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Biodiesel de algas: Pequenas notáveis


BiodieselBR - 05 nov 2007 - 15:23 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 11:20
Não se deixe enganar pelo tamanho das microalgas. Em um futuro próximo elas podem desempenhar um papel importante na indústria do biodiesel

Por Fábio Rodrigues, de São Paulo

O conto do pequeno e fisicamente frágil herói que, armado apenas de esperteza e obstinação, enfrenta o poderoso gigante é um daqueles mitos tão enraizados que, sem nos darmos conta, passamos a vida inteira ouvindo suas diferentes versões – o embate bíblico entre Davi e Golias; a vitória de João em “João e o Pé de Feijão”; ou, mais modernamente, na desesperada resistência dos espartanos frente ao imbatível exército persa no cinematográfico “300”. Pois agora o setor de biodiesel parece estar se preparando para encenar sua própria versão da história à medida que as diminutas microalgas ameaçam entrar em cena garantindo vantagens de gente grande sobre as matérias-primas padrão da indústria do biodiesel.

Para se entender corretamente a enormidade da promessa contida nessas microscópicas algas – que, à bem da verdade, não passam de organismos unicelulares dos mais simples – é preciso não perder alguns conceitos fundamentais de vista. O primeiro é o chamado “teor de óleo”, ou seja, quanto da massa de uma determinada matéria-prima é formada por óleos; quanto maior for esse número tanto melhor ela será para a indústria do biodiesel. Enquanto a toda poderosa soja amarga teores que mal chegam aos 20%, algumas espécies de microalgas, especialmente no grupo das diatomáceas, chegam a bater na casa dos 60%.

Sozinho, contudo, o teor de óleo não chega a dizer muita coisa. Afinal, mesmo que uma matériaprima tenha 90% de óleo, se produzir apenas 1 kg por ano o resultado final não deixa de ser pífio. Pois as microalgas se multiplicam de forma espantosamente rápida. Duas espécies em particular, a Monoraphidium e a Chaetoceros, chegam muito perto de triplicar a própria massa de um dia para o outro (os números exatos são 2,84 e 2,87, respectivamente).

Juntando dois e dois, é fácil perceber que aperfeiçoar a produção de microalgas pode elevar os patamares da produtividade do setor de biodiesel a níveis completamente impensáveis hoje. Talvez ainda seja um pouco cedo para se dizer precisamente o quanto “impensável” significará, mas um palpite bastante razoável foi dado pelo pesquisador do Departamento de Física e membro do Grupo de Biodiesel da Universidade de New Hampshire, Michael Briggs, em seu estudo de agosto de 2004 Widescale Biodiesel Production from Algae (Produção de Biodiesel de Algas em Grande Escala). De acordo com os cálculos do físico norte-americano a produção deverá se situar entre 7,7 mil e 23 mil litros por hectare cultivado ao ano.

Comparados aos cinco mil litros de um hectare de dendê, oleaginosa mais produtiva até o momento, ou aos míseros 500 litros conseguidos com a mesma área plantada de soja, esses são números dignos de ser celebrados com desfile e fanfarra. Mesmo se optarmos por encarar os dados com o mais empedernido dos pessimismos, parece seguro dizer que podemos ir comemorando.

“Um dos grandes problemas que o biodiesel vem enfrentado é que 500 litros de óleo por hectare é um rendimento ridículo, acabamos precisando de grandes áreas se quisermos começar a produzir a sério”, resume o presidente do Centro de Energias Alternativas (Cenea) e um dos pioneiros no estudo do biodiesel no Brasil, o professor José Osvaldo Carioca, que soube do potencial das microalgas para produção de biodiesel ainda em 1987, durante o seu pós-doutorado na Alemanha. “Foi necessária a atual crise no preço dos alimentos para que se começasse a entender que o uso de oleaginosas para fins energéticos pode causar pressão tanto na disponibilidade de terra quanto na produção de alimentos”, completa, apontando o verdadeiro nó górdio que o setor ainda precisa desatar para se estabelecer como uma opção séria.