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Em sua edição 2014, a Conferência BiodieselBR permitiu que o mercado levantasse alguns tapetes que haviam permanecido quietos tempo demais
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Em sua edição 2014, a Conferência BiodieselBR permitiu que o mercado levantasse alguns tapetes que haviam permanecido quietos tempo demais
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Em sua edição 2014, a Conferência BiodieselBR permitiu que o mercado levantasse alguns tapetes que haviam permanecido quietos tempo demais
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Em sua edição 2014, a Conferência BiodieselBR permitiu que o mercado levantasse alguns tapetes que haviam permanecido quietos tempo demais
Cátia Franco, de São Paulo
“Eu achei que foi bom o que aconteceu”, surpreendeu o diretor executivo de BiodieselBR, Miguel Angelo Vedana, na palestra de abertura da Conferência BiodieselBR 2014. Ele se referia ao revés sofrido no Leilão 39, que pela primeira vez na história do PNPB deixou o mercado à beira de uma crise de desabastecimento. “O setor vivia sob a sensação de que tinha poucos problemas, mas sob esse manto de normalidade há vários problemas. Com a baixa oferta, esse manto foi retirado”, explicou.
Nos dois dias que se seguiram, mais de 200 participantes desta edição – que teve representada 92% da capacidade produtiva efetiva do setor – tiveram a chance de revirar vícios – e também virtudes – que permaneceram tempo demais longe das vistas. O retrato que emerge desse exercício é o de um setor que pode superar as dificuldades e se tornar ainda mais relevante.
Para os leitores que não tiveram a chance de ir até São Paulo, a BiodieselBR preparou um resumo dos principais temas debatidos durante o encontro deste ano.
A noção de que o problema central do biodiesel brasileiro está no excesso de capacidade instalada das usinas tem sido tão exaustivamente martelada que fincou raízes na identidade do setor. A desconstrução dessa “verdade” talvez seja o aspecto mais desconcertante em torno da oferta acanhada das usinas no 39º Leilão de Biodiesel, bem num momento em que a demanda estava para se tornar 40% maior – justamente em resposta aos insistentes pedidos dos fabricantes. O risco de que tenhamos um apagão na oferta de biodiesel causou uma verdadeira reviravolta nos debates da Conferência BiodieselBR 2014.
Para quem antecipava um evento onde a tônica seria a troca de tapinhas nas costas entre governo e fabricantes, a mudança em tão poucos dias foi notável. Havia grande ansiedade em relação a como o governo estaria digerindo o resultado do L39, especialmente em relação à fala de Ricardo Dornelles, diretor do Departamento de Energias Renováveis do Ministério de Minas e Energia (MME) – o homem de frente do Planalto quando o assunto é biodiesel.
E pelo tom que ele usou, deu para sentir que algo ficou atravessado na garganta de Brasília. Dornelles constatou uma redução significativa nas ofertas do L39 e nos anteriores. “Nós tivemos uma oferta de 702 milhões e uma compra efetiva de 701 milhões. Sobraram 800 m³”, constatou sobre o L39, questionando se “alguém poderia dizer que isso foi uma oferta suficiente num leilão?”. O diretor do MME foi enfático quanto às aspirações do governo por uma performance consistente do setor produtivo nos leilões. “O mercado de energia é um mercado constante. A figura do vagalume, do vai-e-volta, é tudo que não se quer no mercado de energia”, frisou.
Também baseado na comparação entre o volume disponibilizado pelas usinas no L39 e em certames anteriores, o coordenador suplente da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel (Ceib), José Honório Accarini, questionou o nível de capacidade da indústria. Segundo Accarini, se considerarmos apenas a oferta efetiva das usinas nos dois últimos leilões (L38 e L39), a capacidade ociosa do segmento – já com o aumento dademanda provocado pela vigência do B7 – fica em apenas 13%. O coordenador da Ceib desabafou dizendo-se “um tanto frustrado com esse início do B7”.
Já os representantes do setor produtivo fizeram o possível para caracterizar o impasse da oferta como uma nuvem passageira que não afetará a viabilidade do programa. Segundo o economista Leonardo Zilio, representante da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) – principal representante do setor de processamento de oleaginosas no país –, não há o que temer.
No evento, Zilio apresentou a primeira projeção da entidade para o processamento de soja em 2015. A estimativa é que no próximo ano sejam processadas 38,3 milhões de toneladas da oleaginosa no país, o que deve colocar no mercado interno 7,4 milhões toneladas de óleo. “Dessa forma, nós salientamos que existe disponibilidade [de óleo] para o mercado compulsório de B7”, garantiu.
Mas os resultados da baixa oferta não ficam restritos ao embate entre governo e usinas. Para a Petrobras, que atua como intermediária no processo de comercialização do biodiesel, os desdobramentos do L39 ainda ressoam.
Isso porque a atuação da estatal não termina com o último dia do certame. Ela é responsável também pelo estoque regulador – o que costuma ser feito justamente com os saldos não vendidos durante os leilões. A falta de biodiesel obrigou a estatal a se desdobrar. “Ainda estamos resolvendo o problema do estoque regulador”, revelou Sandro Barreto, gerente de comercialização de biodiesel da Petrobras.
Nos últimos anos, a aplicação do sebo na produção de biodiesel tem se intensificado, a ponto de hoje competir com a indústria de higiene e limpeza pelo posto de maior mercado para esse coproduto do setor frigorífico: por ora, o placar está em 31,7% contra 35%, respectivamente. O levantamento é da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra).
O coordenador da Abra, Lucas Cypriano, prevê uma participação ainda mais relevante das gorduras de origem animal no setor de biodiesel. “A gordura animal está se estabelecendo como um player no mercado e outras gorduras animais já estão aparecendo nas estatísticas de forma mais visível”, comentou.
Apesar de também ter constatado o avanço da participação do sebo no mix de matérias-primas, Accarini, da Ceib, foi mais contido. “Como a oferta de sebo bovino não caminha na mesma direção do biodiesel, é de se esperar que o óleo de soja volte a um patamar mais forte de participação”, expôs.
Outro fator que corrobora para esse entendimento é a perspectiva de safras abundantes de soja nos maiores produtores da oleaginosa. A projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos é de uma safra mundial em 2014/2015 de 311 milhões de toneladas.
Para o setor de processamento, tão importante quanto a disponibilidade de matéria-prima é a previsibilidade, destacou Leonardo Zilio, assessor econômico da Abiove. “A previsibilidade a longo prazo de aumentos compulsórios da mistura ou de medidas de incentivo ao uso do biodiesel pautará parte dos investimentos em processamento”, observou.
Outra matéria-prima que ganhou um bom cartaz nesta edição da Conferência BiodieselBR foi o óleo de palma. Mas por razões contrárias, já que, segundo o diretor comercial e de sustentabilidade da Agropalma, Marcello Brito, as chances de o Brasil produzir biodiesel à base de óleo de palma são diminutas. Isso porque o custo de produção de óleo de palma no Brasil ainda é muito elevado.
De acordo com Brito, considerando- se o custo médio para se produzir uma tonelada de óleo de palma no Brasil – de US$ 715 – e mais uma margem de 15%, o litro do biocombustível fabricado a partir desse óleo sairia por R$ 2,298. Bem acima dos preços médios negociados nos últimos leilões.
O que o setor quer mesmo é um novo marco regulatório, mas teve que se contentar com os aumentos pontuais da mistura – B6 em julho e B7 em novembro. Sem o novo marco, os fabricantes têm reforçado seus pleitos na direção de novos mercados autorizativos. Foi isso que a União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) trouxeram para o debate.
Uma das propostas é o B20 Metropolitano, que prevê a adição obrigatória de 20% de biodiesel ao diesel usado pelas empresas de transporte coletivo em todas as cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes. “Pelas nossas primeiras estimativas, essa proposta incluiria no mercado algo em torno de 215 milhões de litros de biodiesel por ano”, informou Zilio, da Abiove.
A entidade também é idealizadora do BX Opcional, que incentiva a livre utilização de percentuais acima da mistura obrigatória [B7] até o teto de 10%. Caberia às distribuidoras a decisão de aumentar a mistura, que dependeria de disponibilidade técnica, econômica e logística.
Outras possibilidades de mercados facultativos visando a um maior incentivo ao consumo de biodiesel foram apresentadas por Marcos Merlin Boff, vice-presidente técnico da Ubrabio e diretor da Oleoplan.
A entidade que ele representou no evento possui duas propostas com esse viés: o B+, que permitiria às distribuidoras dobrarem a mistura de biodiesel em estados onde isso se revelasse financeiramente interessante, e o B Agro, que autorizaria o uso do B30 em máquinas e implementos agrícolas.
Pelos cálculos da Ubrabio, o aproveitamento desses dois nichos de mercado implicaria uma demanda adicional de aproximadamente 1,5 bilhão de litros.
Ao longo dos últimos anos, a glicerina se tornou commodity global e uma fonte de renda complementar fundamental para as usinas de biodiesel. Mas com a produção crescente em diversos países importantes, um cenário de sobreoferta está se montando. “Em 2015, a gente ainda não sabe se [a glicerina] vai continuar sendo um cisne ou voltar a ser patinho feio”, expôs Moisés Garcia da Rocha, diretor executivo da Prisma Brazil.
Segundo ele, os preços da glicerina bruta deverão seguir abaixo dos US$ 300 por tonelada ainda durante vários meses. Nesse sentido, é importante a mudança no perfil das exportações da indústria brasileira, que está refinando uma parte maior do coproduto, especialmente depois que mais usinas começaram a investir em refinarias. “Esse é um dado relevante porque, até 2012, não tínhamos players de biodiesel envolvidos na produção de glicerina refinada”.
A mudança também foi detectada por Osvaldo Bullara, gerente da GEA Westfalia, que estima que os embarques brasileiros de glicerina refinada cheguem a 29 mil toneladas este ano – quase 11 vezes mais que o exportado em 2013.
Bullara destacou ainda que as projeções apontam para o crescimento dos segmentos que consomem glicerina refinada de alta qualidade. “A tendência é que, num futuro próximo, uma refinaria produza cada vez mais a glicerina com 99,5% de glicerol”.
Outro mercado do qual a indústria de biodiesel é dependente e que vem passando por solavancos é o de metilato de sódio.
O gerente de marketing de químicos industriais da Basf, Pedro Blanco, revelou que a empresa precisou rever suas projeções de produção em função do efeito das tarifas antidumping impostas pela União Europeia sobre as exportações de biodiesel argentino. A nova perspectiva da Basf para a América do Sul é de uma produção de biodiesel de 10,7 bilhões de litros em 2020 – cerca de 1,4 bilhões de litros a menos que o previsto inicialmente.
Ainda segundo Blanco, o que tem ajudado a compensar a perda de consumo na Argentina é o bom desempenho do setor no Brasil.
As mudanças na especificação do biodiesel promovidas pela Resolução ANP 45/2014 – em especial, teor de água – foram de abordagem obrigatória para os palestrantes do painel “Qualidade do Biodiesel e sua Especificação”.
Segundo Jackson Albuquerque, coordenador de regulação de produtos da ANP, a flexibilização no teor de água do biodiesel, que criou uma margem de tolerância de 50 ppm para os fabricantes e de 150 ppm para os distribuidores, foi pautada num estudo de campo conduzido pela agência. O monitoramento mostrou que, embora o biodiesel absorva água do ar durante o transporte, a quantidade não é tão elevada quanto se poderia supor. “A gente verificou que o problema mais sério está no armazenamento”, sustentou Jackson.
A Petrobras sentiu na pele essa complicação. “Chegamos a ter 112 milhões de litros de biodiesel. O que a gente trouxe de experiência dessa época é que muitos problemas de qualidade se dão pelo tempo de armazenamento”, contou Carlos Pelizaro, gerente de movimentação de biocombustíveis da Petrobras, acrescentando que a saída encontrada pela estatal foi mudar o formato dos estoques reguladores: em vez de físicos, eles tomaram a forma de contratos de opção de compra.
O diretor industrial da Binatural, Luís Carlos da Costa, também repercutiu as dificuldades de se manter o biodiesel dentro da especificação. Ele mencionou que a empresa fez investimentos para atender à exigência das 200 ppm de água no biocombustível. “No caso da SPBio [usina do grupo localizada no interior paulista], tivemos que fazer aquisição de novos equipamentos”, informou, acrescentando que para tanto foram investidos R$ 500 mil.
Costa observou também que o desafio de ajustamento ao novo teto para o teor de água se estendia para além das etapas de produção e armazenamento. “Produzíamos [biodiesel] seco, fazíamos todo o controle de armazenamento e aí tinha o problema de carregar o biodiesel”, expôs.
Pelizaro, da Petrobras, apontou outras sutilezas que precisam ser mais bem equacionadas no que concerne ao controle de qualidade do biodiesel. Ressaltou, por exemplo, que faz diferença a localização dos pontos em que são coletadas as amostras usadas para elaborar os certificados de qualidade.
Segundo o gerente, entre o tanque do fabricante e o caminhão das transportadoras acontece um transbordo que, dependendo de como for feito, pode contribuir para o aumento do teor de água do biodiesel. Além disso, o fato deos caminhões-tanque não serem dedicados exclusivamente ao transporte de biodiesel foi outro ponto levantado por Pelizaro. “O transporte por caminhão é que gera essa fragilidade do processo. Quando você entra com um produto num duto, sabe a qualidade que você vai tirar na frente”, expôs, ressaltando a importância de boas práticas para a mitigação do risco de contaminação do biodiesel.
A despeito das dúvidas a respeito do espaço que o biodiesel terá no mercado europeu num futuro próximo – a União Europeia vem discutindo a criação de um teto para o uso de biocombustíveis de primeira geração –, a Europa continua sendo o maior mercado do mundo. Mas, para ter acesso a ele, os fabricantes precisam ter boas credenciais – ou, nesse caso, uma certificação atestando a sustentabilidade de seu produto.
Isso significa comprovar o atendimento de alguns requisitos atrelados à Diretiva de Energias Renováveis (RED). Há a necessidade, por exemplo, de o produtor comprovar que seu biodiesel reduz em no mínimo 35% as emissões de gases de efeito estufa na comparação com o combustível fóssil substituído. E essa exigência deve subir até 60% a partir de 2018. “Isso quer dizer que os biocombustíveis que os europeus vão usar serão em função da redução de GEEs”, pontuou Manfred Wefers, gerente comercial da Argos.
Fábio Beltrame, gerente operacional da Control Union – empresa que, entre outros serviços, emite certificações internacionais –, diz que o maior desafio está em certificar a matéria-prima no campo. “A certificação da planta de biodiesel não é tão complicada”, afirmou, atentando para a importância de se ter toda a cadeia certificada. “Se um dos elos não estiver certificado, automaticamente a certificação é cancelada.”
Outra informação importante está no fato de as regras do mercado europeu abrirem uma brecha em potencial para a expor-tação de biodiesel de sebo. Como alguns tipos de sebo se qualificam como resíduos, o produto pode ser beneficiado pela dupla contagem e, dessa forma, ficar mais competitivo no mercado europeu.
Também considerado bastante atraente, o mercado norte- americano, ao contrário da Europa, exige para a comercialização de biocombustível em seu território uma “verificação”.
Entretanto, atualmente existe um clima de instabilidade jurídica no país, especialmente depois que o incentivo tributário de US$ 1 por galão de biodiesel produzido foi suspenso no final de 2013.
Nesta edição da Conferência BiodieselBR, André Machado, coordenador de biocombustíveis do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), adiantou algumas das mudanças nas regras do Selo Combustível Social, que andavam sendo cozidas em fogo lento e devem ser anunciadas num futuro próximo. “Tivemos várias discussões com as usinas ao longo deste ano, mas a gente tem que conciliar isso tecnicamente e são vários os interesses envolvidos”, disse, anunciando “uma nova portaria na virada do ano”.
Uma das medidas em estudo pelo MDA é criar um tipo de prêmio para as usinas que se dispuserem a investir mais em suas próprias regiões. “Premiar quem promove arranjos [produtivos] nos seus estados seria mais efetivo do que forçar a regionalização”, acredita.
O objetivo da medida é tentar reduzir um pouco da concentração das aquisições das usinas na região Sul, ocasionada pela falta de oferta de matéria-prima da agricultura familiar nas demais regiões.
O MDA também intenciona reduzir o percentual mínimo de compras da agricultura familiar no Sudeste e Nordeste, por conta dessas regiões terem muita dificuldade em originar matéria-prima.
Alvo de muitas queixas, a burocracia que permeia o relacionamento entre usinas e agricultores deve ser minimizada pela nova portaria. Estuda-se, por exemplo, uma forma de garantir a anuência nos contratos entre as empresas e os agricultores familiares.
O ministério planeja também delimitar melhor o que se pode ou não em termos de assistência técnica e extensão rural (Ater). “Precisa de um ajuste da quantidade mínima de visitas e de visitas coletivas e também dividir melhor a bola com as entidades oficiais de Ater dos estados”, considera Machado.
Há a possibilidade de que a Agência Nacional de Ater (Anater) ganhe um papel mais participativo no processo. “Pode passar a ser obrigatório que a assistência técnica para a agricultura familiar do biodiesel seja credenciada pela Anater”, exemplificou.