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[BiodieselBR 2013] O estado da política econômica

BiodieselBR2013 DelfimNetto_041113-1Saiba como foi a palestra do ex-ministro Antônio Delfim Netto que abriu a Conferência BiodieselBR 2013.
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Saiba como foi a palestra do ex-ministro Antônio Delfim Netto que abriu a Conferência BiodieselBR 2013.

BiodieselBR2013 DelfimNetto_041113-1A edição deste ano da Conferência BiodieselBR foi aberta por um palestrante dos mais notáveis: o mítico economista e ex-ministro da fazenda, Antônio Delfim Netto. Do alto de seus mais de 45 anos de intimidade com o poder, Delfim apresentou ao público um diagnóstico abrangente dos fundamentos por trás da condução da economia brasileira por parte do governo Dilma.

Apropriadamente batizada “A política econômica do atual governo”, a apresentação procurou dispersar um pouco das leituras mais sombrias sobre o futuro da economia brasileira que andaram ganhando força nos últimos tempos. “Não estamos na vizinhança do apocalipse. Não tem nenhuma tragédia nos esperando na próxima esquina”, garantiu acrescentando que, em sua opinião, a única dificuldade pela qual passamos é uma enorme falta de entendimento entre o governo e o setor privado. “Não tenho dúvidas de que essa tem sido a causa mais importante em nosso desafio em manter o crescimento econômico”

Segundo o palestrante, os fundamentos da economia brasileira continuam razoáveis e a equipe do governo Dilma – ao contrário do que tem sido, por vezes, acusada – não abandonou o tripé baseado em responsabilidade fiscal, monetária e cambial. O problema, segundo ele, é que nem sempre é obvio o que “responsável” significa. “A tendência dos economistas é cada um achar que está certo”, ironizou.

Para Delfim, olhando a evolução dos resultados trimestrais do PIB brasileiro, é possível perceber que, embora o indicador tenha apresentado variações significativas ao longo dos últimos anos, entramos num processo de retomada. “Estamos voltando a crescer e acho que vamos terminar o ano crescendo 2,7%. Não é algo brilhante, mas também não é nenhuma tragédia, até porque o mundo inteiro está sofrendo uma redução no ritmo de crescimento, mas tudo indica que vamos continuar crescendo”, opinou.

Ele apontou também que há uma tendência de melhora gradual na relação entre os superávits primários e os juros nominais que perduram desde o 2º mandato de Fernando Henrique Cardoso, tendência essa que vem sendo mantida ao longo de todo o governo Lula e Dilma. “Temos uma dívida bruta de 60% do PIB o que é um nível desconfortável para um país emergente, mas não é nenhuma tragédia”, diz. Ressaltou ainda que, apesar dos pesares, a condução econômica do governo brasileiro vem se mantendo dentro dos limites do que Tratado de Maastricht considera como responsável (endividamento bruto de 60% e déficit abaixo de 3%).

“Com todos os seus problemas o Brasil satisfaria [o tratado] em matéria fiscal”, comentou ressaltando que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem dado sinais de que vai manter a dívida pública sob as rédeas.

Inflação
O segundo pé são as metas de inflação. Para o palestrante, o fato dos índices de inflação no governo Dilma estarem sempre perto do teto da meta é antes um problema do modelo do que um sinal de descontrole. “Esse não é um problema só agora. Nos governos Lula e FHC também era assim. Nós nunca fomos mesmo muito virtuosos quanto a isso e não há nenhum motivo para pensarmos que as metas estejam sendo abandonadas”, assegurou.

Ele também afastou as leituras mais alarmistas de que corremos o risco de um retorno aos tempos da hiperinflação. “Você pega o jornal de vez em quando e tem a impressão que o Brasil vai ter uma inflação de descabelar já na semana que vem”, minimizou. Ele não negou que a situação brasileira seja desconfortável, mas nada aponta para um descontrole total.

Câmbio 
Dos fundamentos da economia brasileira, o que inspira maiores cuidados, na leitura de Delfim é o câmbio. “Nós realmente cometemos alguns equívocos quanto ao câmbio”, admitiu apontando que o mercado se adiantou ao governo e está corrigindo a sobrevalorização do real.

Segundo ele, temos acumulado déficits em conta corrente nos últimos anos, o que equivale dizer que estamos tomando emprestado do mundo. “O que todo mundo precisa saber sobre isso é que o credor é um canalha que, de vez em quando, quer receber de volta o que emprestou”, brincou arrancando risos da plateia. “É por isso que os processos de endividamento terminam sempre mal”, emendou.

O desajuste do câmbio está causando danos muito sérios ao setor industrial da economia brasileira. “Quando eu valorizo o câmbio, estou roubando um pedaço do mercado externo da indústria brasileira. Se antes eu exportava dez, agora exporto dois”, explicou. E como a indústria nacional fica menos competitiva, o mercado interno também acaba sendo afetado, o que tem se traduzido numa perda de vigor acentuada no setor industrial. “Esse foi o fator mais importante para a redução dos investimentos”, sinalizou.

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Apesar disso, as relações de troca têm se mantido favoráveis ao Brasil. “Quando o Lula assumiu [em 2003], uma tonelada de exportações brasileiras comprava uma tonelada de importações. Em 2010, uma tonelada de exportação comprava 1.400 quilos de importações. A relação de preços nos dava de presente 400 quilos a mais”, exemplificou. Foi isso, segundo Delfim, o que permitiu que a renda do brasileira crescesse mais do que a simples expansão do PIB permitiria.

Revolução
Esse saldo somado à redução nos índices de natalidade – que permitiram um aumento proporcional na renda mesmo sem um crescimento tão forte do PIB – foi um dos fatores que têm sustentado os recentes avanços na distribuição de renda no Brasil. “Produzimos um processo redistributivo profundo”, evidenciou.

Para o ex-ministro, o país está vivendo uma verdadeira revolução por conta do acesso facilitado ao crédito, mesmo para as camadas de renda mais baixa.

Tudo isso tem levado a um crescimento vigoroso na classe média. Em 2005, 51% da população brasileira estava nas classes D e E, enquanto 34% estava na classe média. Em 2011, esse índice se inverteu e a classe C conta 54% da população, enquanto a quantidade de gente nas classes menos favorecidas minguou para 24%. “Trouxemos 35 a 40 milhões de pessoas para dentro da economia. Isso produz uma mudança radical”, assombrou-se.

Uma mudança profunda que fez o Índice de Bem-Estar Social do Brasil saltar de meros 97 pontos em 2003 para 157 no ano passado.

Demografia
Talvez a maior preocupação de longo prazo para o Brasil seja a evolução da demografia. Com o controle da natalidade, o perfil populacional do Brasil está em franca transição. Com a população entre 0 e 14 anos em queda e a da 3ª idade crescendo, a população em idade economicamente ativa, que é quem precisa produzir para sustentar os outros dois grupos, está ficando mais estreita, o que vai exigir um aumento de produtividade por parte deste grupo. “A estrutura da demanda vai se modificar completamente, ficando mais educada e exigente. O Brasil está num processo de mudança muito mais profundo do que o simplesmente econômico”, observou.

Segundo o palestrante, o crescimento do PIB é limitado pela oferta de mão de obra. A economia só pode crescer em função da quantidade de trabalhadores que entra em atividade e da produtividade média desses trabalhadores. Como a demografia só muda com certa dificuldade, se quiser continuar crescendo, o Brasil terá que passar a dotar seus trabalhadores de mais capital social –educação e saúde – e físico, na forma de infraestrutura. É nesse ponto em que Delfim aposta num aumento substancial na demanda brasileira por educação. “A educação não é importante só para a economia. É importante para transformar macaco em homem e é o processo que está mudando tudo”, filosofou.

Quanto ao capital físico, Delfim vê com bons olhos os incentivos do governo brasileiro ao investimento em infraestrutura porque isso permite aumentar a produtividade com muita rapidez. “Digamos que hoje, para transportar uma tonelada de soja lá do Mato Grosso até Paranaguá, eu consumo 500 quilos entre perdas e pagamentos. Se eu melhorar essa infraestrutura, passo a consumir só 200 quilos. É como se eu aumentasse minha produção de soja em 300 quilos instantaneamente. Esse é o caminho mais rápido para crescer em produtividade”, diz.

Ele ressaltou que há uma armadilha nesses investimentos. Historicamente, o governo tem feito isso através da dívida pública o que, na visão de Delfim, simplesmente realoca um recurso que seria usado produtivamente em outro lugar para um projeto governamental. No fim das contas, isso é um jogo de somar zero. “As coisas estão mudando e o governo entende que não tem como continuar financiando infraestrutura com dívida pública”.

Ele também destacou outras ações do governo no sentido de baixar os preços da energia elétrica e melhorar os portos. “Essas intervenções tiveram essa imagem de ações voluntaristas, mas foram na direção certa. De fato precisamos reduzir o custo da energia e melhorar os portos. Embora essas intervenções tenham sido feitas com tal brutalidade e confusão, causando um atrito danado, vão provocar um aumento da produtividade tremendo em mais três ou quatro anos”, opinou.

Um dos grandes desafios nesse processo de redefinição do papel tradicional do Estado como investidor nas obras de infraestrutura está na dificuldade de gerir os leilões de concessão e de desenhar contratos que efetivamente deem conta de contratar. Na prática, é a transferência de um monopólio público para mãos privadas. “O governo está entendendo que não dá para fixar todos os fatores de um leilão. Ele não pode exigir que a concessionária dele entregue um produto de máxima qualidade ao mesmo tempo em que impõe um taxa de retorno fixa”, comentou reconhecendo que é mesmo difícil acertar nesse tipo de contratos de longa duração. “Não tem outra saída, eles têm que ser revistos”, completou.

Para isso, ele retomou a questão do melhor entendimento entre o governo e a iniciativa privada. “Os empresários veem o governo do PT como um bando de trotskistas enrustidos que querem a comunização do país. Isso é um absurdo. Já o governo acredita que o setor privado é um bando de ladrões. Isso também é um absurdo, embora não seja um exagero”, brincou. “A minha esperança é que a gente supere isso”, torce.

A apresentação que acompanhou a palestra de Delfim Netto pode ser acessada clicando aqui.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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