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Paulo Anselmo Ziani Suarez

Sobre opções para a agricultura familiar no semi-árido


Paulo Suarez - 10 dez 2007 - 16:25 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

Conclui a minha coluna do mês passado, afirmando uma fonte de oleaginosa para biodiesel deveria atender três aspectos: (i) viabilidade técnica e econômica para a produção agrícola do óleo; (ii) viabilidade técnica e econômica para transformá-lo em biodiesel; e (iii) garantias de que a qualidade do biocombustível produzido será compatível com o seu uso em motores veiculares ou estacionários. Afirmei ainda que se um desses três aspectos não fosse contemplado, certamente não se deveria considerar essa matéria-prima para o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNBP).
 
Em uma das minhas primeiras colunas, mostrei que o óleo de mamona não se constitui numa boa opção para produzir biodiesel devido as suas propriedades físico-químicas (especialistas em mercado e logística questionam ainda a viabilidade econômica de se utilizar este óleo nobre para produzir biocombustiveis, mas não irei entrar nessa seara, pois nela sou apenas um leigo). Falei ainda que acreditava que o incentivo dado à mamona era fruto da tentativa do governo de resolver problemas sociais crônicos brasileiros, principalmente nas regiões do semi-árido. Mas ponderei, no entanto, que colocar as dimensões social e política a frente do conhecimento científico disponível na nossa comunidade poderá levar a prejuízos ao PNPB.

Motivado por encontrar uma possível solução para a agricultura familiar no semi-árido que permitisse produzir uma matéria-prima com características adequadas para se obter um biodiesel com qualidade, iniciei, junto com o grupo da Profa. Simoni Meneghetti (UFAL), a pesquisar possibilidades. A nossa primeira atenção se voltou para o gênero Jatropha (da família Euforbiaceas, subfamília Platilobeae), a qual possui mais de 70 espécies, a sua maioria nativas dos trópicos sul-americanos, especialmente no Brasil, porém hoje encontradas e utilizadas na maioria das regiões tropicais e subtropicais do mundo. Essa nossa escolha se deu apos uma viagem até a cidade de Souza, no sertão da Paraíba, durante a qual verificamos inúmeras espécies do gênero Jatropha crescendo de forma selvagem. Por razões de facilidade de coleta de sementes em individuos que cresciam de forma selvagem, nos restringimos a estudar duas espécies: a J. gossypiifolia (JG, conhecida por pinhao-roxo) e a J. curcas L. (JC, conhecida por pinhao-manso).

O teor médio de óleo nas sementes de JC (32 %) e JG (24 %) estudadas foi mais elevado do que os observados para soja, algodão e outras fontes tradicionais, indicando que o processo de extração de óleo dessas fontes pode apresentar viabilidade econômica. Verificamos que os óleos de JG e JC exibem uma composição convencional em ácidos graxos (ausência de grupos funcionais na cadeia carbônica; ácidos graxos com tamanho de cadeia entre C12 e C18; grau de insaturação entre 40% e 70%), comparável com vários óleos de sementes usuais. A Tabela abaixo apresenta algumas das propriedades físico-químicas do biodiesel de JC e JG, as quais são comparáveis às publicadas na literatura para os obtidos a partir de óleos como a canola e o girassol.

Estes resultados evidenciam que os biodieseis de JC e JG possuem propriedades aceitáveis para serem usados no PNPB, indicando que a exploração destas matérias-primas em regiões do semi-árido pode constituir uma alternativa econômica promissora. Porém, evidentemente são ainda necessários estudos agronômicos para se avaliar a viabilidade técnica e econômica de se cultivar essas espécies de Jatropha no semi-árido ou em outras regiões do país. Certamente se esses estudos tivessem sido feitos desde o inicio do PNPB há quase 5 anos, já teríamos uma resposta hoje. Por enquanto, resta-nos aguardar o resultado de estudos de pesquisadores como os da EPAMIG, que já há algum tempo vem se dedicando com afinco ao estudo da JC.

Tabela-Propriedades do biodiesel de Jatropha curcas L. e Jatropha gossipiipholia.

Propriedades

Jatropha gossipiipholia (JG)

Jatropha curcas L. (JC)

Densidade a 15 °C ( g/cm3)

0,8874

0,8826

Viscosidade a 40°C (cSt)

3,889

4,016

Resíduo de carbono (w/w %)

0,3666

0,0223

Ponto de fluidez ( oC)

-6

-5

Ponto de fugor ( oC)

133

117

Valor calorífico ( MJ/kg)

40,32

41,72


FONTE: Oliveira; J. S. De; Leite, P. M.; Souza, L. B. de; Mello, V. M.; Silva, E. C.; Rubim, J. C.; Meneghetti, S. M. P.; Suarez, P. A. Z.; em processo de publicação.

Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista BiodieselBR.com, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos.
E-mail: p[email protected] 
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Tags: Suarez