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Selo Combustível Social

Os desafios do selo social no Norte e Nordeste - Ronaldo Perez [AgriBio]


BiodieselBR.com - 24 jul 2012 - 16:04 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
Ronaldo Perez
O professor da Universidade Federal de Viçosa, Ronaldo Perez, explorou os desafios envolvidos no fortalecimento da agricultura familiar nas regiões mais pobres do Brasil durante a palestra “O desenvolvimento da agricultura familiar no Norte e Nordeste” no Congresso AgriBio.

Segundo ele, apesar do programa de biodiesel ter vários pontos que merecem elogios, a construção dessa cadeia produtiva tem sido árdua e ainda está longe de ser um processo terminado. Ele ressalta, por exemplo, que a produção nunca decolou de verdade no Norte e no Nordeste onde as usinas têm produção relativamente pequena e há fábricas paradas. Em parte, isso é um reflexo da incapacidade de criar alternativas efetivas ao domínio da soja dentro do PNPB. Assim, as usinas distantes das principais regiões produtoras acabam sendo menos competitivas porque, por falta de alternativa melhor, precisam lastrear sua produção na soja. “Havia uma expectativa de que a produção de mamona iria decolar no Nordeste, mas as compras nunca chegaram a ser efetivadas”, reclamou.

Mesmo assim, Perez disse que a aposta na mamona não chegou a ser um fracasso tão retumbante quanto seus críticos querem fazer parecer. Embora o óleo da planta nunca tenha virado biodiesel, a presença da indústria foi o bastante para interromper a trajetória de queda nos preços pagos pela mamona colhida pelos agricultores familiares nordestinos. O estímulo à planta falhou muito mais por dificuldades em levar tecnologia para os agricultores do que por falta de um pacote tecnológico adequado para produção dessa oleaginosa.

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Norte X Sul

Contudo, o palestrante alerta para os perigos de ver a agricultura familiar brasileira como um contínuo que pode ser tratada por um modelo tamanho único. Ele ressalta a enorme disparidade de recursos entre o Sul, com suas cooperativas bem estruturadas e ativas, e as carências agudas no Norte e no Nordeste. “No Sul, a Embrapa tem uma equipe de 50 pessoas só para trabalhar com soja. Tem equipes estruturadas para a transferência tecnológica e um volume grande de recursos. A mamona não tem nada disso”, reclamou.  

Nada disso, entretanto, significa identidade entre Norte e Nordeste. “São regiões muito diferentes. O Norte é uma área de abertura recente, enquanto no Nordeste é tradicional”, avalia Perez.

Para o palestrante, a falta de consistência dos projetos, somados à metas excessivamente ambiciosas estabelecidas pelo MDA, formam a base das dificuldades que a indústria tem tido para se instalar no Nordeste. “As empresas têm dificuldade porque falta volume de produção, especialmente com o selo exigindo 30% ou 50% de matéria-prima da agricultura familiar”, comentou. Para ele as metas deveriam ter começado mais baixas e subido conforme a produção fosse ganhando escala. Ainda assim, ele protesta contra o abandono puro e simples dos projetos. “Claro que tem coisas que dão errado e precisam ser abandonadas. Mas, como o objetivo é estimular, precisamos nos focar no que está dando certo e seguir em frente depurando”, defendeu.

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Oleaginosas energéticas?

Perez questionou se o caminho escolhido pelo governo de estimular a produção de oleaginosas energéticas é mesmo o melhor caminho a ser seguido. “Serão que não valeria mais a pena investir em fruticultura, por exemplo? Os agricultores inseridos no programa têm tido ganhos? Se têm, então é fantástico e devemos seguir em frente. Mas essa é uma discussão que precisa ser feita”, comentou o pesquisador.

Ele informou que o pacote tecnológico apresentando para a mamona ainda é deficiente justamente por falta de pesquisas com a genética da planta.

Palma de óleo
No que diz respeito ao Norte, o palestrante avalia que o pacote tecnológico disponível para a palma é muito bom, mas que é preciso reforçar a necessidade avançar com calma e consorciar a produção de alimentos e óleo durante os primeiros anos. Dessa maneira os agricultores terão condições de se manter durante os anos antes da lavoura começar a render seus primeiros frutos. Mesmo assim, o pesquisador avalia como bons os projetos de palma baseados na agricultura familiar porque não alteram radicalmente os arranjos sociais preexistentes, mantendo os trabalhadores na mesma área que eles vêm cultivando a vida toda. Os projetos de palma na região Norte contam ainda com a boa receptividade do óleo de palma no mercado internacional, tornando a dinâmica dos projetos relativamente independentes do vigor da indústria do biodiesel – os projetos do Nordeste não contaram com essa vantagem.

Cooperativas
Nessas duas regiões também faz falta um sistema cooperativista tão forte quanto em outras regiões mais bem estabelecidas. Segundo ele, não faltam boas razões e iniciativas voltadas ao fortalecimento das cooperativas nessas duas regiões. O problema central é o quanto as cooperativas conseguiram cumprir sua meta central de produzir benefícios para a agricultura familiar. “Se a cooperativa não tem o que oferecer aos agricultores, ela não tem razão de existir”, diz.

O importante é que, em função da rentabilidade da atividade, o agricultor é quem vai decidir o que vai produzir, e isso está diretamente relacionado com um pacote tecnológico e sistema de comercialização adequados. Dessa forma, Perez considera prematuro culpar somente as empresas ou o governo se o PNPB não conseguir incluir produtivamente as 200 mil famílias que havia prometido em seu lançamento. “Para reverter essa situação precisamos organizar as atividades, o que estamos fazendo é ficar na mesmice”, finalizou.

Fábio Rodrigues - BiodieselBR.com
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