Algodão

Aumento das apostas em algodão pode frustrar expectativas


Valor Econômico - 23 jan 2019 - 08:59

O esperado aumento da área plantada de algodão em Mato Grosso, para perto de um milhão de hectares na safra 2018/19, pode não render os resultados esperados. O Estado também lidera a produção da commodity no país.

Motivamos por preços elevados da fibra, puxados pelo aumento da demanda em países asiáticos, muitos produtores anteciparam a semeadura de soja no Estado e realizaram o plantio mais rápido da história. Segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), no dia 19 de outubro já haviam sido semeados 51% dos 9,61 milhões de hectares previstos para a safra 2018/19. No mesmo período de 2017, o plantio da temporada 2016/17 ainda estava em 25,8% da área prevista.

"Tem muita gente entrando no algodão, mas tem de estar bem capitalizado para isso, se planejar durante uns três anos", disse Marcelo Ferrari, produtor de Nova Mutum.

Essa preparação para entrada na cultura não é feita de maneira adequada por todos os que arriscaram a diversificação nesta safra. "Todo mundo que entra agora está procurando um consultor para ajudar, mas não tem consultor preparado em número suficiente para todos", afirmou Rafael Bettiano, coordenador de produção da Fazenda Paiaguás, da SLC Agrícola, situada em Diamantino. A fazenda possui 43,9 mil hectares, semeados com soja, milho e algodão.

Ao contrário de muitos produtores da região, a produção de algodão é o carro-chefe da SLC – é mais relevante que a de soja para os resultados finais da companhia. "Tudo que dá mais dinheiro, dá mais trabalho", disse Bettiano.

Segundo o Imea, a área de algodão em Mato Grosso deverá crescer 18,1%, para 937,79 mil hectares no ciclo corrente. "Diferentemente do que a agente imaginava, tem muito produtor que não se preparou como deveria para entrar no algodão", afirmou André Debastiani, sócio da consultoria Agroconsult, durante a expedição Rally da Safra 2019. Em Campo Novo do Parecis, a revenda Mocellin, por exemplo, não faz financiamento para insumos para o algodão. "É muito arriscado", disse um funcionário.

Um aumento de área sem planejamento foi o que já causou a quebra de diversos produtores na Bahia. O mesmo cenário pode se refletir em algumas safras em Mato Grosso. "Queda de preços ou quebra de safra podem complicar muito o cenário", disse Debastiani.

A antecipação da safra de soja para o plantio do algodão pode também trazer dores de cabeça adicionais. "O plantio muito precoce sofreu com a escassez de água e tem talhão com produtividade de 45 sacos [por hectare]", disse Debastiani.

O plantio acelerado de soja também ajudará o produtor a semear praticamente 100% da área de milho safrinha dentro da janela ideal de plantio - que vai até meados de fevereiro. Ainda é cedo para traçar cenário de quebra de safra, mas a tendência para os preços não é nada animadora. Com a perspectiva de produção sem grandes perdas na Argentina e aumento de área para a temporada 2019/20 nos Estados Unidos, quedas em Chicago são esperadas.

"Olhando o preço agora, a gente deveria era ter vendido tudo lá no ano passado", afirmou Ferrari, de Nova Mutum, que vendeu 50% da produção esperada nos 2 mil hectares que semeia. Em Mato Grosso, a comercialização antecipada chega a 46,7% de uma produção estimada em 25,5 milhões de toneladas, segundo o Imea.

O risco com a alta de custos dos insumos para a safrinha também pode tirar o sono do produtor. "Não compramos antes, agora vamos esperar. Quando tudo está caro, não tem muito o que fazer", disse Ferrari.

Caso não existam problemas de produtividade no ciclo 2018/19, como houve na temporada de 2017/18, o país produzirá cerca de 96 milhões de toneladas de milho, aumento de 18,2%, estima a Agroconsult. A demanda doméstica, enquanto isso, permanece na casa das 50 milhões de toneladas.

"Se alguém for mal, o preço melhora, mas não podemos contar com isso sempre. A melhor calculadora de produtividade que existe é a máquina na lavoura", ressaltou Guilherme Zawadzki e Serra, produtor de Nova Mutum.

Kauanna Navarro – Valor Econômico