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Do pioneirismo à liderança

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Envolvido com o biodiesel desde antes do início do PNPB, Juan Diego Ferrés aponta o futuro do setor
Edição de Out / Nov 2014 12 min de leitura
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Envolvido com o biodiesel desde antes do início do PNPB, Juan Diego Ferrés aponta o futuro do setor

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Envolvido com o biodiesel desde antes do início do PNPB, Juan Diego Ferrés aponta o futuro do setor

Miguel Angelo Vedana, de Curitiba

Pergunte a quantas pessoas quiser o nome de uma das lideranças do setor de biodiesel e você irá ouvir várias vezes o nome de Juan Diego Ferrés. Envolvido com o tema biodiesel desde os anos 90, Ferrés vinha se colocando à frente do mercado de biodiesel muito antes do programa começar. É uma pessoa que dispensa apresentação dentro do setor. Nessa entrevista ele fala pela primeira vez sobre o racha na Ubrabio, do relacionamento com as outras instituições, o problema do mercado de soja brasileiro e ainda aponta quais são os caminhos que o setor irá seguir.

BiodieselBR – Você é um dos pioneiros do biodiesel no Brasil, tendo se tornado defensor do biocombustível muito antes do governo federal sequer pensar num PNPB. Como se envolveu com a questão?
Juan Diego Ferrés – No final da década de 90, estudamos a experiência europeia em focar a produção de biodiesel como uma forma de minimizar os prejuízos resultantes dos excedentes de óleos vegetais, particularmente de óleo de colza. À época, eles pagavam aos agricultores para estes deixarem de produzir em áreas agricultáveis, preocupados com os efeitos negativos da queda dos preços provocada pelos estoques acumulados. Estabelecemos contatos, através da comissão do biodiesel da Abiove, que eu presidia na época, com cooperativas que produziam o biodiesel em vários países europeus bem como com fabricantes de equipamentos industriais e desenvolvedores de novas tecnologias de produção. Nos últimos anos do governo FHC já colaborávamos na formação de uma rede, sob coordenação do Ministério da Ciência e Tecnologia, que discutia a possibilidade da formatação de um programa brasileiro de biodiesel junto com representantes do governo e da ANP. Mas foi com a chegada do Lula à Presidência, em 2003, que o PNPB tomou forma sob a coordenação da presidente Dilma, à época ministra das Minas e Energia.

BiodieselBR – Como aconteceu a implantação do projeto de biodiesel da Granol, ainda no começo do PNPB?
Juan Diego Ferrés – Adquirimos a nossa primeira instalação em 2005. Foi pioneira no Brasil, fabricada sob licença da Ballestra pela Dedini para ser instalada em Anápolis (GO). Como essa usina levaria 14 meses para ficar pronta para o início do funcionamento, fomos obrigados a arrendar uma instalação de oleoquímica, existente em Campinas (SP), que se encontrava semiparalisada e reunia condições de produzir o metil- -éster. Assim, conseguimos participar do primeiro leilão de compra de biodiesel no qual vendemos 18 mil m³ para o segundo semestre de 2006, cujas primeiras entregas ocorreram em agosto. Ainda no período de B2 facultativo. Quatro meses depois, em novembro, começou a funcionar a unidade de Anápolis e iniciamos a comercialização de biodiesel produzido em instalações próprias.

BiodieselBR – E as outras fábricas de biodiesel?
Juan Diego Ferrés – Em setembro daquele mesmo ano [2006] contratamos uma segunda planta para ser instalada em Cachoeira do Sul (RS). Ela iniciou seu funcionamento em 2008. Nossa terceira instalação foi adquirida pronta no município de Porto Nacional (TO), em setembro de 2012, onde hoje estamos construindo uma planta de esmagamento de soja.

BiodieselBR – A Granol se tornou um gigante que supera a marca do US$ 1 bilhão em vendas. Qual é a importância do negócio biodiesel para esse resultado?
Juan Diego Ferrés – A Granol tornou- -se um exemplo prático que vem sendo seguido pelo Brasil devido ao sucesso comprovado em integrar as atividades de originação de matérias-primas com o esmagamento de soja e verticalização, industrializando os produtos e subprodutos. A integração transversal permite a destinação dos produtos para diferentes finalidades, como exportações ou vendas às cadeias de carnes no mercado interno, no caso do farelo. Quanto aos produtos resultantes da industrialização do óleo, complementamos entre as alternativas de produzir alimentícios ou biocombustíveis, otimizando uma matriz de gestão de margens considerando as logísticas e os preços relativos em cada época. Dessa forma conseguimos ser mais competitivos, obtemos ganhos de escala e melhoramos a rentabilização.

BiodieselBR – Como você vê a situação do mercado de óleo de soja brasileiro?
Juan Diego Ferrés – Desde a aprovação da Lei Kandir, em 1996, o setor esmagador teve suas margens comprimidas pela concorrência desleal dos países concorrentes produtores de soja, como a Argentina, e dos blocos consumidores, como a China, que privilegiaram a aquisição da matéria-prima em detrimento dos produtos industrializados. O governo sempre teve dificuldades em definir políticas compensatórias que defendessem a agregação de valor nas cadeias de industrialização do complexo soja.

BiodieselBR – E o setor de esmagamento não se mobilizou contra isso?
Juan Diego Ferrés – A Abiove representa, preponderantemente, as empresas do agronegócio global. Para elas não faz grande diferença agregar valor mediante a sua industrialização no país ou exportar o grão para fábricas no exterior que, muitas vezes, pertencem aos mesmos grupos industriais. É por isso que a Abiove assistiu laconicamente ao crescimento das exportações de grão in natura pelos últimos 20 anos enquanto o setor esmagador ficou estagnado. OPNPB e a Ubrabio vieram a partir de 2006 para mudar esse quadro, e a Granol é o maior e talvez seja o melhor exemplo desse sucesso que inexoravelmente será seguido por todo o setor. O PNPB melhorou a competitividade do Brasil na industrialização do complexo soja.

BiodieselBR – A Granol é a primeira empresa do setor a sinalizar a intenção de fazer novos acréscimos à capacidade produtiva de uma usina desde o final de 2012. Sintomaticamente, a autorização saiu no mesmo dia em que o Senado aprovou a MP do Biodiesel. Vocês estão antecipando uma nova escalada?
Juan Diego Ferrés – Acreditamos nesse aumento para o futuro, mas não é o caso no momento. Tal autorização se refere apenas ao plano já traçado para a nova unidade situada na região Norte do país. Ficaremos, nesta fase, com três unidades integradas e abrangendo a logística de abastecimento de ampla territorialidade.

BiodieselBR – Recentemente, a Granol também implantou refinarias de glicerina em suas usinas. Está sendo um bom investimento? Hoje, qual a importância da glicerina?
Juan Diego Ferrés – A glicerina passa por um momento de preços deprimidos em virtude do excesso de oferta global decorrente do acelerado crescimento dos programas de biodiesel em diferentes países. Entretanto, o glicerol é um produto fantástico, com muitas propriedades para uso em inúmeras aplicações e cadeias de produção. Esses usos crescem aceleradamente substituindo outras matérias-primas, sendo que a tendência futura é de um novo equilíbrio de preços relativos e produção com margens satisfatórias.

BiodieselBR – A Ubrabio foi a primeira entidade representativa do setor de biodiesel. Como ela foi fundada?
Juan Diego Ferrés – A concepção da Ubrabio surgiu em 2006, no início da fase produtiva do PNPB, ocasião em que um grupo de empresários percebeu a necessidade de constituir uma entidade para representar integralmente a cadeia e contribuir com o governo federal no aperfeiçoamento de políticas e estratégias. A Ubrabio iniciou atividades em maio de 2007. Ela já nasceu com o conceito ampliado de representação da cadeia produtiva como um todo. Dada a importância do PNPB para o país, a entidade não poderia estar limitada aos produtores de biodiesel. Não poderíamos prescindir de associados dos diversos elos da cadeia: produção de matérias-primas e insumos químicos, fornecedores de equipamentos e empresas de tecnologia e serviços. Em 2012, a Ubrabio incorporou de forma ostensiva, inclusive no nome da entidade, a representatividade também da cadeia do bioquerosene.

BiodieselBR – O racha da Ubrabio foi um dos eventos mais marcantes na história do setor. Quais foram as causas?
Juan Diego Ferrés – Alguns associados à época, ao nosso ver, subestimaram a amplitude e a importância do PNPB, a representatividade plural da entidade e o alcance dos benefícios para outros setores e para a sociedade trazidos pelo biodiesel. Surgiu uma tendência de limitar o direito de associação aos produtores do biocombustível. Essa posição colidiu frontalmente com os princípios que norteiam nossa entidade desde a sua fundação. Nunca aceitaríamos proposições como limitar o surgimento de novas unidades de produção, limitação ao crescimento do programa ou a aumentos de capacidade das unidades existentes; muito menos a formulação ou a defesa de pleitos de tolerância em relação à qualidade ou às melhores práticas em relação ao tripé de sustentabilidade. Acreditamos num futuro gigante para o setor de biodiesel, do tamanho das potencialidades do Brasil.

BiodieselBR – Com três entidades representando o setor, como vocês se coordenam para ter uma pauta unificada e, portanto, mais forte?
Juan Diego Ferrés – As três entidades procuram colocar o desenvolvimento do setor acima de qualquer posição isolada que possa prejudicar o incremento do uso do biodiesel e a evolução setorial. A convivência é harmônica e, dentro do possível, os pleitos são discutidos com muita transparência e profissionalismo em prol do PNPB.

BiodieselBR – E agora que o setor conseguiu o B7, quais são as novas demandas?
Juan Diego Ferrés – A espinha dorsal continuará sendo o marco regulatório para o setor de biodiesel. É o que chamamos de PNPB fase 2, que contempla a perspectiva de ampliação de demanda pela continuidade da progressão gradual da mistura em nível nacional. Paralelamente, defendemos a imediata implementação dos usos facultativos em grande escala, a começar pelo B+ e o biodiesel agrícola, ou “B Agro”. O início da adoção progressiva do B20Metropolitano, seja nas capitais em que houver regras locais de obrigatoriedade, seja nas demais cidades que o adotarem por obrigatoriedade, motivos sociais, saúde da população, marketing de sustentabilidade ou redução de custos.

BiodieselBR – O B20 metropolitano é uma pauta antiga da Ubrabio. Como a entidade tem trabalhado para alcançar esse objetivo?
Juan Diego Ferrés – Realmente, o uso do B20 vem sendo incentivado desde a fundação da Ubrabio, especialmente no transporte coletivo das grandes cidades e regiões metropolitanas. Recentemente, propusemos o B20 aos prefeitos das 40 cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes. Como esses aglomerados sofrem mais intensamente com a poluição, o teor de 20% de biodiesel ao diesel fóssil teria ação efetiva na melhoria da qualidade do ar com reflexos diretos na saúde humana, qualidade de vida e meio ambiente. O exemplo de maior representatividade do B20 já pode ser experimentado na cidade de São Paulo, utilizando em 2 mil ônibus essa mistura, implantada por intermédio da nossa associada B100. Na nossa avaliação e na de muitos outros agentes interessados, já teria “passado da hora” de viabilizar esse programa.

BiodieselBR – Agora está surgindo um pleito chamado B+. O que seria isso?
Juan Diego Ferrés – É uma nova frente do PNPB no conjunto de usos facultativos, um dos mais desafiadores. Significa permitir que uma distribuidora solicite à ANP, conforme seu interesse, a comercialização do B+ em regiões onde o biodiesel seja competitivo em relação ao diesel de petróleo. Isso significa dobrar o percentual de biodiesel que estiver vigente como mistura obrigatória nacional. Por exemplo, com a vigência do B7, uma distribuidora poderia solicitar o uso do B14, e assim sucessivamente. A opção seria da cadeia de distribuição até o consumidor final. Essa autorização seria bimestral e renovável a cada leilão. Esse conceito se apoia, além da trajetória declinante dos preços dos leilões observada a partir de meados de 2013, na configuração geográfica da produção de diesel e dos volumes importados. Enquanto as refinarias de petróleo são situadas predominantemente no litoral do país, as unidades de produção de biodiesel são distribuídas pelo interior. São competitivas logisticamente e, especialmente em regiões produtoras de matérias-primas, possuem custo de produção do biodiesel inferior à média nacional, a exemplo da região Centro-Oeste e, futuramente, da região Norte. Nessas regiões, os consumidores poderia optar por redes de postos oferecendo o B7, ou outro percentual em vigor, e o B+ com o teor dobrado.

BiodieselBR – E o Biodiesel B Agro, o que seria?
Juan Diego Ferrés – Defendemos a adoção de um sistema de abastecimento, também facultativo, específico para tratores, caminhões e máquinas agrícolas e agroindustriais cujos fabricantes já vêm oferecendo garantias para o B30. O B Agro começaria no início da sua existência com um índice fixo de 30% e constituiria uma forma de captar os consumidores produtores agrícolas e agroindustriais e dar legalidade, visibilidade, controle e garantias de qualidade a muitos sistemas “paralelos” de abastecimento, invisíveis e portanto fora de qualquer controle na atualidade. Ele poderia ser estendido a outros usuários de usos específicos autorizados pela ANP para frotas que demandarem esse teor mais elevado, simplificando e acelerando os consumos de usos específicos com teores compatíveis.

BiodieselBR – O modelo de comercialização com leilões realizados pela ANP e Petrobras teria espaço nas iniciativas do B+, do B20 Metropolitano e do B Agro?
Juan Diego Ferrés – Sim. A Ubrabio entende que esses três projetos possuem caráter complementar à lógica do programa, que foi concebido durante anos e alicerçado pela mistura obrigatória e participação da agricultura familiar. Devem ser implementados paralelamente ao crescimento gradual e não devem prescindir do modelo atual de leilões que foi aperfeiçoado ao longo dos últimos dez anos e hoje tem aprovação não somente do governo, mas também das usinas, Petrobras e distribuidoras.

BiodieselBR – E vocês têm apoio para essas iniciativas?
Juan Diego Ferrés – A Ubrabio tem mantido discussões nos últimos anos com todos os órgãos governamentais sem encontrar oposição a tais usos adicionais, exceto a preocupação de participação nas definições finais em relação a cada um desses programas. Parlamentares das duas casas, de todos os partidos, explicitaram também seu apoio ao B+ que, aliás, também já foi apoiado explicitamente pelo MME, pelo Ministério da Fazenda e pela Casa Civil. Já sem falar do Mapa, que defende todos eles e especialmente o B Agro. Na nossa interpretação, a ANP já reúne prerrogativas legais para fazer esses projetos serem discutidos e encaminhados para uma decisão governamental. Em termos gerais, não há nada que impeça o andamento imediato desses três projetos.
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