Conflitos mantêm petróleo como arma e testam aposta em energia limpa
A guerra lançada por EUA e Israel contra o Irã chegou a elevar o preço do petróleo para perto de US$ 120 por barril no início da semana, em meio ao bloqueio do Estreito de Ormuz - e a tensão, hoje, segue alta, com Teerã usando a obstrução da passagem para responder aos ataques. Pouco antes, Washington também havia bloqueado a exportação de petróleo venezuelano para Cuba após assumir o controle da comercialização da commodity com a captura do presidente Nicolás Maduro.
Para especialistas, os fatos recentes reforçam como o petróleo continua profundamente ligado a conflitos internacionais - não apenas como instrumento de pressão econômica, mas também como um motivador de crises -, demonstrando a fragilidade dos esforços para acelerar a transição para fontes de energia mais limpas.
Entre 1974 e 2013, estima-se que entre 25% e 50% das guerras tiveram algum tipo de ligação com interesses relacionados ao petróleo, segundo o pesquisador Jeff Colgan, professor de ciência política da Universidade Brown e diretor do Climate Solutions Lab. Desde então, ele avalia que essa proporção aumentou. Apenas no último ano, entre 2025 e 2026, cinco dos sete países alvo de ações militares dos EUA sob o governo Donald Trump eram produtores importantes de petróleo.
“Petróleo e guerra frequentemente caminham juntos, segundo minhas pesquisas”, afirma Colgan. “Há uma ideia recorrente de que o petróleo contribui para tornar certos alvos mais atraentes do que outros.”
Diferentemente de crises anteriores - como a de 1973, desencadeada pelo embargo dos países árabes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) contra países que apoiaram Israel na Guerra do Yom Kippur -, o mundo avançou na adoção de fontes renováveis de energia nas últimas décadas. Nos últimos cinco anos, cerca de dois terços dos investimentos energéticos globais passaram a ser destinados a alternativas limpas, como a energia solar, que cresce em ritmo acelerado.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), aproximadamente US$ 2,2 trilhões estão sendo direcionados globalmente para energias renováveis, nuclear, redes elétricas, armazenamento, combustíveis de baixa emissão, eficiência energética e eletrificação - o dobro dos cerca de US$ 1,1 trilhão ainda destinados a petróleo, gás natural e carvão.
Apesar desse avanço, o mundo permanece fortemente dependente de um fornecimento estável de petróleo. O consumo global continua próximo de 100 milhões de barris por dia, o que ajuda a explicar a forte reação dos mercados diante do conflito com o Irã e dos ataques a embarcações no Estreito de Ormuz.
Para Catherine Wolfram, que atuou como subsecretária adjunta para economia climática e energética no Departamento do Tesouro durante o governo de Joe Biden, o fato de o petróleo voltar ao centro das crises geopolíticas não chega a surpreender. Na avaliação dela, o mundo ainda está cedo demais no processo de transição energética para estar protegido de choques de preços dos combustíveis fósseis.
“Eu diria que estamos no início da transição energética, mas ainda somos muito dependentes de combustíveis fósseis, como petróleo e gás natural”, diz Wolfram. ”Acho que precisamos de mais políticas públicas. É uma área em que precisamos de uma liderança política forte.”
Especialistas ressaltam que os efeitos da crise atual sobre a transição energética permanecem incertos. Por um lado, ela pode tornar alternativas renováveis mais atraentes para países fortemente dependentes dessas compras externas.
“Apenas um tolo negaria que, enquanto os preços do petróleo e do gás natural estão disparando agora, o sol e o vento continuam sendo gratuito, como sempre", diz Colgan. “Portanto, a energia renovável tem vantagens importantes do ponto de vista da segurança nacional.”
Por outro lado, a resposta de alguns grandes consumidores pode seguir na direção oposta, baseada no imediatismo, com o reforço de políticas voltadas à segurança do abastecimento de petróleo. A China, maior importadora mundial da commodity - com cerca de 70% do consumo doméstico dependente de importações -, anunciou ontem que pretende expandir suas reservas de petróleo em meio às preocupações de abastecimento com a guerra no Irã.
“A narrativa que mais me preocupa é a de que essa situação reduza a determinação dos líderes”, diz Wolfram. “Mesmo antes da questão do Irã, já víamos líderes europeus um pouco vacilantes em relação ao compromisso com o ETS, o sistema de precificação de carbono. Em parte, porque os eleitores ficam irritados com os altos preços da energia e acabam procurando culpados. E uma das coisas nas quais se coloca a culpa é justamente a política climática.”
Além disso, um cenário internacional mais fragmentado pode dificultar o acesso às tecnologias necessárias para a transição energética. Um relatório de 2023 do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou que interrupções no comércio de minerais críticos poderiam reduzir em até 30% os investimentos em energias renováveis e veículos elétricos.
Para países exportadores de petróleo, por sua vez, preços mais altos da commodity podem incentivar novos investimentos na expansão da produção, o que também tende a prolongar a relevância do petróleo no sistema energético global. “Eventualmente podemos esperar que o consumo de petróleo diminua como fator de instabilidade na economia global, mas esse dia ainda está muito distante”, completa Colman”.