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Embora as exportações brasileiras de biodiesel nunca tenham decolado como se imaginava no começo do PNPB, as vendas de glicerina permitem que o setor finque sua bandeira fora do país
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Embora as exportações brasileiras de biodiesel nunca tenham decolado como se imaginava no começo do PNPB, as vendas de glicerina permitem que o setor finque sua bandeira fora do país
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Embora as exportações brasileiras de biodiesel nunca tenham decolado como se imaginava no começo do PNPB, as vendas de glicerina permitem que o setor finque sua bandeira fora do país
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Embora as exportações brasileiras de biodiesel nunca tenham decolado como se imaginava no começo do PNPB, as vendas de glicerina permitem que o setor finque sua bandeira fora do país
Fábio Rodrigues, de São Paulo
Há cerca de nove anos, Carla Vilas Boas Romero achou que já era hora de dedicar mais tempo à família do que ao interminável vai e vem das commodities químicas. Por isso ela fundou a Lumina Trading, empresa que se tornou um dos nomes fortes no então nascente mercado global da glicerina. É sobre o momento de turbulência pelo qual o principal coproduto do biodiesel vem passando que BiodieselBR conversou com a executiva.
BiodieselBR – Qual é a história da Lumina Trading?
Carla Vilas Boas – A empresa tem nove anos e foi fundada por mim. Eu trabalho no segmento de produtos químicos desde que me formei. Primeiro trabalhei no segmento farmacêutico, até que em 1993 comecei a trabalhar com comércio exterior numa empresa do setor petroquímico. Eles tinham um volume bastante significativo de exportação para o mundo inteiro e essa sempre foi uma área com a qual eu me identifiquei bastante. Depois eu trabalhei mais alguns anos em tradings. Mas esses eram trabalhos que exigiam muita dedicação. Sobrava pouco tempo para minha família. Foi para tentar melhorar essa equação e conseguir mais qualidade de vida que eu decidi começar a empresa.
BiodieselBR – E vocês trabalham com glicerina desde o começo?
Carla Vilas Boas – Na verdade o nosso foco era em químicos de uma forma mais geral. Começamos a trabalhar mais com glicerina entre o final de 2006 e o começo de 2007 porque tivemos uma oportunidade de fazer a exportação de um lote glicerina em parceria com um cliente nosso, uma empresa europeia que já estava exportando glicerina para a China.
BiodieselBR – Hoje qual a importância da glicerina para vocês?
Carla Vilas Boas – É o nosso maior volume. Contando glicerina bruta e refinada, dá cerca de metade de tudo o que exportamos. Já em termos de valores o percentual não é tão grande porque atuamos com produtos que têm valor agregado bem mais elevado.
BiodieselBR – Há algum tempo as usinas de biodiesel praticamente esnobavam a glicerina. Essa mentalidade mudou?
Carla Vilas Boas – Com certeza. Esse é um relacionamento que mudou bastante e isso já vem evoluindo há algum tempo. Acho que a grande mudança começou em 2010. Primeiro porque foi quando o mercado começou a se recuperar dos impactos da crise financeira norte-americana de 2008, que havia derrubado os preços para patamares muito baixos. Ao mesmo tempo, as margens do biodiesel estavam começando a ficar mais realistas. Acho que esse foi o verdadeiro ponto de virada da glicerina aqui no país, porque, como as margens do biodiesel no começo do PNPB eram muito altas, a verdade é que as usinas não precisavam se importar com a glicerina. Elas tratavam como um subproduto.
BiodieselBR – Hoje qual a relevância da glicerina dentro do faturamento de uma usina?
Carla Vilas Boas – Eu não saberia dizer exatamente, mas se compararmos os preços do biodiesel versus os da glicerina, dá para dizer que a contribuição é alta. Já em termos de margens a coisa está um pouco pior, porque atualmente a glicerina tem deixado pouca margem. Mas, olhando para o futuro, dá para afirmar que é um produto com contribuição nada desprezível para o setor.
BiodieselBR – Qual a importância de ter uma glicerina de boa qualidade?
Carla Vilas Boas – Com o amadurecimento do mercado, tem havido uma exigência maior dos compradores em termos da qualidade da glicerina. Os próprios chineses têm ficado mais exigentes. É até uma coisa cíclica. Sempre que o mercado internacional tem um excesso de oferta os compradores ficam mais exigentes em relação à qualidade do produto. No começo, a única coisa que importava mesmo era o teor de glicerol do produto. Hoje, os compradores já têm feito exigências maiores em termos de outros aspectos como o MONG e o teor de cinzas. Isso tem crescido.
BiodieselBR – É um investimento que compensa para as usinas?
Carla Vilas Boas – Ainda temos alguns produtores que não conseguem fazer uma glicerina com 80% de glicerol, que é o que popularmente chama-se de glicerina loira. Esse é um produto que não tem valor praticamente nenhum, o que esses produtores conseguem de retorno por seu produto no mercado internacional é praticamente desprezível. Então, fazer o ajuste para produzir glicerina a 80% é um investimento que realmente vale a pena para as usinas. Mesmo que na realidade de hoje os preços não estejam tão favoráveis, ao longo do tempo é algo que se paga.
BiodieselBR – Mas e a glicerina refinada?
Carla Vilas Boas – É que estamos num momento complicado. A verdade é que o país acabou de pular de uma capacidade de refino que era de, no máximo, 40 mil toneladas ao ano para algo acima das 130 mil toneladas/ano. Foi um salto muito grande e muito rápido, então eu não vejo tanta oportunidade de novos investimentos, porque correríamos o risco de desvalorizar o produto refinado. Hoje eu não estimularia mais ninguém a investir em refino, embora isso possa mudar daqui a mais alguns anos. BiodieselBR – Enquanto outros países, como a Argentina, têm glicerina 100% vegetal, no Brasil o produto é misto de sebo. Isso afeta nossas perspectivas de mercado? Carla Vilas Boas – De uma forma geral existe um prêmio ao produto 100% vegetal. Dependendo do momento,esse valor extra pode ficar entre US$ 5 e US$ 20 por tonelada. Acontece que, hoje, o produto brasileiro já é amplamente conhecido pelo mercado consumidor, e a glicerina de sebo não enfrenta mais uma resistência tão grande quanto no começo. Há alguns anos, realmente tínhamos que passar por vários processos de aprovação do produto antes de conseguir vender.
BiodieselBR – Mas existe mesmo alguma diferença relevante?
Carla Vilas Boas – Eu não tenho formação química, então não posso entrar nas minúcias. O que sei é que é muito muito difícil você diferenciar quimicamente o que é uma glicerina 100% vegetal e outra mista com sebo. Se tem uma diferença importante é na cor do produto, que acaba atrapalhando o uso de glicerina de sebo ou mista em aplicações mais exigentes em termos de aparência do produto final, como na indústria de cosméticos ou farmacêutica. Fora isso, não existe diferença nenhuma em termos de aplicações. Contudo, alguns clientes, especialmente algumas grandes multinacionais, fazem questão de um produto 100% vegetal.
BiodieselBR – Qual está sendo o impacto dos aumentos de mistura aqui no Brasil no mercado global?
Carla Vilas Boas – O problema é que o aumento da mistura no Brasil veio junto com outros fatores que estão fazendo com que a disponibilidade de glicerina aumente de forma generalizada. Um deles é a Argentina, que vinha com uma produção de biodiesel mais fraca em função das disputas de mercado com a União Europeia. Só que, desde julho, temos notado uma presença muito maior da Argentina no mercado. Também temos a Indonésia, que está muito mais agressiva e com volumes muito mais significativos em função de seu próprio aumento da mistura de biodiesel. A somatória de todos esses fatores fez com que houvesse um excesso na oferta.
BiodieselBR – O mercado teria capacidade de absorver essa nova oferta?
Carla Vilas Boas – A glicerina é um produto muito versátil, com aplicações no setor industrial. O mercado de cosméticos e farmacêuticos tem tido um crescimento de dois dígitos ao ano por mais de uma década e é um mercado que deve continuar crescendo. Fora isso, há muitos estudos de novas aplicações para a glicerina. No fundo, é uma questão de preço. Se o preço do produto for atrativo, ela passa a disputar mercados com outros insumos. Por isso é tão difícil determinar qual o tamanho exato do mercado de glicerina em qualquer país. Uma coisa importante é que o consumo não está em baixa. A economia da China pode até não estar em seu melhor momento, mas eles estão importando este ano praticamente o mesmo volume que importaram no ano passado. Então o problema não é de falta de demanda, mas de excesso de oferta.
BiodieselBR – É uma questão de onde o preço vai encontrar seu ponto de equilíbrio?
Carla Vilas Boas – Isso, mas não podemos esquecer que, por mais utilidades que a glicerina tenha, o mercado não consegue dobrar de um dia para o outro. BiodieselBR – Há alguma nova aplicação surgindo por aí com potencial para se tornar uma grande consumidora? Carla Vilas Boas – Uma aplicação que temos visto crescer bastante nos últimos anos é no mercado de anticongelante. É algo que não tem muita aplicação aqui no Brasil, mas na Europa e na América do Norte a glicerina tem sido cada vez mais utilizada com esse fim, por estar com um preço mais atraente. Sempre ouvimos falar de projetos desse tipo, inclusive aqui no Brasil, mas não tem nada com escala significativa no curto para o médio prazos.
BiodieselBR – O Brasil está bem colocado para disputar o mercado?
Carla Vilas Boas – As usinas de biodiesel da Ásia têm uma vantagem importante em relação a nós para colocar seu produto na China. Enquanto uma carga saída do Brasil leva de cinco a seis semanas num navio para chegar na China, a deles chega em pouquíssimo tempo. Isso dá para eles uma margem de manobra muito maior do que a nossa. Como o preço da glicerina tem estado muito volátil e com uma tendência clara de queda, ficamos em desvantagem porque no tempo em que a carga leva para chegar lá os preços podem já ter caído. Comercialmente, a China é um tanto difícil e agressiva, propensa a quebras de contratos, e esse tempo todo de trânsito deixa a glicerina do Brasil e da Argentina muito mais susceptível ao problema porque, digamos que a gente feche hoje uma venda a US$ 300 a tonelada, e daqui a dois meses o produto esteja valendo US$ 100 a menos, o comprador vai tentar arrumar qualquer brecha de contrato que ele puder para nos dar um default.
BiodieselBR – E o que o Brasil poderia fazer para melhorar sua posição no mercado?
Carla Vilas Boas – Existe um problema crônico no Brasil que é a falta de tancagem para glicerina. Nenhum produtor de biodiesel tem tancagem suficiente, o que leva os produtores a terem pressa de colocar seu produto no mercado. Eles não podem esperar e pagar para vercaso os preços no mercado internacional não estejam bons. Isso causa um efeito psicológico, com os fabricantes ficando meio desesperados. Você também tem uma certa “multiplicação dos números”. Como os produtores ofertam seu produto sempre por dois ou três canais de vendas diferentes, a percepção é que temos mais glicerina no mercado do que de fato existe. Isso faz com que os produtores não tenham uma visão tão clara de para onde o mercado está indo.
BiodieselBR – Há tentativas para abrir novos mercados para o produto brasileiro?
Carla Vilas Boas – Existem algumas possibilidades, mas a logística é complicada. O problema é que a glicerina é um produto de valor agregado relativamente baixo, e por isso o frete tem um impacto muito grande no custo final do produto. Por isso temos essa dificuldade em viabilizar outros mercados.
BiodieselBR – Mesmo para países mais próximos como os Estados Unidos?
Carla Vilas Boas – O problema não é a distância. O que torna a logística para a China muito mais barata é que a quantidade de navios vindo da China para cá é muito grande e, como esses navios não querem fazer a viagem de volta vazios, o custo do frente fica muito atrativo. Pagamos um valor baixíssimo em comparação com o que conseguimos para qualquer outro destino.
BiodieselBR – Recentemente percebemos uma mudança importante nas exportações brasileiras, com um crescimento grande no volume de produto refinado. Essa é uma mudança de perfil ou há algo mais acontecendo?
Carla Vilas Boas – É uma mudança natural. Entraram essas 90 mil toneladas por ano de capacidade de refino e, é claro, não estamos produzindo isso tudo logo de cara. Eu até acho que os produtores estavam contando que conseguiriam colocar boa parte desse volume no mercado interno, mas os números não estão fechando. Por enquanto, exportar glicerina refinada é uma necessidade para os fabricantes porque não temos mercado interno para absorver esse volume todo. Então, vamos ver a exportação de produto refinado crescer mais.
BiodieselBR – O Brasil continua sendo importador líquido de glicerina refinada?
Carla Vilas Boas – Até novembro do ano passado o Brasil importava, de forma mais ou menos consistente, 17 mil toneladas por mês de glicerina refinada. Grande parte desse volume já foi substituído por produto nacional. Claro que ainda tem alguma importação, até porque ainda temos contratos a cumprir e parte desse volume vem da Argentina, que por ser nossa parceira no Mercosul tem facilidade para colocar seu produto aqui, mas é uma questão de tempo até que praticamente todo o produto importado seja substituído.
BiodieselBR – E os players tradicionais que estavam no mercado de glicerina antes das usinas de biodiesel chegarem?
Carla Vilas Boas – Na maioria dos casos, a glicerina é um subproduto de outro processo industrial. Não tem mais ninguém que tenha uma planta exclusivamente destinada à produção de glicerina. Além das usinas de biodiesel temos a Oxiteno e a indústria de sabões que geram glicerina e que têm um volume significativo. Eu não vejo esses players saindo do mercado, especialmente quem produz glicerina e consegue usar internamente. O problema são as empresas menores que vinham comprando a glicerina loira das usinas de biodiesel para refinar. Nesse caso, a tendência é esse pessoal sair do mercado, porque não acho que eles consigam competir agora que a Granol e a Olfar instalaram grandes refinarias de glicerina.
BiodieselBR – O que poderíamos aprender aqui no Brasil com o modelo argentino de exportação de glicerina?
Carla Vilas Boas – Eles tiveram uma visão para a glicerina que nos faltou. Os produtores brasileiros não tinham esse conhecimento de mercado tão detalhado, nem do mercado interno nem do mercado internacional. Se você pegar os grandes grupos produtores de biodiesel argentinos, desde o começo eles focaram seus investimentos para o refino de glicerina. Demoramos para fazer isso. No Brasil, todo mundo foi se adequando no meio do caminho.
BiodieselBR – Como você vê o mercado de exportação de glicerina brasileira nos próximos anos?
Carla Vilas Boas – É muito difícil falarmos num cenário. O preço da glicerina loira não está muito distante do seu ponto de break-even e os compradores chineses sabem até onde dá para ir e agem de acordo. Em outros momentos como esse, os fabricantes simplesmente desaceleraram as vendas e isso acabou segurando os preços e as coisas se ajustaram depois de alguns meses. Não posso afirmar com segurança que vai ser assim, porque estou falando isso só com base em minha experiência. O mercado de glicerina tem apenas sete ou oito anos de existência, não temos um histórico longo que nos permita analisar as tendências com precisão. De qualquer forma, eu acho muito difícil que tenhamos um derretimento completo nas cotações porque se tornou um produto importante, com demanda constante na China por parte das plantas que fabricam epicloridrina.