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Negócio

Choque em Ormuz amplia distorções e quebra referência global do petróleo


Valor Econômico - 13 abr 2026 - 10:25

Com o Estreito de Ormuz ainda amplamente fechado e as ameaças de bloqueio dos Estados Unidos, os mercados de petróleo — e de commodities, no geral — já começam a sofrer uma fragmentação. E esse processo tende a se intensificar enquanto o choque de oferta derivado da guerra no Irã continuar.

O alerta é feito, em particular, pelos economistas Paul Bloxham e Jamie Culling, do HSBC, ao notarem que, em momentos como o atual, a fragmentação dos mercados de commodities passa a ser relevante. “Quanto mais tempo o bloqueio [a Ormuz] persistir, mais disruptivo o choque de oferta tende a ser”, enfatizam.

Como exemplo, eles notam um spread incomum no petróleo tipo Brent entre o preço para entrega imediata e o preço do primeiro contrato futuro, com vencimento em junho. “O benchmark padrão do Brent (em torno de US$ 102 por barril neste momento) reflete o primeiro contrato futuro disponível, geralmente com entrega em 6 a 8 semanas. Já o preço do Brent para entrega imediata (de 10 dias a um mês, no Mar do Norte) está em torno de US$ 126 por barril.”

Na prática, o spread entre os dois petróleos tipo Brent está “muito maior que o habitual”, o que levou o “dated Brent” a atingir um novo recorde, observam os profissionais do HSBC.

Eles notam, ainda, que há uma fragmentação também nos spreads entre os benchmarks de petróleo e os preços de derivados refinados, como querosene de aviação, diesel e bunker oil, que são conhecidos como “crack spreads”. “Em alguns casos, esses spreads continuaram a se abrir nas últimas semanas.”

As diferenças regionais nos preços das commodities são outro sinal de fragmentação — algo que já havia sido notado pelo Intraday, diante de preços acima de US$ 150 no petróleo negociado no Omã e em Dubai ainda em março.

Agora, o HSBC observa que, no mercado de gás natural, os benchmarks da Ásia e da Europa dispararam diante dos riscos relacionados ao conflito, enquanto o preço doméstico nos Estados Unidos chegou a cair, diante da oferta no país estar relativamente isolada dos efeitos da guerra. “Da mesma forma, os preços de benchmarks de petróleo no Oriente Médio têm apresentado volatilidade significativamente maior do que os benchmarks Brent ou WTI.”

O aumento do risco de escassez também é um sinal de desorganização e fragmentação dos mercados, principalmente na Ásia, onde medidas têm sido amplamente adotadas para priorizar o uso de combustíveis, incluindo controle de preços e subsídios, restrições à exportação de alguns combustíveis e medidas de conservação e racionamento, como limites diários para compras no varejo e trabalho remoto.

“Uma implicação central de todo esse quadro é que o impacto do choque provocado pelo conflito no Oriente Médio e pelo fechamento do Estreito de Ormuz será bastante heterogêneo entre as economias, já que cada uma depende de diferentes commodities — e a disponibilidade e o preço desses insumos variam entre mercados. Nesse contexto de fragmentação dos mercados de commodities, os detalhes passam a importar ainda mais, à medida que a ‘lei do preço único’ perde relevância, ainda mais do que já costuma perder em momentos de estresse”, enfatizam os profissionais do HSBC.

Victor Rezende – Valor Econômico