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Univaldo Vedana: Muito além do B2


Edição de Dez / Jan 2008 - 14 dez 2007 - 17:37 - Última atualização em: 17 dez 2012 - 10:12

O futuro do biodiesel na matriz energética brasileira não depende apenas das misturas obrigatórias. Os percentuais de B2, B3 ou B5 são irrisórios se analisarmos o potencial brasileiro em sua totalidade. Na iniciativa privada, por exemplo, muitos agricultores, cooperativas, indústrias, transportadoras e empresas de ônibus já utilizam percentuais acima do exigido e aproveitam para fazer marketing ecológico e mostrar aos clientes e à opinião pública sua preocupação com o meio ambiente e com o futuro do planeta.

Um exemplo é o que fazem os produtores rurais preocupados com o alto custo do diesel mineral. Cada vez mais, eles estão optando por utilizar o combustível extraído de suas produções de soja, algodão e girassol, principalmente em regiões onde o diesel é bem mais caro por causa do frete. E não são os únicos. Alguns frigoríficos, que por sua atividade geram gorduras animais, também passaram a produzir biodiesel para consumo próprio e conseguiram trocar, ao menos por enquanto, o diesel de petróleo por uma opção mais barata, o biodiesel. Em algumas regiões do Centro-Oeste, onde o combustível fóssil ultrapassa o preço de R$ 2,00/litro, produtores rurais – isolados ou organizados em associações ou cooperativas – montaram usinas de biodiesel.

A Cooperbio de Cuiabá (MT), que reúne mais de 260 associados, pretende produzir, a partir do início de 2008, 300 mil litros/dia de biodiesel exclusivamente para seus associados. O mesmo acontece com a Coapar, no município de Campos de Júlio (MT). O frigorífico Bertin, em Lins (SP), também utiliza boa parte de sua produção para consumo próprio. E a Agrenco, que está construindo três usinas de biodiesel com produção prevista de 425 milhões de litros/ano, também informa que 71,7% da produção – cerca de 304 milhões de litros/ano – será para consumo de fornecedores e produtores.

A Companhia Vale do Rio Doce, gigante que consome 5% de todo o diesel brasileiro, iniciou neste ano a mistura de 20% de biodiesel ao diesel de petróleo. Quando chegar à mistura em 100% nos caminhões, locomotivas e máquinas, a empresa utilizará 400 milhões de litros de biodiesel por ano. Já a Viação Itaim Paulista (SP) está adicionando 30% (B30) em parte da frota, com um consumo mensal estimado em 1,8 milhão de litros de biodiesel.

No Paraná, a Copel, companhia estatal de energia, pretende construir dezenas de pequenas usinas no interior do estado. Elas teriam como objetivo a produção de biodiesel para o consumo dos cooperados ou associados. Os produtores seriam responsáveis por fornecer a matéria-prima e poderiam usufruir do consumo de boa parte ou todo o biodiesel produzido. A idéia é não se limitar à mistura mínima obrigatória, ou seja, usar teores mais elevados ou até o B100 (biodiesel puro).

Estes são apenas alguns exemplos do potencial e do tamanho do mercado de biodiesel para além da mistura obrigatória. Sozinhas, as iniciativas citadas vão consumir em breve quase um bilhão de litros de biodiesel por ano. Com o aumento deste mercado de consumo opcional, o panorama fica muito interessante.

Abrem-se oportunidades de trabalho, instala-se de fato a agroenergia – que vai propiciar um aumento de produção e renda no campo –, criam-se empregos nas usinas e cidades do interior e evita-se a evasão de riquezas pelo petróleo. O caminho do biodiesel passará de forma importante pela produção integrada e irá, com certeza, muito além do B2.