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Biodiesel brasileiro ainda não é exportado - as causas


BiodieselBR - 06 nov 2007 - 15:32 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 11:18

Embora não seja simples definir qual deles é preponderante, os especialistas ouvidos pela reportagem parecem concordar com a existência de uma série de fatores que têm contribuído para atrasar a entrada do produto brasileiro no cenário internacional, entre os quais: a alta do preço das commodities alimentares e a barafunda de medidas protecionistas e subsídios praticados pelos países de primeiro mundo para garantir sobrevida a seus produtores agrícolas.

De fato, para um produto que surgiu com a promessa de trazer algum alívio para a escalada de preços dos combustíveis fósseis, nada menos bem-vindo do que as atuais cotações do óleo vegetal. “A matéria-prima ficou caríssima. Na média, os cinco óleos vegetais mais utilizados estão sendo negociados a US$ 1.200 por tonelada na praça de Roterdã [Holanda]”, informa o pesquisador da Embrapa e membro do Painel Científico Internacional de Energias Renováveis, Décio Luiz Gazzoni, apontando que a subida vem colocando os produtores de biodiesel contra as cordas.

Para ficar apenas nos dados nacionais: na última semana de julho o consumidor da Região Sudeste pagava uma média de R$ 2,10 pelo litro do diesel comum (segundo levantamento da ANP), enquanto o litro do biodiesel foi negociado na faixa dos R$ 2,69 no primeiro leilão oficial desse ano. “Se a mistura não fosse obrigatória o setor estaria passando por uma situação bastante delicada”, alerta Gazzoni.

Com base nesses valores não é difícil entender por que o mercado tem se comportado como se alguém tivesse vertido água gelada na fervura. Por outro lado, a alta das commodities alimentares não deveria ter pegado tanta gente desprevenida. Afinal, como ressalta Gazzoni, o entusiasmo em torno dos biocombustíveis “coincidiu com um dos períodos mais prolongados de crescimento econômico e distribuição de renda em nível mundial”. Levando em conta que os maiores beneficiários desse crescimento foram China e Índia – precisamente os dois países mais populosos do planeta – não seria necessário um Nostradamus para antever o impacto que isso teria nos preços.

O diretor de operações da BSBios, Erasmo Carlos Battistella, enumera outras razões para a alta: a queda do dólar, que forçou uma recomposição de preços; a própria alta do petróleo, que eleva os custos agrícolas e os subsídios que os paises ricos têm dado para cadeias de biocombustíveis pouco eficientes – o caso mais famoso é o álcool de milho dos EUA. “O importante é deixar claro que o aumento da demanda causada pela produção de biocombustíveis é o menos importante nessa relação”, assegura o executivo ao tentar desfazer parte dos equívocos que vêm sendo largamente divulgados depois que o custo dos alimentos começou a ganhar as manchetes.

De uma forma ou de outra, é preciso ter em mente que o tempo do barril de petróleo barato ficou para trás e, de agora em diante, o movimento de ascensão será persistente. Já o valor do óleo vegetal pode ser estabilizado – até mesmo derrubado – com mais investimento em produção. A questão é encontrar o ponto de equilíbrio econômico.

Aceito o fato de que a alta nas commodities tem provocado turbulências sérias e corroído a capacidade competitiva do biodiesel, cabe o entendimento de que devido as infindáveis externalidades positivas e a estruturação do mercado, o biodiesel opera muito mais por imposição jurídica do que em função da racionalidade econômica. Se a lei manda acrescentar determinada porcentagem de biocombustível ao diesel, os custos se tornam um fator secundário.