Distribuição

Sindicom e Fecombustíveis criticam aumento da mistura após nota da Aprobio


BiodieselBR.com - 31 jan 2012 - 11:26 - Última atualização em: 27 fev 2012 - 00:29

Na semana passada, representantes Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) e a Frente Parlamentar do Biodiesel estiveram no Rio de Janeiro onde realizaram uma rodada de reuniões com atores importantes ligados à cadeia de combustíveis. O objetivo era apresentar as propostas da cadeia produtiva e tentar angariar apoios para o novo marco regulatório que querem levar ao Congresso Nacional o quanto antes.

Entre as reuniões do dia, havia uma com a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) e outra com o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom). Com eles, a Aprobio e a frente conversaram sobre projetos para a consolidação do biodiesel e, principalmente, a respeito do pleito do setor produtivo de aumentar o teor da mistura obrigatória dos atuais 5% para 7% ainda esse ano. No final de tudo, a assessoria de imprensa da Aprobio circulou uma nota dando conta de que as reuniões haviam transcorrido com sucesso.

Não haveria nada fora de ordem não fosse por esse trecho do release da associação:
“Na reunião no Sindicom, o presidente da entidade, Alísio Vaz, sinalizou que o patamar não deverá enfrentar resistências dos distribuidores. Na Fecombustíveis, o presidente da Federação, Paulo Miranda Soares disse que os revendedores aplaudem o crescimento e a consolidação do biodiesel na matriz energética brasileira”.

Considerando a natureza das reuniões, a afirmação acima representaria uma modificação notável no posicionamento que a Fecombustíveis e o Sindicom vêm mantendo a respeito desses assuntos há vários meses.

Assim que recebeu o release da Aprobio, BiodieselBR entrou em contato com ambas as entidades. Os dois presidentes citados na nota foram veementes em informar que seu posicionamento permanece o mesmo a respeito do biodiesel. Elas não acham que esse seria o melhor momento para um aumento do teor de biodiesel no óleo diesel mineral.

Questão de especificação
“A nossa posição é bem simples. Nós não temos nada contra nenhum tipo de programa do governo para o uso de combustíveis renováveis, mas o biodiesel está dando muito problema porque deteriora com muita facilidade. Então, antes de aumentar a mistura, precisamos melhorar a especificação”, explicou à BiodieselBR o presidente da Fecombustíveis, Paulo Miranda Soares.

Ele ressaltou que, embora o aumento de 5% para 7% na quantidade de biodiesel misturada ao óleo diesel mineral pareça pequeno, ele representa uma elevação de 40%. Algo que os donos de postos não gostariam de ver isso acontecer, antes das novas especificações que se encontram em discussão na ANP sejam plenamente implementadas. “O caminho é esse mesmo, você tem que melhorar a especificação para que o biodiesel não deteriore com tanta rapidez”, elogiou.

Embora reconheça que a quantidade de problemas que os postos vinham enfrentando desde a introdução do B5 tenha diminuído nos últimos meses – fruto de melhorias nas práticas de transporte e manuseio do produto –, Miranda ressaltou que essa continua sendo uma fonte de preocupação para os postos.

O presidente do Sindicom, Alisio Vaz, também reconhece que tem havido avanços no que diz respeito à qualidade do biodiesel e que os episódios já não são tão comuns. “Mas ainda tem coisas acontecendo”, diz contando que há poucos diz algumas associadas relataram que tiveram que mandar voltar um carregamento de B100 que não atendia aos padrões de qualidade. “Não tínhamos um evento desses há alguns meses, mas essas situações ainda ocorrem”, completa.

Menos enxofre, mais preocupação
Mas o que realmente coloca o Sindicom na defensiva na hora de falar sobre aumentos na mistura de biodiesel é a introdução dos novos dieseis com baixo teor de enxofre (BTE). No começo do ano, o S500 – que tem 500 ppm de enxofre – começou a ser substituído pelo S50 em milhares de postos. No ano que vem começa o processo de implantação do S10. Vaz lembra que há indícios de que a combinação entre biodiesel e diesel BTE pode não ser das melhores. “O enxofre é um bactericida. Sua redução pode alavancar os problemas com a proliferação microbiológica que vinha sendo percebida”, aponta.

Miranda reforça essa preocupação. Embora ele diga que ainda é cedo para dizer como a mistura entre biodiesel e S50 vai se comportar, a tendência é o agravamento dos problemas.  “Se você está reduzindo o enxofre, tende a aumentar a proliferação de microorganismo que estava acontecendo antes”, preocupa-se.

Esse não é o único fator adverso. O diesel BTE também é mais caro do que o produto convencional, o que pode se tornar um vetor de pressão sobre a inflação. Tema ao qual o governo brasileiro é bastante sensível.

Além disso, ele exige cuidados especiais no transporte. “Hoje temos uma logística de distribuição do S50 que já é difícil e vamos precisar ter ainda mais cuidado com a introdução do S10 no ano que vem. Isso está causando um stress logístico que, em nossa visão, não deveria ser superposto com o stress logístico que um aumento do teor de biodiesel causaria”, resume Alisio Vaz.

“Na nossa avaliação, a introdução do S10 vai ser um grande desafio. Ficaríamos muito mais confortáveis se um eventual aumento de teor do biodiesel viesse só depois dessa fase”, finaliza o presidente do Sindicom.

Em julho de 2010 a ANP criou três grupos de trabalho para avaliar os problemas em três pontos-chave desta polêmica: transporte, armazenagem e as especificações da mistura entre óleo diesel e biodiesel. Até hoje o resultado dessas avaliações permanece em sigilo. Enquanto isso sobram dúvidas sobre a real dimensão do problema, onde precisam ser feitos os ajustes e a controvérsia não diminui.

O tema deve esquentar no próximo mês quando será realizada uma audiência pública para discutir a nova especificação do biodiesel.

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com