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Eficiência maior no uso do diesel


Correio Braziliense - 18 ago 2011 - 10:26 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:17

Uma caixa de 40cm por 20cm pode reduzir o consumo de diesel e a emissão de gás carbônico em mais de 15%. A invenção, ainda sem preço definido, deve começar a ser vendida em um mês no Brasil e é chamada de Green Box. Até o momento, um protótipo está sendo testado na capital federal e apresentado às empresas interessadas em comprar o aparelho, entre elas a Odebrecht e a Real Expresso. Além de servir a empreiteiras, companhias de transporte de carga e de passageiros, o equipamento pode ser adaptado para o uso em qualquer motor abastecido pelo combustível, como em carros de passeio, tratores, geradores e até termoelétricas.

O mesmo modelo trazido para a capital encerrou a fase de testes nos Estados Unidos e teve o uso aprovado. A comercialização naquele país está prestes a começar. De acordo com o cientista e inventor do aparelho, o russo Naum Staroselsky, foram necessários quatro anos de estudo para chegar ao protótipo atual, que diminui o gasto aprimorando a queima do combustível. Para conseguir o resultado, são injetadas mais partículas de CO2 no diesel. Durante o processo, há um aumento de pressão, otimizando a queima e oferecendo melhor rendimento. “As empresas brasileiras receberam a ideia muito bem. Eu diria, inclusive, que de forma mais agressiva que outros países”, diz.

Outras demonstrações dos benefícios do uso da caixa estão previstas para São Paulo e Belo Horizonte nos próximos dias. Depois disso, países como a Rússia, o Canadá e a Índia deverão ser apresentados ao equipamento. A princípio, a instalação pode ser feita em veículos novos e usados, mas, segundo Staroselsky, o foco são os modelos mais antigos. “As fábricas ainda não se sentem beneficiadas por incentivar o uso desta tecnologia. Existe aí um processo muito burocrático de convencimento”, afirma. “Isso ocorre com toda invenção. Primeiro, ela é vista com desconfiança. Depois, as pessoas se perguntam 'será?', e por último elas dizem ‘bom, pode ser’ e acreditam. Ainda estamos na primeira etapa”, brinca.

Venda no país
Além da Green Box, a indústria brasileira já se prepara para pôr nas ruas um modelo novo de caminhões que façam, de fábrica, o aprimoramento da queima a fim de reduzir consumo e emissão de poluentes. À venda a partir de 2012, esses veículos utilizam um processo semelhante. Mas, no lugar do gás carbônico, incluem ureia para potencializar a queima. O próprio diesel terá de ser mais “limpo”, com menos partículas de enxofre. Para Alfredo Peres da Silva, vice-presidente da IG-Fuel, companhia que comprou o direito do uso e da patente da Green Box, há limitações no projeto concorrente. “A desvantagem é que só vale para os carros novos. Além disso, é preciso usar um combustível diferenciado. A Petrobras garante que vai produzir, mas imagina-se que o custo será mais alto”, completa Peres.

Para desviar das críticas, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) diz que está tomando todas as medidas a fim de garantir, a partir de janeiro de 2012, que nenhum dos novos veículos movidos a diesel tenha dificuldades de abastecimento. E aqueles que utilizarão o diesel com baixo teor de enxofre (chamado S50) serão introduzidos gradualmente na frota a partir de 2012.

Apesar de os modelos novos contarem com essa ferramenta vinda de fábrica, a IG-Fuel está entusiasmada com outros números. A estimativa é de que 4 milhões de veículos em circulação no país usem diesel. Destes, 2,5 milhões são caminhões, cuja frota acima dos 15 anos representa mais de 50% do total. Outros 30% neste universo teriam mais de 30 anos. Esse público poderá ser atendido pela Green Box. “Todo mundo busca alternativas para economizar”, acrescenta Peres.

Se as vendas estiverem de acordo com as perspectivas da empresa, a tecnologia deixará de ser importada dos Estados Unidos e virá para o Brasil. Os locais para implantação das três fábricas ainda estão indefinidos. No entanto, Peres adianta que uma delas certamente ficará no DF.

Para Saber Mais
Novos limites
O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabelece, por meio do Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), criado em 1986, alguns limites para as emissões veiculares. Em 2009 foi aprovada uma resolução que abrange carros de passeio, utilitários, picapes e furgões. Segundo a regra, a partir de 2013, veículos movidos a diesel terão de sair das fábricas respeitando os novos padrões. No ano seguinte, será a vez dos movidos a gasolina. A nova meta prevê que veículos leves de passageiros e comerciais pequenos não poderão emitir mais do que 1,3 grama de monóxido de carbono por quilômetro rodado.

Outro grave poluente é o enxofre, presente no diesel comercializado pelo país. Nas regiões metropolitanas, ele é encontrado na concentração de mais de 500 partes por milhão (ppm). Em áreas mais afastadas, o diesel chega a apresentar 1.800 ppm de enxofre. Segundo o novo regulamento, também está prevista uma redução dessa quantidade. A partir de 2012, o limite será de 50 ppm de enxofre. A partir de 2013, serão aceitáveis 10 ppm, mesma concentração permitida na Europa. Para veículos antigos, o uso do combustível modificado não causa prejuízo, no entanto, carros feitos para receber a nova tecnologia não podem ser abastecidos com o diesel comum, sob risco de degradação do motor.

Perfil
Naum Staroselsky

Ph.D. em engenharia mecânica, Naum Staroselsky é presidente da Ultimate Combustion Company, empresa que cria produtos para aumentar o desempenho de máquinas movidas a combustão. O cientista acumula mais de 55 anos de trabalho com engenharia de recursos de energia.

Julia Borba