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Biodiesel

"O biodiesel não vai dar certo"


Istoé - 25 jul 2008 - 06:01 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:06

Engenheiro por formação e pecuarista por profissão, Pedro de Camargo Neto é um dos maiores estudiosos da questão agrícola. Ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, ele se notabilizou como crítico contumaz da política governamental para o setor. "O Brasil é soja, carne e etanol e deveria usar sua força nessas áreas para se impor nas mesas de negociação", dispara. Segundo ele, esse foi o principal erro dos representantes do País na Rodada Doha, de comércio mundial. Nessa entrevista à DINHEIRO,o presidente da Abipecs, que reúne os criadores e exportadores de carne suína, também ataca o programa de biodiesel e diz que a burocracia prejudica o desenvolvimento da suinocultura brasileira.

DINHEIRO - O sr. participou recentemente de um fórum sobre agricultura mundial, realizado na Indonésia. Como o Brasil é visto lá fora?
PEDRO DE CAMARGO NETO - Sem dúvida, o País é respeitado nessa área. E isso é um resultado claro do trabalho realizado nas últimas décadas. A soja brasileira desbancou a americana. O mesmo vale para as carnes de frango e bovina. Também no segmento suíno já somos o quarto maior exportador e existe a percepção de que poderemos assumir a liderança nos próximos 10 anos. As exportações do setor somaram US$ 1,25 bilhão em 2007 e continuam crescendo na faixa de dois dígitos.

DINHEIRO - Mas por que, então, o Brasil não consegue impor os seus pontos de vista na mesa de negociação?
CAMARGO NETO - O governo errou e continua insistindo na tese de usar essa força para negociar acordos em várias áreas ou tentar alinhamentos regionais como o de potências emergentes do Hemisfério Sul, por exemplo. Nós somos é soja, carne e etanol. E são esses os itens que deveríamos privilegiar no debate envolvendo a Rodada Doha e o comércio mundial como um todo.

DINHEIRO - Isso se deve à empáfia, megalomania ou falta de conhecimento de como as coisas acontecem no universo das negociações multilaterais?
CAMARGO NETO - Certamente não falta conhecimento aos negociadores brasileiros. Acho que eles tentaram dar um salto maior que as pernas. O sonho de impor o Brasil como potência emergente e conquistar um assento no Conselho de Segurança da ONU diluiu a nossa força.

DINHEIRO - Afinal, a Rodada Doha será positiva para o Brasil?
CAMARGO NETO - Acredito que não. Faltou empenho e o estabelecimento de prioridades claras. O que teremos é um acordo muito pequeno em relação à força agrícola do Brasil. Um país cujos empresários agrícolas falam de igual para igual com os colegas das maiores nações do planeta não poderia se contentar com um acordo light na Rodada Doha. É frustrante.

DINHEIRO - Fala-se muito que a produção de etanol pode causar fome no planeta. O sr. acha que essa argumentação tem por objetivo ferir de morte o programa energético brasileiro?
CAMARGO NETO - A alta dos preços agrícolas surpreendeu muita gente. Esse fenômeno deve-se à combinação de quebra de safras e aumento do consumo. O programa de biocombustível brasileiro foi colocado nessa polêmica de forma equivocada. O uso da cana-de-açúcar já se consagrou como uma alternativa viável e os avanços tecnológicos permitem produzir cada vez mais sem ter de ampliar a área plantada.

DINHEIRO - Mas por que, então, fomos tão atacados?
CAMARGO NETO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cometeu um erro ao atrelar o programa brasileiro aos Estados Unidos, como forma de abrir o mercado mundial de etanol. Ocorre que o projeto americano usa o milho, que tem uma eficiência energética muito inferior à da cana. Estamos apanhando por não termos vendido para o mundo as nossas vantagens comparativas. Mas o episódio serviu de lição e felizmente as autoridades brasileiras estão conseguindo reverter os prejuízos.

DINHEIRO - E qual o impacto da escassez de alimentos no caso do programa de biodiesel?
CAMARGO NETO - Acho que o impacto será pequeno pois esse projeto já nasceu morto. Usar a soja para produzir combustível equivale a cometer o mesmo equívoco dos americanos em relação ao milho. O óleo de mamona, apresentado como opção, é tão caro que ele acabará servindo de insumo para materiais nobres, como lubrificantes. O biodiesel é um programa furado.

DINHEIRO - A postura dura da União Européia, que barrou a entrada da carne bovina brasileira, pode ser encarada como perseguição?
CAMARGO NETO - Acho que nesse episódio a culpa é inteiramente nossa. Fizemos tudo errado. Faltou empenho dos pecuaristas e do governo. A União Européia nos deu inúmeras possibilidades de colocar a casa em ordem. Essas oportunidades foram menosprezadas por todos os envolvidos no setor. É uma vergonha que o maior exportador de carne bovina do mundo seja barrado na Europa porque não conseguiu cumprir a promessa de montar um sistema de monitoramento do rebanho ( o Sisbov). O Brasil aceitou as regras do jogo, se comprometeu a segui-las, mas não honrou a palavra dada. Ainda vivemos uma espécie de dualismo no qual um setor moderno no jeito de produzir assume uma postura totalmente ultrapassada.

DINHEIRO - Esse tipo de problema também acontece na suinocultura?
CAMARGO NETO - De maneira geral, nosso relacionamento com o governo é positivo. Já fizemos vários projetos conjuntos que resultaram em benefícios para o setor. Contudo, lidamos com situações inconcebíveis como a demora na liberação de papéis e formulários exigidos pelos clientes internacionais.

DINHEIRO - O sr. pode dar um exemplo?
CAMARGO NETO - No início de maio estive em Brasília para cobrar o preenchimento de um formulário pedido pelo governo das Filipinas. O documento foi entregue ao Ministério da Agricultura em outubro de 2007 e nada foi feito. Prometeram resolver até fevereiro passado e agora falam em acertar essa pendência nos próximos meses.

DINHEIRO - E como isso prejudica o segmento?
CAMARGO NETO - Filipinas é o país que mais cresce em matéria de consumo de carne suína. Estamos deixando de conquistar um mercado promissor por conta de uma bobagem. É inconcebível que o Brasil, que tem a pretensão de ser um líder global, se deixe paralisar por questões menores, que deveriam ser resolvidas de forma rotineira. Falta gestão e essa, infelizmente, não é uma característica apenas desse governo.

DINHEIRO - No cenário mundial, a Rússia é o mercado no qual os suinocultores enfrentam as maiores dificuldades. O sr. acha que o governo brasileiro deveria ser mais duro nas negociações?
CAMARGO NETO - Pode-se dizer que a Rússia é uma caso à parte. Eles são um dos maiores compradores de carne suína do mundo e impõem sua força no mercado, por meio de decisões czaristas. Eles adotam normas e tomam decisões levando em conta apenas interesses unilaterais, sem avaliar as regras internacionais. De fato, falta uma posição mais firme do Ministério da Agricultura e do próprio presidente Lula em relação à exigência de coerência técnica.

DINHEIRO - Como assim?
CAMARGO NETO - Acabei de saber que está em curso uma nova restrição que é a proibição da importação de carne congelada de frango, boi e porco para o segmento industrial russo. Trata-se claramente de uma inconsistência técnica. A carne refrigerada é cara porque exige uma tecnologia de transporte e armazenamento muito específica. Portanto, não se justifica seu uso no caso de produção de salsichas, salames e outros embutidos. Isso certamente vai encarecer os fretes e tirar a competitividade do produto importado. É uma clara medida para beneficiar os ineficientes granjeiros russos.

DINHEIRO - Os criadores de Santa Catarina continuam fora desse mercado?
CAMARGO NETO - Infelizmente. O governo russo alega questões sanitárias mas sabemos que o problema é outro. Santa Catarina responde por 25% da produção brasileira de suínos. Os catarinenses são tão eficientes que despertam medo nos suinocultores russos.

DINHEIRO - Raramente algum integrante do governo defende as bandeiras do setor de suinocultura. Falta um lobby mais eficiente ou trata-se de um segmento visto como pouco importante no desenvolvimento do País?
CAMARGO NETO - Existe uma inércia em relação ao segmento. A carne bovina domina o discurso e as atenções dos técnicos do governo. A questão do suíno não encontra eco em Brasília. E é uma pena porque dos três segmentos de carne, a suína é a única na qual o País ainda não é líder mundial. Portanto, é onde existe espaço para crescer de uma forma mais rápida e mais efetiva. O Brasil reúne as condições para liderar também nesse nicho. A Abipecs faz um trabalho permanente para chamar a atenção para o setor.

DINHEIRO - Existem contenciosos ecológicos em relação à suinocultura?
CAMARGO NETO - A criação de suínos gera um subproduto, os dejetos, que precisam ser monitorados e também tratados de forma adequada para não prejudicar o meio ambiente. Não queremos mascarar nada. O setor está enfrentando o problema por meio de soluções criativas como o uso de dejetos em biodigestores capazes de gerar gás. Esse processo custa dinheiro e, por conta disso, é preciso apoiar os pequenos granjeiros que não têm disponibilidade de caixa.

DINHEIRO - O setor está fazendo o dever de casa?
CAMARGO NETO - As grandes empresas sim. Mas temos de apoiar os milhares de pequenos empreendedores. Eles não podem ser marginalizados. É uma questão social e produtiva que tem de ser encarada. Isso seria resolvido se tivéssemos uma linha de crédito específica para quem atua de forma independente.

DINHEIRO - O Ministério do Meio Ambiente é um impeditivo para o crescimento do setor que o sr. representa?
CAMARGO NETO - Não. Todos os nossos contenciosos ambientais são antigos e existem muitos Termos de Ajustamento de Conduta, com o Ministério Público, que foram assinados e estão sendo cumpridos. A pressão agrícola e agropecuária sobre o meio ambiente tem mais relação com a região amazônica na qual a suinocultura não está presente.

Rosenildo Gomes Ferreira