Rússia suspende exportação de diesel; entenda impacto para o Brasil
O governo da Rússia suspendeu nesta quarta-feira, 8, as exportações de diesel até o dia 31 de julho, em uma tentativa de conter a escassez de combustível provocada pelos ataques da Ucrânia ao sistema energético do país. A medida pode pressionar o mercado internacional caso seja prolongada e acende um alerta no Brasil, que se tornou um dos principais compradores do combustível russo desde o início da guerra, sendo a Rússia responsável por 75% do abastecimento no país.
A restrição não se aplica às exportações realizadas no âmbito de acordos intergovernamentais e permanecerá em vigor até o fim do mês.
A decisão foi anunciada nesta quarta-feira, 8, durante uma reunião do governo com o presidente Vladimir Putin. Segundo o vice-primeiro-ministro Alexander Novak, a medida permitirá reforçar o abastecimento doméstico, que enfrenta escassez em diversas regiões. O governo russo também informou que, excepcionalmente, passará a importar derivados de petróleo enquanto durar a crise.
Diesel russo se tornou estratégico
A relação entre Brasil e Rússia no mercado de diesel ganhou força em 2022, poucos meses após o início da Guerra da Ucrânia. Na época, o então presidente Jair Bolsonaro anunciou que havia fechado um acordo com Vladimir Putin para importar diesel russo com preços inferiores aos praticados por outros fornecedores.
Bolsonaro afirmou que o combustível poderia começar a chegar ao Brasil em cerca de 60 dias e justificou a negociação lembrando que aproximadamente 30% do diesel consumido no país é importado. Segundo ele, fazia sentido adquirir o produto do fornecedor que oferecesse o menor preço.
Com as sanções impostas pelos países europeus após a invasão da Ucrânia, Moscou perdeu parte de seu principal mercado consumidor e passou a oferecer descontos para conquistar novos compradores. O Brasil foi um dos países que mais ampliaram as compras do combustível russo.
Hoje, essa dependência é significativa. Em maio deste ano, segundo reportagem da Folha de S.Paulo, 75% de todo o diesel importado pelo Brasil teve origem na Rússia.
Como as importações respondem por cerca de 30% da demanda nacional — o restante é atendido principalmente pela Petrobras —, o país tornou-se o terceiro maior comprador mundial do diesel russo, atrás apenas de China e Turquia.
Desde o início das sanções europeias até maio deste ano, cerca de 11% de todo o diesel exportado pela Rússia teve como destino o mercado brasileiro, de acordo com dados do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA).
No curto prazo, especialistas avaliam que o impacto tende a ser limitado. Como grande parte das importações brasileiras ocorre por meio de contratos de longo prazo, a suspensão até o fim de julho dificilmente afetará imediatamente o abastecimento ou os preços internos.
O cenário pode mudar caso o governo russo prorrogue o bloqueio às exportações. Uma interrupção mais longa reduziria a oferta global justamente em um momento de tensão geopolítica, o que poderia elevar os preços internacionais do diesel e, consequentemente, aumentar os custos para importadores brasileiros.
Esse risco é ampliado pela importância que o combustível russo adquiriu para o mercado brasileiro desde 2022. Caso as exportações permaneçam restritas por um período prolongado, o Brasil poderá ser obrigado a buscar fornecedores alternativos, possivelmente pagando preços mais elevados.
Ataques da Ucrânia
A suspensão das exportações ocorre após semanas de ataques ucranianos com drones e mísseis de cruzeiro contra refinarias russas. Apenas nesta quarta-feira, três unidades foram atingidas. Na véspera, a refinaria de Omsk, a maior do país, interrompeu suas operações.
A ofensiva reduziu significativamente a capacidade de processamento de petróleo da Rússia. Segundo consultorias locais que utilizam dados oficiais, a produção de derivados caiu 25% em junho, enquanto as exportações de petróleo bruto recuaram 15%.
Mesmo reconhecendo a escassez de combustível, filas em postos e racionamento em algumas regiões, Putin afirmou que o sistema energético russo permanece “sólido”.
Novak afirmou que, além de proibir temporariamente as exportações, a Rússia passará a importar derivados de petróleo, ampliará a produção de combustíveis de menor padrão ambiental e manterá incentivos para aumentar a oferta doméstica. O país também já ampliou as compras de combustíveis da aliada Belarus.
Mercado internacional reage
A restrição russa ocorre em um momento de forte pressão sobre o mercado global de combustíveis. Além da redução da oferta causada pelos ataques ucranianos, a guerra envolvendo o Irã também afetou o abastecimento internacional ao reduzir o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz.
Segundo a Bloomberg, a Rússia respondeu por cerca de 11% da oferta mundial de diesel no ano passado e é atualmente o segundo maior exportador global do combustível, atrás apenas dos Estados Unidos.
Após o anúncio da suspensão, o prêmio dos contratos futuros de diesel na Europa em relação ao petróleo bruto atingiu o maior nível da série histórica iniciada em 2011, refletindo a preocupação dos investidores com uma possível restrição prolongada da oferta.
Paloma Lazzaro – Exame


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