Negócio

Petrobras surpreende com lucro recorde de R$ 59,9 bi no 4º tri de 2020, no último balanço de Castello Branco


O Globo - 25 fev 2021 - 10:31

A Petrobras registrou lucro líquido de R$ 59,89 bilhões no quarto trimestre de 2020, informou a companhia em balanço financeiro divulgado nesta quarta-feira.

Foi um resultado recorde para a estatal num período de três meses. Em 2020 como um todo, a Petrobras registrou lucro de R$ 7,1 bilhões, contrariando a expectativa de prejuízo por parte dos analistas de mercado.

O balanço foi divulgado no início da noite desta quarta-feira, após o fechamento do mercado, em meio ao turbilhão provocado pelo anúncio abrupto da troca de comando da estatal.

É o último resultado da empresa sob a direção de Roberto Castello Branco, que será substituído em março após interferência do presidente Jair Bolsonaro. O executivo deve falar na manhã de quinta-feira com investidores em teleconferência.

Em mensagem aos acionistas, Castello Branco diz que ele e sua gestão entregaram as promessas da estratégia que adotou ao assumir a estatal em 2019.

"A produtividade está subindo, a companhia está focada em investir em ativos de classe mundial e possui uma grande carteira de ativos não prioritários à venda. Nós entregamos nossas promessas", afirmou no texto que acompanha as demonstrações financeiras.

Câmbio e exportações ajudaram resultado

O resultado anual foi influenciado, sobretudo, pela baixa contábil de R$ 65,3 bilhões no primeiro trimestre de 2020, por conta da queda no valor do petróleo devido ao início da pandemia do coronavírus.

Porém, com a alta do preço do barril, esse custo foi reduzido a menos da metade no fim do ano.

Também favoreceram a estatal a valorização do real frente ao dólar e o aumento das exportações, compensando a queda da demanda dentro do Brasil. O comunicado da estatal também cita corte de custos e do endividamento.

No quatro trimestre, o ganho recorde ocorreu por conta da valorização do preço do barril do petróleo, o que gerou uma reversão das baixas contábeis (impairment) em R$ 31 bilhões.

Nessa lista até o polêmico Comperj, projeto petroquímico que coleciona prejuízos por erros e corrupção revelados pela Operação Lava-Jato, reverteu parte das previsões de perdas, mais precisamente R$ 1,3 bilhão.

O lucro também foi impulsionado por R$ 20 bilhões em ganhos cambiais com a valorização do real frente ao dólar. Por outro lado, os investimentos caíram 70%, de US$ 27,4 bilhões para US$ 8,057 bilhões.

'Águas turbulentas'

Em tom de despedida, Castello Branco elogiou o Conselho de Administração da empresa e os funcionários no texto de apresentação do balanço:

"Meu reconhecimento ao nosso Conselho de Administração pelo importante papel e contínuo apoio à execução da estratégia nesta jornada. Nossos executivos e funcionários não mediram esforços nos piores momentos de uma recessão profunda para manter o navio em segurança em águas turbulentas."

Ele lembrou que o fluxo de caixa operacional alcançou US$ 28,9 bilhões, o maior dos últimos dez anos, mesmo comparando com o período de preços de petróleo por volta de US$ 100 por barril, mais que o dobro do preço médio do ano passado, de US$ 42 o barril.

Ajudaram nessa conta os US$ 17 bilhões arrecadados com a venda de ativos desde o início de 2019. Isso permitiu reduzir o endividamento: a dívida total passou de US$ 87,1 bilhões para US$ 75,5 bilhões no último ano.
Dividendos de R$ 10,3 bilhões

Em nota, a estatal disse que o Conselho de Administração aprovou remuneração aos acionistas sob a forma de dividendos no valor de R$ 10,3 bilhões, "equivalente a R$ 0,787446 por ação ordinária e preferencial em circulação, com base no resultado anual de 2020".

Esse valor é equivalente a 5% do capital social, aplicado tanto às ações preferenciais quanto ordinárias. Do valor a ser pago, R$ 5,7 bilhões são referentes à destinação do resultado do exercício de 2020 e R$ 4,6 bilhões são oriundos da conta de reserva de retenção de lucros, explicou a empresa.

A Petrobras informou que "o dividendo proposto, superior ao mínimo obrigatório, foi possibilitado pela forte geração de caixa alcançada pela companhia em 2020 e está alinhado ao compromisso de geração de valor para os acionistas", disse a estatal.

Redução de custos

Entre a redução de custos, Castello Branco destacou a venda de navios antigos por parte da Transpetro e 550 imóveis. Lembrou ainda que mais de 11 mil funcionários da Petrobras e suas subsidiárias se inscreveram em vários programas de desligamento voluntário, dos quais 6.100 deixaram a empresa em 2019 e 2020 e 5 mil sairão a partir de 2021.

Vários prédios administrativos foram fechados, totalizando 14 de 23 ocupados no início de 2019. O home office também ajudou.

"A racionalização de espaços para reduzir custos vem sendo facilitada pela redução do número de funcionários e pela adoção de um regime híbrido de teletrabalho", disse a empresa.

Custos de viagens caíram US$ 40 milhões em comparação com 2019. Grande parte dessa redução será permanente no mundo pós-Covid, afirmou a empresa.

Antes da divulgação, a média das opiniões dos analistas previa um lucro da petrolífera de R$ 4,8 bilhões nos últimos três meses de 2020, com receita de R$ 73,9 bilhões.

No mercado, a expectativa era de que os números da empresa refletissem a retomada da economia no final do ano passado, embora efeitos da pandemia ainda devam estar refletidos no balanço. No ano, a estimativa era de um prejuízo superior a R$ 40 bilhões.

Esclarecimento sobre ter "muita coisa errada"

Nesta quarta-feira, houve outra reunião do conselho de administração da Petrobras. Um dos temas que ganhou força no encontro virtual foi a composição de um eventual novo conselho para a estatal.

A aposta dos integrantes é que a União proponha a recondução de oito dos 11 membros. Com a saída de Roberto Castello Branco, conforme decidido ontem, os outros sete membros que foram eleitos de forma conjunta, pelo sistema de voto múltiplo no ano passado, também saem.

“Seria péssimo mudar o Conselho. O governo deve reconduzir todos. Essa é a indicação”, disse essa fonte que não quis se identificar.

Dos onze membros, estão garantidos apenas Rodrigo de Mesquita e Marcelo Mesquita de Siqueira Filho, ambos indicados por minoritários, e Rosangela Buzanelli Torres, representante dos funcionários.

A fonte também lembrou que os conselheiros pediram que a diretoria de Relações com Investidores da estatal peça esclarecimentos sobre ter "muita coisa errada” na empresa, segundo declarações públicas do presidente Jair Bolsonaro.

A iniciativa é normal para empresas listadas na Bolsa, segundo a fonte, que destacou o caso envolvendo a Eletrobrás nos últimos dias.

Os analistas do banco Thiago Duarte, Pedro Soares, Daniel Guardiola e Ricardo Cavalieri rebaixaram o rating das ações da empresa para neutro após o presidente Jair Bolsonaro anunciar, na última sexta-feira, que irá trocar Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna no comando da companhia.

Pilares abalados

Os analistas avaliam que não têm mais confiança que os pilares que vinham criando valor para a empresa estejam garantidos: aumento da produção sustentada pelo pré-sal, desalavancagem com venda de ativos e redução do risco político.

"Com os acontecimentos dos últimos dias culminando na decisão do acionista controlador de solicitar a substituição do presidente, não temos mais a confiança de que esses pilares permanecerão", escreveram em relatório a clientes.

O banco BTG trabalha com um cenário-base em que as mudanças com a nova equipe de gestão não serão muito dramáticas, embora veja uma situação delicada caso os preços domésticos de combustível precisem continuar subindo para acompanhar a alta do petróleo no mercado internacional.

Para o economista Alexandre Espírito Santo, a forma como aconteceu o anúncio da troca de comando não é boa, e causou mal-estar entre os investidores estrangeiros. Mas nos últimos dias, o mercado exagerou, já que a empresa perdeu quase R$ 100 bilhões de valor em dois dias.

“Não houve nenhuma plataforma à pique. É uma perda de valor muito grande para uma empresa que não mudou da noite para o dia. Foi uma reação exagerada a uma troca de comando”, diz.

O economista da Órama avalia que as perspectivas são boas para a Petrobras. No balanço, diz ele, será preciso observar como está o endividamento da empresa, que vinha caindo. Ele acredita que com o avanço da vacinação, a economia começa a retomar.