Ricardo Baitelo trabalha para o Greenpeace. Em sua palestra na Conferência BiodieselBR 2013 ele trouxe a visão da ONG sobre o futuro do setor de energia.Ricardo Baitelo trabalha para o Greenpeace. Em sua palestra na Conferência BiodieselBR 2013 ele trouxe a visão da ONG sobre o futuro do setor de energia.

Estreante nas Conferências BiodieselBR, o físico Ricardo Baitelo hoje atua no Greenpeace sendo um dos responsáveis pela elaboração da versão nacional da série de relatórios [R]Evolução Energética. Esses estudos desenvolvem cenários sobre as potencialidades das energias renováveis – especialmente as fontes eólicas e solares. “Acompanhamos o mercado energético, tanto a parte econômica quanto técnica. Apontamos onde se espera que o Brasil possa chegar até 2050”, explicou.
Conforme conta Baitelo, os relatórios [R]Evolução Energética são realizados com certa regularidade em mais de 40 países e funcionam como uma ferramenta de pressão usada pelo Greenpeace para mostrar aos governos como é possível reduzir rapidamente as emissões de gases relacionados ao efeito estufa. A realização do estudo tem como premissa a necessidade de controlar o aquecimento global, que, segundo o palestrante, deve ficar abaixo do limite de 2ºC. “A proposta é mostrar qual seria o tamanho do esforço que esses países teriam que fazer para manter as emissões baixas considerando a manutenção do crescimento econômico”, esclareceu. No Brasil, o estudo é feito em colaboração com a Coppe/UFRJ, do GPEA e da IEE.
Uma novidade trazida pela edição 2013 do estudo são as previsões voltadas ao consumo de energia no setor de transportes. “Isso está nos permitindo falar não só mais de biomassa – que era algo sobre o qual já costumávamos falar –, mas diretamente de etanol e biodiesel”, comentou.
Custo
“O custo de fazer essa transição é a pergunta principal que nos fazem”, disse Baitelo mesmo explicando que esse não é considerado um fator limitante para as projeções feitas pelo Greenpeace. “Temos premissas sociais e ambientais que são praticamente fixas e, a partir delas, elaboramos nos nossos cenários potenciais. Não são cenários apenas teóricos, mas realizáveis”, comentou. Trocando em miúdos: qual seria o tamanho do esforço necessário para trocar o máximo de energia suja possível por fontes renováveis projetadas para respeitar limites ambientais e sociais.

Uma que coisa ficou clara a partir dos estudos do Greenpeace é que não há nenhuma relação linear entre a evolução do PIB e a descarbonização do setor energético. Mais do que isso, dá para avançar muito com base em tecnologias que já estão disponíveis hoje. “Procuramos manter uma linha média entre o que seria o pior cenário e o melhor possível. Por mais que o nosso cenário pareça distante, precisamos pensar desde já como fazer para evitar o pior cenário”, analisou. Isso a despeito das projeções mostrarem que a matriz energética brasileira será 2,5 maior que a atual.
Biocombustível
Assim como o palestrante Décio Gazzoni, Baitelo também olha para os veículos elétricos como uma tendência para o futuro. No entanto, ele não é tão otimista quanto ao potencial transformador dessa tecnologia. “Achamos que não vamos ter tanta eletricidade assim para os veículos elétricos, não vamos conseguir dispor de várias dezenas ou até centenas de gigawatts tão facilmente. Essa é uma equação difícil de ser resolvida e, por isso, acho que os biocombustíveis vão ter uma função muito importante dentro disso”, prosseguiu.
O importante é perceber que não existe uma “bala de prata” capaz de resolver todos os problemas da energia necessária ao setor de transportes. “Embora haja limitações relacionadas aos biocombustíveis do ponto de vista dos impactos ambientais, também existem limitações da eletrificação”, contrabalançou.
No que diz respeito às previsões específicas para o setor de transportes, o Greenpeace espera que a participação dos biocombustíveis supere os 30% da matriz energética. Embora ressalte que poderemos conseguir uma evolução notável na eficiência energética do setor de transportes, o Greenpeace não é muito otimista em relação à mudança da matriz logística nacional. Ela deverá continuar sendo dominada pelo transporte rodoviário pelas próximas décadas. “Por uma série de condições ligadas a nossa infraestrutura e ao tamanho do país, o Brasil, em 2050, ainda seria essencialmente rodoviário”, vaticinou.
Colocado na ponta do lápis, a ONG espera que o Brasil chegue em 2050 consumindo 46 bilhões de litros de etanol e 13 bilhões de litros de biodiesel – considerando que o país passe a usar B20 a partir de 2030. “Para que essa previsão se concretize, a descentralização e diversificação de culturas energéticas teriam que acontecer. A produção de óleo de soja poderia até dobrar, mas, a partir de certo ponto, teríamos que realmente viabilizar outras culturas”, ponderou.
Emissões
Se nada for feito, as emissões brasileiras em 2050 serão equivalentes a 800 milhões de toneladas de CO2 por ano. “Isso quer dizer que, mesmo que consigamos reduzir significativamente as emissões derivadas do desmatamento, o Brasil ainda vai ser um dos maiores em emissões de gases do efeito estufa do mundo”, alertou. Se todas as recomendações feitas pela Greenpeace no relatório fossem adotadas, seria possível cortar em 60% das emissões.
Para que isso aconteça, o palestrante cobra que sejam dadas condições equivalentes aos renováveis e fósseis. “Não é uma questão de tirar todos os subsídios das fontes fósseis ou de dar muitos subsídios às fontes renováveis, mas de simplesmente equiparar o jogo. Não é isso o que vemos”, lamentou acrescentando que há um favorecimento histórico das fontes fósseis.
Ele também aponta – como outros palestrantes que vieram antes – que a descoberta do pré-sal levou a um relativo esvaziamento das políticas de incentivo aos biocombustíveis. “É bem visível a diferença que houve no tratamento ao etanol e biodiesel antes e depois de 2008. E isso se reflete nos planejamentos do governo, se você pegar o planejamento decenal do setor energético vai ver que 75% dos investimentos vão para óleo e gás e 8% para biocombustíveis. Isso é contraditório com o papel que o próprio governo espera dos biocombustíveis dentro do Plano Nacional de Mudanças Climáticas”, sentenciou.
Nesse ponto, o palestrante aponta algo relevante: a falta de um marco regulatório que indica o caminho para as fontes renováveis. Sem isso, por mais boa vontade que os possíveis investidores possam ter, fica faltando um posicionamento claro capaz de incentivá-los a colocar dinheiro em projetos relacionados à energia limpa. “Os investidores na área de renováveis, inclusive no caso do biodiesel, precisam contar um pouco com feeling e a sorte na hora de escolherem o melhor caminho”, criticou. “Estamos deixando de discutir como vamos fazer a transição da matriz [energética] nos próximos anos”, finalizou.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com


Estreante nas Conferências BiodieselBR, o físico Ricardo Baitelo hoje atua no Greenpeace sendo um dos responsáveis pela elaboração da versão nacional da série de relatórios [R]Evolução Energética. Esses estudos desenvolvem cenários sobre as potencialidades das energias renováveis – especialmente as fontes eólicas e solares. “Acompanhamos o mercado energético, tanto a parte econômica quanto técnica. Apontamos onde se espera que o Brasil possa chegar até 2050”, explicou.
Conforme conta Baitelo, os relatórios [R]Evolução Energética são realizados com certa regularidade em mais de 40 países e funcionam como uma ferramenta de pressão usada pelo Greenpeace para mostrar aos governos como é possível reduzir rapidamente as emissões de gases relacionados ao efeito estufa. A realização do estudo tem como premissa a necessidade de controlar o aquecimento global, que, segundo o palestrante, deve ficar abaixo do limite de 2ºC. “A proposta é mostrar qual seria o tamanho do esforço que esses países teriam que fazer para manter as emissões baixas considerando a manutenção do crescimento econômico”, esclareceu. No Brasil, o estudo é feito em colaboração com a Coppe/UFRJ, do GPEA e da IEE.
Uma novidade trazida pela edição 2013 do estudo são as previsões voltadas ao consumo de energia no setor de transportes. “Isso está nos permitindo falar não só mais de biomassa – que era algo sobre o qual já costumávamos falar –, mas diretamente de etanol e biodiesel”, comentou.
Custo
“O custo de fazer essa transição é a pergunta principal que nos fazem”, disse Baitelo mesmo explicando que esse não é considerado um fator limitante para as projeções feitas pelo Greenpeace. “Temos premissas sociais e ambientais que são praticamente fixas e, a partir delas, elaboramos nos nossos cenários potenciais. Não são cenários apenas teóricos, mas realizáveis”, comentou. Trocando em miúdos: qual seria o tamanho do esforço necessário para trocar o máximo de energia suja possível por fontes renováveis projetadas para respeitar limites ambientais e sociais.

Uma que coisa ficou clara a partir dos estudos do Greenpeace é que não há nenhuma relação linear entre a evolução do PIB e a descarbonização do setor energético. Mais do que isso, dá para avançar muito com base em tecnologias que já estão disponíveis hoje. “Procuramos manter uma linha média entre o que seria o pior cenário e o melhor possível. Por mais que o nosso cenário pareça distante, precisamos pensar desde já como fazer para evitar o pior cenário”, analisou. Isso a despeito das projeções mostrarem que a matriz energética brasileira será 2,5 maior que a atual.
Biocombustível
Assim como o palestrante Décio Gazzoni, Baitelo também olha para os veículos elétricos como uma tendência para o futuro. No entanto, ele não é tão otimista quanto ao potencial transformador dessa tecnologia. “Achamos que não vamos ter tanta eletricidade assim para os veículos elétricos, não vamos conseguir dispor de várias dezenas ou até centenas de gigawatts tão facilmente. Essa é uma equação difícil de ser resolvida e, por isso, acho que os biocombustíveis vão ter uma função muito importante dentro disso”, prosseguiu.
O importante é perceber que não existe uma “bala de prata” capaz de resolver todos os problemas da energia necessária ao setor de transportes. “Embora haja limitações relacionadas aos biocombustíveis do ponto de vista dos impactos ambientais, também existem limitações da eletrificação”, contrabalançou.
No que diz respeito às previsões específicas para o setor de transportes, o Greenpeace espera que a participação dos biocombustíveis supere os 30% da matriz energética. Embora ressalte que poderemos conseguir uma evolução notável na eficiência energética do setor de transportes, o Greenpeace não é muito otimista em relação à mudança da matriz logística nacional. Ela deverá continuar sendo dominada pelo transporte rodoviário pelas próximas décadas. “Por uma série de condições ligadas a nossa infraestrutura e ao tamanho do país, o Brasil, em 2050, ainda seria essencialmente rodoviário”, vaticinou.
Colocado na ponta do lápis, a ONG espera que o Brasil chegue em 2050 consumindo 46 bilhões de litros de etanol e 13 bilhões de litros de biodiesel – considerando que o país passe a usar B20 a partir de 2030. “Para que essa previsão se concretize, a descentralização e diversificação de culturas energéticas teriam que acontecer. A produção de óleo de soja poderia até dobrar, mas, a partir de certo ponto, teríamos que realmente viabilizar outras culturas”, ponderou.
Emissões
Se nada for feito, as emissões brasileiras em 2050 serão equivalentes a 800 milhões de toneladas de CO2 por ano. “Isso quer dizer que, mesmo que consigamos reduzir significativamente as emissões derivadas do desmatamento, o Brasil ainda vai ser um dos maiores em emissões de gases do efeito estufa do mundo”, alertou. Se todas as recomendações feitas pela Greenpeace no relatório fossem adotadas, seria possível cortar em 60% das emissões.
Para que isso aconteça, o palestrante cobra que sejam dadas condições equivalentes aos renováveis e fósseis. “Não é uma questão de tirar todos os subsídios das fontes fósseis ou de dar muitos subsídios às fontes renováveis, mas de simplesmente equiparar o jogo. Não é isso o que vemos”, lamentou acrescentando que há um favorecimento histórico das fontes fósseis.
Ele também aponta – como outros palestrantes que vieram antes – que a descoberta do pré-sal levou a um relativo esvaziamento das políticas de incentivo aos biocombustíveis. “É bem visível a diferença que houve no tratamento ao etanol e biodiesel antes e depois de 2008. E isso se reflete nos planejamentos do governo, se você pegar o planejamento decenal do setor energético vai ver que 75% dos investimentos vão para óleo e gás e 8% para biocombustíveis. Isso é contraditório com o papel que o próprio governo espera dos biocombustíveis dentro do Plano Nacional de Mudanças Climáticas”, sentenciou.
Nesse ponto, o palestrante aponta algo relevante: a falta de um marco regulatório que indica o caminho para as fontes renováveis. Sem isso, por mais boa vontade que os possíveis investidores possam ter, fica faltando um posicionamento claro capaz de incentivá-los a colocar dinheiro em projetos relacionados à energia limpa. “Os investidores na área de renováveis, inclusive no caso do biodiesel, precisam contar um pouco com feeling e a sorte na hora de escolherem o melhor caminho”, criticou. “Estamos deixando de discutir como vamos fazer a transição da matriz [energética] nos próximos anos”, finalizou.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
