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A atuação da estatal como intermediária do biodiesel custa 1% do valor total do biocombustível. Apesar de reclamações quanto ao prazo de pagamento, a maioria aprova a forma como a empresa atua no setor
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A atuação da estatal como intermediária do biodiesel custa 1% do valor total do biocombustível. Apesar de reclamações quanto ao prazo de pagamento, a maioria aprova a forma como a empresa atua no setor
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A atuação da estatal como intermediária do biodiesel custa 1% do valor total do biocombustível. Apesar de reclamações quanto ao prazo de pagamento, a maioria aprova a forma como a empresa atua no setor
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A atuação da estatal como intermediária do biodiesel custa 1% do valor total do biocombustível. Apesar de reclamações quanto ao prazo de pagamento, a maioria aprova a forma como a empresa atua no setor
Vinicius Boreki, de Curitiba
Em um desenho simples do negócio do setor de biodiesel, os compradores finais do biocombustível seriam as distribuidoras, enquanto as usinas seriam as vendedoras. Acontece que, na prática, esse processo conta com um ator extra bem no meio do caminho: a Petrobras. Ela atua como intermediária do negócio – de certa forma, seu papel lembra o de um operador de bolsa de valores – e isso tem um custo por operação realizada, que inevitavelmente acaba chegando ao preço final do biodiesel.
Embora o setor tenha se acostumado à presença da Petrobras no negócio e até veja com bons olhos sua contribuição para a transparência e segurança da cadeia, a relação não acontece sem fricção. Um dos pontos que causa divergência é a demora para que os pagamentos caiam na conta das usinas. Independentemente do tamanho da usina, cada empresa da cadeia produtiva do biodiesel deve se preparar para que os recebimentos ocorram 30 dias após a negociação. O prazo não é incomum no mundo corporativo, mas desagrada alguns participantes do setor.
A Granol, por exemplo, vendeu quase 83,6 milhões de litros no Leilão 39, a um preço médio de R$ 2.124,40 por m³. Desses, 43,2 milhões de litros terão que ser entregues no mês de novembro (de acordo com a regra prevista no edital do L39), o que significa que a usina tem R$ 91,7 milhões a receber que só vão cair na conta em dezembro. Nesse meio tempo, tem que pagar as contas com caixa próprio. Ou seja, a garantia ofertada pela Petrobras tem um custo que precisa ser adequadamente planejado pelas usinas.
Procurada pela reportagem de BiodieselBR, a Petrobras informou, via assessoria de imprensa, que não comenta “dados sobre acordos comerciais com outras empresas”. Contudo, durante sua participação na Conferência Internacional BiodieselBR 2014, o gerente de comércio de biodiesel da companhia, Sandro Barreto, abordou o assunto abertamente. “O prazo padrão da Petrobras para pagamentos a todos os fornecedores é de 30 dias. Isso funciona dessa forma desde o início dos leilões. A alteração do prazo de pagamento pode interferir diretamente no custo para operar a compra do biocombustível”, afirmou em sua palestra.
De acordo com Barreto, o papel da Petrobras é criar um ambiente propício para que as negociações sejam feitas de forma segura e transparente – especialmente em um mercado que existe mais por determinação governamental do que pela pura racionalidade econômica. “Nosso papel como intermediário faz com que a empresa trabalhe com uma margem. Sempre defendemos que seria necessário cobrir os custos para que nosso serviço seja prestado e também gere rentabilidade aos acionistas [da Petrobras]. Isso garante a continuidade de nossa atuação e a manutenção da qualidade, além de dar subsídios para defender a continuidade do biodiesel internamente na Petrobras”, ressalta.
O professor de economia Gilmar Lourenço, do Centro Universitário FAE, de Curitiba, avalia que o prazo de 30 dias para pagamentos é normal. “É muito difícil que as operações, especialmente na área industrial, aconteçam à vista ou em um período menor. Isso se tornou ainda mais comum desde que o Brasil conseguiu controlar a inflação, que segue em patamar relativamente baixo e controlado. Nas décadas de 1980 e início da de 1990, os prazos de pagamento eram menores por esse motivo”, explica.
Embora o prazo de recebimento seja usual, Barreto não fecha as portas para uma possibilidade de redução. “É possível avaliar internamente a diminuição nos prazos. De qualquer forma, não seria uma mudança drástica, saindo de 30 dias para uma semana, por exemplo. Além disso, diminuir o prazo significa impactar na margem da companhia”, esclarece. Atualmente, o custo da intermediação da Petrobras é de aproximadamente 1% do valor total do biodiesel comercializado no país. No Leilão 39, o valor cobrado pelos serviços prestados na forma da “margem da adquirente” ficou em R$ 20 por m³.
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Se deveria ser um problema para as usinas, oficialmente o prazo de pagamento não foi motivo de reclamação por parte das empresas e entidades representativas do setor consultadas pela reportagem de BiodieselBR. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) não se pronunciou sobre o assunto, assim como a BSBios e a Granol, maior vendedora de biodiesel do país. De maneira geral, a percepção é de que o assunto não chega a ser um problema, mas, ao mesmo tempo, o setor seria beneficiado se os prazos para pagamento fossem reduzidos.
As empresas que comentaram o assunto não chamaram os prazos de problema e optaram por uma opinião favorável à participação da Petrobras no setor. É o caso da Bio Óleo. Na opinião do presidente da companhia, Rodrigo Prosdócimo Guerra, a participação da Petrobras pode ser considerada positiva, pois a intermediação garante os recebimentos e o controle das entregas. “Nossos pagamentos são feitos dentro do prazo de 30 dias. Não há problema em relação a isso, até porque já conhecemos as regras dos leilões, mas se fossem antecipados, logicamente, seria melhor financeiramente”, explica.
Guerra, aliás, tem avaliação bastante positiva em relação à intermediação da estatal. “É um controle muito importante para o sistema produtivo como um todo. Sem a atuação da companhia poderia gerar uma guerra de prazos, o que prejudicaria a cadeia como um todo chegando até os consumidores”, analisa. “Nós conseguimos administrar nosso fluxo conforme os recebimentos e os encaixamos com os pagamentos, sem mistério”, ressalta.
A Camera, uma das empresas que abandonou o setor de biodiesel recentemente (entrou em processo de recuperação judicial em setembro e está estudando se desfazer das usinas de biodiesel), avalia queos prazos da Petrobras podem ser considerados “adequados”. “Mesmo não tendo participado dos últimos leilões, o processo de pagamento da Petrobras nos parece adequado”, diz o diretor-superintendente da empresa, Roberto Kist. “O fluxo do biodiesel, para nós, é considerado como fator positivo de gestão financeira, pois apresenta regularidade, cadência com a produção e expedição de biodiesel e um prazo adequado”, acrescenta. A opinião de Kist é especialmente reforçada se for levada em conta a gestão de caixa de outras áreas de atuação da Camera, como o mercado de agronegócio, no qual a companhia fomenta o plantio e pode sofrer com dificuldades devido a possíveis atrasos, seja no plantio, na colheita ou devido às condições climáticas.
O modo de atuação da Petrobras – prazos de pagamento, margem de lucro, entre outras características – não foge da atuação de outras empresas estatais no país, de acordo com o professor Lourenço, da FAE. “Todas as empresas estatais ou que têm serviços transferidos do estado para a rede privada usam esse tipo de procedimento”, esclarece. O momento da principal empresa do país, contudo, não é dos mais fáceis. Entre janeiro e setembro deste ano, a companhia somou R$ 2,7 bilhões em perdas devido à defasagem do preço do diesel e da gasolina, conforme o Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE) – apesar do aumento recente dos combustíveis, no terceiro trimestre de 2014 o diesel estava com descompasso de 7,6%, enquanto a gasolina de 13,5%.
Embora o biodiesel esteja longe de ser o responsável por essa sangria, todas as verbas recebidas permanecem por 30 dias em caixa, seja para pagar outras atividades ou dar cobertura a outros negócios. “Por esse motivo, é natural que a empresa diga que, se tiver que transferir esses recursos em um prazo menor, vai buscar outros meios de recuperar a sua margem de ganho”, explica Lourenço. “Sem dúvida que esses recursos não ficam parados em posse da companhia, pois são passados para outros investimentos”, diz.
Atenção com o fluxo de caixa é uma das principais dicas do professor Gilmar Lourenço para as usinas. Na definição do Sebrae, esse instrumento de gestão financeira permite projetar entradas e saídas para períodos futuros, facilitando conhecer o saldo da companhia no tempo planejado. Nas orientações do órgão, é fundamental que as companhias tenham pleno conhecimento antecipado das movimentações financeiras em um período de pelo menos quatro a seis meses. “Na definição de suas estratégias, as empresas precisam saber de onde virão os recursos, se serão próprios ou se há necessidade de recorrer a verbas externas”, explica Lourenço, da FAE. Com leilões bimestrais, uma projeção de seis meses no setor de biodiesel é ainda muito difícil.
Outra opção muito comum – e ofertada por diversas instituições financeiras – é a antecipação de recebíveis, que consiste em transformar vendas a prazo, parceladas ou outros tipos de negócio em capital para saldar as contas atuais. Na prática, é antecipar dinheiro que está para entrar num futuro próximo.
Um dos maiores cuidados que devem ser tomados pelos empresários é com os juros. Os juros reais – diferença entre a taxa cobrada em um contrato de financiamento após descontada a inflação do período da operação – no Brasil estão no topo de uma lista de 40 países pesquisados (as economias mais relevantes do globo) pela consultoria Moneyou. Divulgado em outubro, o levantamento avalia a expectativa de inflação futura para os próximos 12 meses. A taxa real de juros no Brasil é de 3,98%, atrás apenas da China (4,33%), e na frente de Indonésia (2,84%), Hungria (2,61%) e Polônia (2,31%).
No final das contas, esperar 30 dias pode não ser assim tão mau negócio.