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Crônica de uma morte anunciada: o óleo de mamona como matéria-prima para produção de biodiesel

coluna paulo - Cópia

A edição nº 42 da revista BiodieselBR, Ago/Set 2014, apareceu com uma provocante lápide anunciando “o enterro da mamona”. A reportagem de capa intitulada “O fim do sonho”, páginas 30 a 33, inicia com um recente discurso da presidente Dilma onde ela declara que “difícil foi quando ficou visível que não dava pra fazer biodiesel de mamona”. 

Edição de Dez / Jan 2014 4 min de leitura

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A edição nº 42 da revista BiodieselBR, Ago/Set 2014, apareceu com uma provocante lápide anunciando “o enterro da mamona”. A reportagem de capa intitulada “O fim do sonho”, páginas 30 a 33, inicia com um recente discurso da presidente Dilma onde ela declara que “difícil foi quando ficou visível que não dava pra fazer biodiesel de mamona”. Na sequência, a reportagem traz um fidedigno relato de como o governo federal, principalmente na figura do então presidente Lula, apostou durante dez anos na mamona, anunciada como o futuro da indústria do biodiesel e um importante mecanismo para gerar desenvolvimento e renda para o castigado Semiárido nordestino. Mas seria a constatação da presidente Dilma, em maio passado, realmente uma surpresa para o governo ou para os técnicos que atuam no setor?

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A edição nº 42 da revista BiodieselBR, Ago/Set 2014, apareceu com uma provocante lápide anunciando “o enterro da mamona”. A reportagem de capa intitulada “O fim do sonho”, páginas 30 a 33, inicia com um recente discurso da presidente Dilma onde ela declara que “difícil foi quando ficou visível que não dava pra fazer biodiesel de mamona”. Na sequência, a reportagem traz um fidedigno relato de como o governo federal, principalmente na figura do então presidente Lula, apostou durante dez anos na mamona, anunciada como o futuro da indústria do biodiesel e um importante mecanismo para gerar desenvolvimento e renda para o castigado Semiárido nordestino. Mas seria a constatação da presidente Dilma, em maio passado, realmente uma surpresa para o governo ou para os técnicos que atuam no setor?

Certamente, quem acompanhou as inúmeras discussões realizadas na Esplanada dos Ministérios durante os anos de 2003 e 2004, quando se estava gestando o PNPB, ou nos inúmeros eventos que aconteceram pelo país para discutir o biodiesel, poderá lembrar pelo menos de um ou mais pesquisadores alertando para um futuro nada promissor de se tentar utilizar o óleo de mamona para produzir biodiesel.

Lembro claramente de uma reunião no auditório do Ministério das Minas e Energia, coordenado pela então secretária de Petróleo e Gás, sra. Graça Foster, onde eu tentei alertar para a não adequação técnica dos ésteres metílicos ou etílicos de ácidos graxos derivados do óleo de mamona para uso como biodiesel. Tentei apresentar dados técnicos, mostrando que os principais parâmetros físico-químicos desses ésteres, como a viscosidade e a densidade, estavam muito acima dos valores especificados para o diesel, o que iria certamente inviabilizar o seu uso em blendas. Tentei, mas a então secretária cortou a minha palavra alegando que eu estava apenas me atendo a questões técnicas, enquanto que o governo Lula estava preocupado em resolver os problemas sociais do país.

Nessa reunião não consegui terminar a minha exposição, pois pretendia ainda falar de diversos problemas técnicos relacionados com a produção desses ésteres, o que encareceria em muito o processo quando comparado com outras matérias-primas, como o sebo ou a soja, além do custo do óleo ser muito mais elevado. Não consegui apresentar todos esses dados na reunião coordenada por Graça Foster, mas não deixei de mostrá-los em todos os eventos para os quais fui convidado durante esses primeiros anos de gestação do PNPB, inclusive no 1º Congresso de Mamona, realizado em Campina Grande (PB) em 2004, onde fora convidado para uma mesa-redonda.

Fora os eventos nos quais participei, sempre fiz questão de registrar nas minhas publicações esses fatos, inclusive na minha segunda coluna publicada no portal BiodieselBR em 2006. Certamente eu não era a única voz a levantar essa questão, e poderia aqui listar diversos pesquisadores que de alguma forma faziam coro com essa preocupação, principalmente em publicações científicas.

Acredito que o incentivo à mamona foi consequência de uma tentativa governamental de resolver problemas sociais crônicos brasileiros, principalmente nas regiões do Semiárido. No entanto, penso que colocar as dimensões social e política à frente do conhecimento científico disponível na nossa comunidade só poderia ter levado a aposta na mamona aonde levou. De fato, conforme dados históricos de produção e uso de biodiesel dessa oleaginosa, podemos muito bem simbolizar a participação da mamona no PNPB com uma lápide, como aparece no nº 42 de BiodieselBR. Finalmente, é importante salientar que o governo sabia, sim, do alto risco dessa aposta.

* Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.

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