[BiodieselBR 2013] Hora de investir agressivamente
Para o pesquisador da Embrapa, Décio Gazzoni, é preciso investir agressivamente no biodiesel. Esse foi o mote de sua fala na Conferência BiodieselBR 2013.
BiodieselBR.com ··8 min de leitura
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Para o pesquisador da Embrapa, Décio Gazzoni, é preciso investir agressivamente no biodiesel. Esse foi o mote de sua fala na Conferência BiodieselBR 2013.
Convidado para abrir o painel que debateria o futuro do biodiesel no Brasil no 2º dia da Conferência BiodieselBR 2013, o pesquisador da Embrapa, Décio Gazzoni, acha que já não se trata mais de discutir se devemos ou não investir em biodiesel. A resposta a essa questão é um retumbante “sim”. A dúvida para ele é o quão agressivamente devemos investir.
“O Brasil é o país do agronegócio. Esse setor sustenta o país, dando suporte ao desenvolvimento econômico, garantindo a balança comercial, a geração de empregos”, disparou cobrando que os debates fossem além. Ele aponta que os dados econômicos divulgados nos últimos meses mostram um paradoxo: enquanto os preços internacionais do grão e o farelo têm apresentando relativa estabilidade, o óleo de soja vem se desvalorizando de forma mais ou menos contínua desde setembro de 2012. “Isso confere um pouco mais de estabilidade e segurança”, ressaltou.
Retomando uma das falas da palestra proferida pelo ex-ministro Delfim Netto no dia anterior, ele lembrou que entre os pontos para a melhoria da competitividade da economia brasileira está a disponibilidade de energia. “Especialmente a disponibilidade de energia a baixos custos e na hora em que precisamos. Isso é outra coisa que precisamos enxergar”, comentou. As projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para 2030 indicam que a demanda brasileira por energia vai mais do que dobrar. “Isso exige um mix de energias e de carriers energéticos. Aí nós temos espaços para energias que não competem entre si, mas que contribuem para que o País tenha uma oferta capaz de suprir essa demanda toda”, complementou.
Janela Contudo, o pesquisador acredita que a janela de oportunidade para que a indústria dos biocombustíveis se desenvolva é relativamente estreita. Ele aposta que, no longo prazo, veremos um processo de eletrificação da economia como um todo – inclusive no setor de transportes que sempre foi dominado pelos combustíveis líquidos.
Embora não tenha dúvidas sobre o sentido para onde as coisas estão se encaminhando, Décio diz que o ritmo do processo ainda não está claro. “O processo vai ser mais rápido ou mais demorado em função de alguns fatores como oferta sustentável de matérias-primas [para biocombustíveis], surgimento de inovações tecnológicas, ganhos de escala, custo e políticas públicas de suporte”, enumerou.
Em sua opinião é bem possível que no futuro o mercado dos biocombustíveis acabe restrito ao bioquerosene de aviação (bioQAV). O biocombustível que, hoje, é a maior novidade do setor será o ganha-pão da indústria uma vez que grandes aeronaves movidas à eletricidade ainda são um sonho distante. “Hoje a gente já consegue mover um carro, um caminhão e até um trem com eletricidade, mas não tem nem como imaginar um avião de passageiros, como um Boing 777, movido a outra coisa que não seja combustível líquido”, pontuou.
Nesse sentido, investir em biodiesel agora capacitaria o setor industrial e incentivaria o desenvolvimento tecnológico necessário para que o setor progredisse na direção das necessidades do mercado.
Meio Ambiente Décio também acredita que seria oportuno recuperar discussões sobre os benefícios ambientais trazidos pelas energias renováveis, que já estiveram muito em pauta há poucos anos, mas acabaram sendo colocadas para escanteio recentemente. “Toda discussão sobre energias renováveis e biocombustíveis começou justamente por conta da temática ambiental e nós estamos perdendo aos poucos a aderência a esse conceito”, alertou.
Levando em conta que, nos últimos meses a China vem experimentando uma situação bastante crítica em termos de poluição atmosférica, seria um bom momento que recolocar a questão ambiental. “Isso está ficando muito sério”, preocupou-se acrescentando que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recentemente anunciou que a fumaça do óleo diesel mineral é tão nociva à saúde humana quanto a exposição ao amianto e ao arsênico. “São problemas ambientais que acabam gerando problemas de saúde e cuja solução passa, justamente, pela mudança da matriz energética”, aconselhou.
IPCC A interface entre política ambiental e de biocombustíveis pode ir ainda mais longe do que o controle da poluição urbana mais imediata. Décio lembrou que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) acaba de publicar seu 5º relatório que traz conclusões muito preocupantes em suas mais de 1.900 páginas. Embora admita que esse volume de texto não é para todo mundo, o palestrante recomendou a leitura. “É um documento científico muito forte e bem alinhado, que é difícil de contestar. E é muito importante quando a gente discute essa questão [das energias renováveis]”, elogiou.
Para exemplificar o quanto a situação é preocupante, o palestrante ressaltou que as projeções do IPCC indicam que, até 2040, a cobertura de gelo no Ártico praticamente vai desaparecer. Isso pode causar uma elevação no nível dos oceanos com consequências potencialmente desastrosas para as cidades litorâneas.
Ao mesmo tempo em que isso acontece, Décio disse que sente que a pressão por maiores investimentos em energia limpa arrefeceu. “Parece que a gente se acomodou e não existe mais aquele ímpeto. Eu sinto que o mundo está indo na contramão e desistiu de enfrentar o problema”, lamentou.
Petróleo Na visão do palestrante, um dos fatores que levou a esse desinteresse foi a crise financeira de 2008, que jogou por terra a tendência de alta nas cotações do barril de petróleo. Antes da crise, as cotações estavam subindo rapidamente e isso dava um estímulo a mais para que os investimentos em biocombustíveis parecessem um bom negócio. E mesmo que hoje elas estejam quase de volta aos patamares pré-crise, os analistas do mercado já não têm mais tanta certeza de qual vai ser o comportamento dos preços no longo prazo por causa da revolução das fontes fósseis não convencionais. “No período anterior à crise, a tendência era que os preços do petróleo iriam explodir dentro dos próximos anos. De quatro anos para cá, as cotações futuras do petróleo começaram a se estabilizar e, hoje, já tem até analistas arriscando dizer que elas vão cair”, comentou.
As fontes não convencionais como o shale gas dos Estados Unidos são tão abundantes que elas podem muito bem ter o poder de mexer nas tendências de preços em escala global. “As reservas prováveis podem dobrar as reservas atuais de petróleo”, alertou acrescentando que nos EUA as fontes não convencionais já são uma realidade e estão causando uma verdadeira revolução no mercado de energia.
“Mas tudo isso ainda é muito recente e as opiniões dos analistas ainda são contraditórias a respeito. Há movimentos contrários ao aproveitamento do shale gas (...) porque a exploração contamina o lençol freático”, observou. Não é tudo. Também há acusações de que a exploração do shale gas consome quantidades enormes de água potável e pode provocar pequenos abalos sísmicos. Mas, na verdade, os problemas ambientais decorrentes do processo de extração estão fazendo com que as seguradoras imponham restrições às operações das petroleiras que exploram essas fontes. “Existe aí uma nuvem negra”, evidenciou.
Investimentos Apesar dessa dificuldade, os investimentos globais em energia renovável continuam apresentando crescimento. “O problema é que estamos falando de uma ordem de grandeza muito pequena, de apenas 1% a 2% de tudo o que se investe em fósseis”, lamentou.
Desses investimentos, a maior parte está indo para a geração de eletricidade o que só reforma a tendência global de eletrificação. Isso tem permitido que o custo de geração da eletricidade renovável a partir de fontes solares e eólicas caia de forma acelerada e, em alguns casos, já se aproxime do preço da geração hidroelétrica – que é o benchmark do mercado.
Esse cenário em formação inclui a energia para o setor de transportes. “Os carros híbridos de hoje são o equivalente bíblico a João Batista [profeta que tinha a função de anunciar o Messias]. Jesus é o carro elétrico”, brincou. Disse também que temos cada vez mais investimentos e inovações focadas na solução de problemas que hoje atrapalham a disseminação dessa tecnologia.
Olhar os avanços da produção de eletricidade renovável pode ajudar o setor de biodiesel a compreender quanto ainda vai durar a janela de investimentos da qual Décio falou. Contudo, ele alertou que, sem as políticas públicas de apoio adequadas, os investimentos em biocombustíveis podem não chegar com a velocidade necessária.
Durante o debate, provocado por Miguel Angelo Vedana se não seria melhor deixar de investir em biodiesel para investir, logo de uma vez, nas tecnologias que vão permitir a eletricidade renovável que ele mesmo diz que serão o futuro, Décio julga que não se trata de esperar. “Os investimentos fazem parte de uma sequência que permite aproveitar vantagens comparativas para consolidar uma indústria, principalmente olhando o futuro. Isso não vai acontecer de uma hora para outra, será uma construção e é temerário atrasar porque a janela é estreita”, finalizou.