez que parte desse recuo foi anulado pela alta do dólar. “Os rumos das cotações das commodities ainda estão indefinidos. Ainda não é possível visualizar os impactos na rentabilidade das companhias no médio e longo prazos”, declarou a Brasil Ecodiesel em comunicado.