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Biodiesel em Portugal


BiodieselBR - 06 nov 2007 - 15:09 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 11:23
O governo de Portugal investiu alto na produção de biodiesel e agora enfrenta dificuldades para consolidar o produto no mercado

Por Diogo Lopes, de Portugal


Portugal decidiu entrar de cabeça na onda do biodiesel. Não se contentou em meramente aderir às metas impostas pela União Européia: foi mais longe. O bloco determinou que todos os países devem usar uma mistura com pelo menos 5,75% de biodiesel a partir de 2010. O governo português, liderado pelo primeiro-ministro José Sócrates, resolveu quase duplicar a meta: seriam 10% já em 2010. A mesma meta só precisa ser atingida pelos demais integrantes da União Européia em 2020 – com dez anos de diferença, portanto.

Para chegar ao objetivo, Portugal receberia sua parte de subsídios da União Européia – para o bloco completo, há estimativa de 2,5 bilhões de euros por ano, o equivalente a R$ 6,3 bilhões. Os empresários do país, entusiasmados, fizeram sua parte, e injetaram outros 700 milhões de euros em investimentos em novas fábricas. O plano teria tudo para dar certo. Mas ainda não deu.

Pelo contrário. Apesar da empolgação do governo e dos empresários portugueses, a nação está longe, muito longe, de atingir as metas da União Européia. Em 2007, por exemplo, os portugueses encerraram o ano colocando apenas 3% de biodiesel em cada litro de diesel utilizado no país. O ponto principal é a crise na produção de alimentos, que encareceu as matérias-primas e diminuiu consideravelmente as margens de lucro de quem apostou no setor. Uma crise de produção que ainda não tem solução facilmente prevista.

“Portugal traçou planos muito audaciosos, se comparado com outros países europeus. Devemos esperar um pouco mais para saber se no futuro conseguiremos atingir nossos objetivos”, afirma a pesquisadora Teresa Mata, do Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente e Energia (Lepae) da Universidade do Porto. “O que já podemos afirmar é que nenhum país da União Européia atingiu suas metas, o que demonstra que a crise não se restringe a Portugal”, avalia a especialista.

Os sinais da crise do setor em Portugal ficaram mais evidentes quando em maio deste ano as únicas cinco usinas já em funcionamento suspenderam sua produção. A lista de empresas que encerraram suas atividades começou em janeiro deste ano com a Iberol. Em seguida, quatro outras empresas – Prio, Torrejana, Tagol e Biovegetal – tomaram a mesma decisão. Outras unidades industriais que deveriam começar a produzir em breve, como a Enerful e a Greencyber, também têm agora o seu futuro incerto.

Outro forte indicador da crise? As refinarias da Galp, a estatal de petróleo do país, responsável por todo o refino e boa parte da distribuição de combustíveis em Portugal, já afirmaram que não cumprirão o objetivo deste ano, de incorporar até 5% de biodiesel no diesel, mesmo que a produção seja retomada imediatamente - o que não parece provável, em todo caso.

O fato, segundo os especialistas, é que Portugal não resistiu à subida do preço das matérias-primas utilizadas naquele país - óleos de colza, soja, girassol e palma - e agora vive um momento de grande incerteza no setor dos biocombustíveis. Mas não é só isso: a Galp calcula que para atingir os níveis de produção estabelecidos seria necessário utilizar 700 mil hectares de solo especificamente para culturas de oleaginosas. E só há, hoje, 250 mil hectares disponíveis. As importações, assim, parecem inevitáveis.

O resultado da crise ficou pior com a falta de competitividade do biodiesel. Mesmo com isenções de impostos concedidas pelo governo, o preço tem subido. Apesar de existir alguma variação dependendo da empresa em questão, o preço médio do diesel ronda os 1,43 euros/litro. E a tendência é de que fique ainda mais caro comprar o biodiesel, já que a previsão é de que os incentivos fiscais para os produtores durem apenas mais três anos.

Uma das soluções já aventadas para o abastecimento de biodiesel em Portugal pode vir do Brasil. Uma parceria entre a Petrobras e a petrolífera portuguesa Galp está em andamento. Um protocolo de intenções foi assinado pelas duas empresas em julho do ano passado, em Lisboa, durante a cúpula União Européia-Brasil sobre combustíveis limpos. A parceria pode incluir a exportação de biodiesel brasileiro para ser adicionado ao diesel no mercado português. No entanto, a avaliação parece ser de que essa ação não põe fim à crise de produção de biodiesel em Portugal.

Em entrevista publicada pela Agência Lusa, Fernando José Cunha, gerente de biocombustíveis da Petrobras, declarou que a parceria interessa à empresa brasileira por ser uma possibilidade de abertura do mercado de distribuição de biodiesel na Europa a partir da Galp. Quando o acordo foi assinado estava prevista a produção de 600 mil toneladas de biodiesel, sendo metade destinada ao mercado português e o restante para outros países europeus.