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Lula deve ter novo núcleo de poder, reformulação na economia, disputa por emendas e reforma do Judiciário

Petista foi reeleito no segundo turno com 51,79% dos votos válidos neste domingo (25)

Folha de S.Paulo 7 min de leitura

Reeleito neste domingo (25) com uma virada inédita, o presidente Lula (PT) deverá instituir um novo núcleo de poder no governo para seu quarto mandato, além de reformular a equipe econômica. A nova gestão também deve ser marcada por tentativas de reformar o Judiciário e de retomar o controle sobre as emendas parlamentares.

O petista terá condições adversas para pôr seus planos em prática. Na economia, o governo é pressionado a reduzir gastos e frear o aumento da dívida pública, o que dificulta a implementação de novos programas. Na política, terá um Congresso com bolsonarismo fortalecido e que tende a impor ao petista ainda mais dificuldades para aprovar suas propostas do que as do atual mandato.

Lula idealiza a composição de uma equipe de ministros mais forte, a começar pelos que despacham do Palácio do Planalto, grupo tradicionalmente apelidado de "cozinha do governo".

Com isso, o espaço do grupo lulista da Bahia deve diminuir. Esse time é representado por Rui Costa (PT), que deixou o cargo de ministro da Casa Civil em abril deste ano para se candidatar a senador; Jaques Wagner (PT), ex-líder do governo no Senado que deixou o posto após ser citado no caso Banco Master, e os ministros Sidônio Palmeira (Comunicação Social) e Wellington Lima e Silva (Justiça).

A nova configuração é apontada como fundamental para implementação das reformas que Lula defende na área política e no Judiciário.

O ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT) tem liderado as apostas para a coordenação da Esplanada dos Ministérios, como titular da Casa Civil. Trata-se do principal cargo da equipe do governo, com a tarefa de organizar a execução de programas e formular decisões políticas.

Camilo se aproximou de Lula ao longo do governo e, depois do primeiro turno, tornou-se um dos aliados mais próximos do petista. O presidente reeleito ficou especialmente satisfeito com o fato de o grupo político de seu ex-ministro da Educação ter conseguido vencer uma eleição difícil para o governo do Ceará.

Depois disso, Camilo foi incorporado à equipe de Lula, sendo responsável por reajustes nas estratégias de campanha, ao lado do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT).

Antes do primeiro turno, o favorito para a Casa Civil era o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). O nome de Haddad perdeu força depois de ele ser derrotado no primeiro turno por Tarcísio de Freitas (Republicanos) na disputa pelo Governo de São Paulo.

Ainda assim, Haddad e Lula continuam próximos. O ex-ministro só aceitou disputar o governo de São Paulo depois de muita insistência do presidente. Ele não está descartado para a Casa Civil ou outro cargo de relevo no novo governo.

Haddad, porém, tem demonstrado nos bastidores descontentamento com as críticas de petistas por causa do resultado da eleição. O ex-ministro avalia ter aceitado uma missão praticamente impossível para ajudar Lula e considera injustas as críticas pela derrota. Aliados de Haddad acham possível que ele retome sua carreira de professor universitário.

As escolhas de Lula para seu núcleo de poder mais próximo ganham importância porque podem indicar quem liderará a esquerda após a aposentadoria do atual presidente. Lula não deverá mais disputar eleições, e o PT precisará escolher novas caras para as eleições 2030 e as posteriores.

Aliados do presidente chegam a apostar no lançamento de um nome de fora do PT para a disputa de 2030, como um sinal de ampliação.

A necessidade de renovação foi sentida, inclusive, na eleição deste ano. Desde antes da campanha começar, petistas reconheciam que o presidente, por disputar eleições desde a década de 1980, despertava cansaço em diversos eleitores. Esse era apontado como o principal risco da candidatura de Lula, que passou perto de ser derrotada por Flávio Bolsonaro.

Outros nomes tradicionais do PT não conseguiram se eleger, como José Dirceu, Benedita da Silva e Gleisi Hoffmann.

Segundo interlocutores de Lula, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, estará escalado no novo centro de poder. Moretti é considerado um técnico competente pelo presidente e costuma ser elogiado por ele em discursos públicos.

Para a economia, aliados do presidente reeleito afirmam que ele avalia a escolha de um nome robusto, com reconhecimento no mercado. Nas conversas, Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do conselho de administração do banco Bradesco, é usado como referência de perfil para a Fazenda.

O presidente chegou a sugerir que Dilma Rousseff o convidasse para a função em 2014, mas a ideia não prosperou.

Ainda segundo aliados, Lula reconhece a necessidade de ter um gabinete mais profissionalizado, até mesmo com a contratação de um secretário particular para administrar sua vida pessoal.

Nesse caso, caberia ao chefe de gabinete estabelecer as pontes com os demais ministérios, com a organização de audiências, emergências e relação com a sociedade civil.

A ideia de profissionalização da cozinha do Palácio ficou evidenciada com o afastamento do ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, citado em investigação sobre tráfico de influência por ter recebido pagamentos da lobista Roberta Luchsinger. Ele afirma que os valores eram parte de um empréstimo, quitado recentemente.

Com a eclosão do caso, o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares, passou a atuar na organização da agenda do presidente. Amigo da primeira-dama Janja Lula da Silva, ele começou a ser lembrado para assumir a chefia de gabinete em um quarto mandato.

Aliados do presidente apostam ainda na reformulação do Ministério da Justiça, que daria corpo a um debate sobre a reforma do Judiciário, considerado inadiável.

O presidente já defendeu publicamente a fixação de mandatos para tribunais e a criação de um conselho para a indicação de seus integrantes. O tema ganhou tração por causa do desgaste causado na imagem do STF (Supremo Tribunal Federal) pelo escândalo do banco Master.

Também está no radar um desmembramento do Ministério da Justiça para a criação do Ministério da Segurança Pública –medida condicionada à aprovação de uma emenda constitucional que viabilize seu funcionamento.

O presidente propôs uma reforma política que inclua o fim dos fundos partidário e eleitoral, dizendo ter revisto sua posição sobre os temas. No passado, Lula sempre defendeu o financiamento público de campanhas.

Uma das tarefas mais difíceis será a reversão do que o petista chama de "sequestro do Orçamento" pelo Congresso Nacional. Em discursos e entrevistas, Lula sinalizou uma disputa em torno do tema. "Vai ter briga com emenda parlamentar, com papel que hoje tem o Legislativo", prometeu.

O petista estará em minoria no Congresso e precisará, mais do que nunca, do apoio do centrão para governar. Esse grupo é o principal defensor das emendas parlamentares e não deve aceitar reduzir seu poder sobre esses recursos. Aliados do chefe do governo acreditam que ele precisará fazer uma gestão mais ao centro desta vez, sem força para promover muitas pautas de esquerda.

Apesar disso, Lula fez uma promessa concreta que colide com o interesse dos congressistas em manter o controle sobre as emendas. O chefe do governo disse, na campanha de segundo turno, que pretende usar dinheiro das emendas parlamentares para ajudar a financiar o passe livre no transporte público aos finais de semana.

O petista também prometeu expandir o programa de bolsas estudantis Pé de Meia para o ensino superior. Além disso, propôs o perdão de dívidas dos MEIs (microempreendedores individuais) com o governo federal, medida já aprovada pelo Congresso, e prometeu depósitos de R$ 5.000 para integrantes desse grupo expandirem seus negócios.

Colocadas em prática, essas medidas deverão dificultar a contenção da dívida pública, ação que aliados de Lula prometeram ao mercado financeiro nos últimos meses.

Em um país polarizado, o presidente se comprometeu com a defesa da soberania nacional, com maior investimento em defesa, tecnologia e beneficiamento de matérias-primas. Nesse último caso, o principal exemplo são os minerais críticos. O petista tem defendido que esses materiais, dos quais o Brasil tem grandes reservas, sejam processados dentro do país antes de serem exportados.

Catia Seabra, Caio Spechoto e Mariana Brasil – Folha de S.Paulo

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