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Opiniões

[Artigo] Guerra, petróleo volátil e o caminho da soberania da matriz energética brasileira


BiodieselBR.com - 03 mar 2026 - 13:17

O Brasil vive um momento decisivo na construção da sua soberania energética. E a realidade internacional, mais uma vez, deixa isso evidente. Quando a geopolítica sobe de tom, o preço do petróleo reage rápido e quem depende de importação paga a conta, com impacto direto em inflação, logística e competitividade.

Em março de 2026, os contratos do Brent avançaram 7,5% e chegaram a US$ 78,33, em meio à escalada de tensões no Oriente Médio e ao risco de interrupção no Estreito de Ormuz, por onde escoa uma fatia relevante do petróleo global. Analistas não descartam o barril a US$ 120 em um cenário de guerra ampliada, ainda que haja expectativa de acomodação perto de US$ 80 caso a oferta aumente. Essa volatilidade reforça o ponto central: o Brasil não pode ficar refém de choques externos.

É nesse contexto que a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, ganha peso estratégico. O marco legal organizou metas e programas para ampliar o uso de etanol, biodiesel, diesel verde, biometano e SAF, com um objetivo claro: reduzir dependências, fortalecer cadeias produtivas nacionais e dar previsibilidade para investimentos em soluções que já estão disponíveis.

Dentro desse desenho, a evolução da mistura obrigatória de biodiesel no diesel é um dos pilares. O país já opera em B15 e a lei estabelece uma trajetória de aumento gradual. O ponto sensível, agora, é que a passagem para o B16, que estava previsto para entrar em vigor agora em 01 de março, mas ainda depende de confirmação e de deliberação baseada em critérios de viabilidade técnica. Em outras palavras, o B16 está no horizonte regulatório, mas a definição precisa ser formalizada. E é justamente essa sinalização que o setor aguarda para manter previsibilidade, planejamento industrial e segurança jurídica.

Cada avanço percentual na mistura não é detalhe técnico. Ele significa menos diesel importado, mais valor gerado no Brasil e mais estabilidade para o agro e a indústria. Para dimensionar: um incremento de 1 ponto percentual representa, na ordem de grandeza, centenas de milhões de litros a mais por ano no mercado. Isso se traduz em emprego, renda, arrecadação, demanda por matérias-primas e redução proporcional da exposição do país ao petróleo internacional.

Os indicadores agrícolas também reforçam a viabilidade do caminho. Estimativas da Conab apontam uma safra de grãos 2025/26 em torno de 353 milhões de toneladas, mantendo a perspectiva de recorde, com soja e milho sustentando a base de oferta. Esse cenário fortalece a capacidade do país de expandir biocombustíveis com robustez produtiva e encadeamento econômico.

O Ministério de Minas e Energia não deve ser lido como antagonista desse avanço quando levanta condicionantes técnicas. Ao contrário: o desafio é transformar rigor técnico em governança que dá confiança. O que o Brasil precisa, agora, é de coordenação eficiente, transparência dos critérios e decisão no tempo certo. Sem isso, a cadeia perde previsibilidade, investimentos travam e a economia continua mais exposta do que deveria a ciclos de crise.

Em síntese, o B16 pode ser um marco, mas, neste momento, ele precisa ser tratado com a clareza que o setor e o país exigem: há expectativa e prontidão industrial, mas é necessária confirmação formal do cronograma. Em tempos de guerra e petróleo volátil, dar esse sinal é mais do que cumprir uma meta. É fortalecer soberania, proteger a economia e acelerar um caminho em que o Brasil já tem vantagem competitiva.

Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial e vice-presidente de Relações Associativas e Institucionais da Ubrabio