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Vilão ou herói?


Edição de Dez / Jan 2008 - 14 dez 2007 - 10:02 - Última atualização em: 17 dez 2012 - 10:12
Governo, usinas e distribuidoras querem o mercado livre para evitar deságio tão grande como o ocorrido no valor do biodiesel nos dois últimos leilões. Mas todos concordam que não chegou a hora de a Petrobras sair do meio-de-campo.

Renata Costa, de São Paulo, com colaboração de Raquel Marçal, de Curitiba

No total, 27 usinas participaram das 6ª e 7ª rodadas de leilão para venda de biodiesel nos dias 13 e 14 de novembro de 2007 – ocasião em que foram negociados 380 milhões de litros para o abastecimento do mercado com o B2 (mistura de 2% do biodiesel ao diesel de petróleo) no primeiro semestre de 2008. Mas apenas 11 empresas fecharam vendas, entre elas a veterana Brasil Ecodiesel, que participa ativamente desde o primeiro leilão, em 2005, e a novata Bioverde, com pouco mais de um ano de vida. As experiências das duas usinas são certamente muito diferentes. Mas ambas têm algo em comum: a insatisfação com o preço negociado nos leilões – em média R$ 1,86 o litro, abaixo do valor do litro de óleo de soja, insumo mais usado na produção do combustível verde.

No primeiro dia dos leilões, a Brasil Ecodiesel vendeu 141 milhões de litros, 46% dos 304 milhões arrematados. No dia seguinte, foram mais 20 milhões, 26% dos 76 milhões totais. Apesar de ter sido a maior fornecedora de biodiesel nas duas rodadas, a empresa admitiu, em nota oficial, que não acha positivo o deságio médio de 22,3% – o maior de todos os sete leilões – sobre o preço inicial de R$ 2,40 por litro de biodiesel. O resultado demonstraria “desequilíbrio entre oferta e demanda”.

O gerente de agronegócios da Bioverde, José Pereira Junior, é ainda mais direto. “Sinceramente? Não ficamos satisfeitos. Estamos até agora tentando entender o que aconteceu”, desabafa. A Bioverde vendeu 5 milhões de litros no segundo dia de leilão, menos de 10% de sua capacidade de produção. “No primeiro dia ficamos só de olho. O preço foi caindo, despencando. Achamos melhor não participar”, conta Pereira Junior. “Mas no segundo dia resolvemos vender o mínimo apenas para marcar nossa presença no mercado”.

A posição das duas usinas encontrou adeptos entre outras empresas. Todas as que venderam biodiesel – e se posicionaram sobre o assunto – não tiveram reação diferente. “Vendemos apenas para não ficar com a produção parada”, lamenta Francisco Flores, gerente administrativo da Fiagril, que vendeu 23 milhões de litros, 6% do total operado no leilão.

O caso da BSBios foi ainda mais dramático. A empresa se inscreveu no leilão, mas não vendeu sequer um litro. Segundo odiretor comercial Erasmo Carlos Batistella, não faria sentido vender pelo preço que foi negociado se o valor do metanol e da matéria-prima vegetal aumentou. “Não consigo explicar o porquê do valor tão baixo e também quero entender o que está por trás disso”, disse. A crítica de Batistella atinge ainda a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) por permitir a participação de empresas acusadas de não entregar o volume vendido nos leilões anteriores. “Algumas empresas estão inadimplentes com a entrega e se consagraram campeãs desse leilão. Esperamos que elas consigam colocar a entrega em dia”, arremata.

Não se pode culpar as empresas que venderam biodiesel por um valor ínfimo no leilão, porque houve muitos lances baixos. Além disso, para muitas empresas, produzir pode representar um prejuízo menor do que ficar parado. Outro motivo que explicaria as vendas com preços tão baixos é o receio de não ter com quem negociar fora dos leilões.

As usinas dizem que vão operar no prejuízo, mas para os analistas a hipótese de que elas possam produzir biodiesel abaixo de R$ 1,90 o litro não deve ser descartada. O caminho para isso seria a busca por matérias-primas alternativas, que não a soja – a mais cara. A Brasil Ecodiesel confirma a possibilidade afirmando em seu comunicado oficial que “cabe agora ao Governo Federal preocupar-se com a consistência do fornecimento desse combustível por empresas que não venham diversificando seu leque de matérias-primas”. A alternância de insumos também é a opção da Fiagril. “Como temos produção específica de óleo de algodão, fica mais fácil nos libertarmos da soja. Outra opção é o sebo bovino”, diz Flores.

Porém, somente a utilização de matérias-primas alternativas não salva a equação de um resultado negativo, já que nenhum dos insumos disponíveis no mercado está tão barato assim. O sebo bovino, o mais atrativo nesse sentido, já custa R$ 1,75 o litro. “O custo de produção do biodiesel hoje não é inferior a R$ 2,00”, confirma Odacir Klein, presidente da Ubrabio (União Brasileira de Biodiesel).

Exportação

Uma alternativa apontada pelas usinas para escoar a produção que não foi vendida nos leilões é o mercado externo. “Com certeza repassaremos aí nosso prejuízo com os leilões da ANP”, afirmou Pereira Junior, da Bioverde. O problema é que a exportação não conta com incentivos do governo, por enquanto. E aí, o Brasil pode sair perdendo para outros países. “Exportação seria o caminho, mas é um pouco complicado porque não há incentivo para exportar o biodiesel, como na Argentina. Somos fornecedores de matéria-prima. Vendemos soja para a Europa e a China e eles produzem o biodiesel por lá”, conclui Batistella, da indústria BSBios.

Por enquanto, o governo ainda não demonstra preocupações. O diretor do departamento de combustíveis renováveis do Ministério de Minas e Energia, Ricardo Dornelles, diz não acreditar nas reclamações de prejuízo das usinas. “Ninguém faz investimento para ter lucro hoje ou em quatro anos. O programa de biodiesel é permanente. Vai ser difícil operar com margem de lucro, mas no futuro as coisas devem melhorar”, aponta. A aposta de Dornelles é na redução do preço dos óleos vegetais.

Próximos passos

Uma solução imediata para elevar o preço do biodiesel seria fazer crescer a demanda, já que hoje o Brasil tem uma enorme capacidade de produção, com disponibilidade liberada pela ANP de produzir cerca de 2,588 bilhões de litros do combustível.

Para Dornelles, vender dieselcom uma mistura superior aos 2% obrigatórios de biodiesel pode ser uma estratégia comercial para as distribuidoras. “Pode ter um grande apelo de mercado, seja por preocupação ambiental ou pressões econômicas. As possibilidades são muitas”, afirma. Além da possível opção voluntária das distribuidoras em vender diesel com uma mistura maior que o B2, o governo estuda a possibilidade de antecipar os prazos e adiantar o B5, prevista para 2013. “Com os investimentos que estão sendo feitos em novas unidades de produção, poderemos, quem sabe, antecipar a mistura para 2010”, planeja o diretor do Ministério.

Para que o governo decida pela antecipação da mistura, será necessário que toda a estrutura do biodiesel funcione perfeitamente em 2008. Isso implica que as usinas produzam a quantia de combustível vendida e as distribuidoras façam as retiradas sem atraso.

Entrave ou regulador? A partir da experiência dos últimos leilões, é compreensível que algumas usinas sejam contra essa forma de comercialização. “A nossa empresa é contra os leilões desde o início. Essa prática não é boa para se formar um mercado, porque nivela todos os produtores por baixo e não dá a eles o direito de competir nos quesitos eficiência, logística e qualidade do produto”, defende Batistella, da BSBios. Ele afirma que o leilão não é justo também porque cada região do país tem um custo de produção, de matéria-prima e de logística de distribuição diferentes.

O presidente da Ubrabio, no entanto, acredita que no momento os leilões ainda são necessários. “Eles são importantes até que o mercado se auto-regule. Depois, podem deixar de existir”, diz Klein, embora não se arrisque a estabelecer prazos para o fim da prática.

Dornelles defende a manutenção dos leilões, especialmente por proteção ao que ele chama de “lado mais fraco da cadeia”, o produtor rural. “O que ele faria se não vendesse regularmente seu produto? Acabaria não tendo uma receita que cobrisse seu custo e nem como sobreviver. Enquanto o mercado não estiver totalmente estável para assegurar sua manutenção, o leilão deve continuar, pois o programa de biodiesel tem, em primeiro lugar, a função social de beneficiar o agricultor e as cooperativas agrícolas”.

O lado das distribuidoras

Para o vice-presidente executivo do Sindicom (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes), Alísio Mendes Vaz, ainda não é hora de tirar a Petrobras, compradora de 93% do total negociado nos leilões, da jogada. “Claro que em uma situação de normalidade as distribuidoras preferem negociar direto com as usinas, pois seria mais eficiente em médio e longo prazos. Mas como estamos na introdução do programa, apoiamos a venda por meio dos leilões”, afirma. O diretor presidente da Ello- Puma, Delfim Jorge Pereira de Oliveira, concorda: “É preferível que no início da obrigatoriedade dos 2% as negociações sejam feitas dessa forma, porque facilita a equalização do mercado”.

Segundo Oliveira, outro motivo para a manutenção dos leilões é que eles dão a certeza de que a mistura dos 2% será realmente cumprida. “É preciso fiscalização para que o mercado se comporte de forma regular”, diz. A preocupação é pertinente e compartilhada por Luiz Alberto de Figueiredo Junior, gerente de suprimentos e trading da Ipiranga: “O B100 [biodiesel puro] é mais caro que o diesel mineral. Claro que há motivo para desonestos não fazerem a mistura”.

A idéia é de que quando a ANP estabelecer um controle efetivo como fiscalizadora haverá tranquilidade para uma negociação direta com as usinas. “Isso representará ganhos para o consumidor final porque, assim como é feito com o álcool hoje, pode se estabelecer uma melhor margem de preços e de condições de fornecimento”, aponta Vaz.

O prazo para o fim dos leilões ninguém conhece, mas Figueiredo Junior é otimista em sua previsão. “Acreditamos que a ANP esteja tomando realmente as devidas providências para garantir a saúde do mercado. Por isso creio que até junho de 2008 teremos a livre negociação entre produtores e distribuidoras”, aposta.

Mas não há nada oficial nesta previsão. De acordo com Dornelles, do Ministério de Minas e Energia, não há definição que aponte para manter ou não os leilões em 2009. “Primeiro vamos fazer a coisa funcionar em 2008”, completa Dornelles.