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Após a implantação do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), adicionou-se às diversas resoluções editadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para regular o diesel comercializado no país um novo parâmetro: o teor de biodiesel. Inicialmente, o parâmetro especificava apenas a técnica a ser usada, que é a espectroscopia de infravermelho. Posteriormente, a ANP definiu o método europeu EN 14078 como procedimento para avaliar esse parâmetro. Uma vez que este método fora desenvolvido para o mercado europeu, com características completamente diferentes do brasileiro, decidi estudar o uso dessa norma na nossa realidade.
De fato, enquanto que na Europa o programa foi pensado para o uso de colza e metanol, no Brasil, pensando na nossa diversidade edafoclimática, o governo planejou o uso de diversas oleaginosas, bem como em utilizar metanol e etanol. Além disso, as condições de armazenamento também são muito diferentes, pois tanto as temperaturas médias anuais como a umidade relativa do ar são bem superiores no nosso país quando comparadas com as do velho continente, propiciando a oxidação do biodiesel, principalmente o com altos teores de insaturados, como o de soja.
A técnica do infravermelho é extremamente sensível à estrutura química das moléculas, podendo se fazer uma analogia com as nossas impressões digitais. Ou seja, a resposta nessa análise de uma determinada molécula é única, e mesmo com pequenas variações estruturais obtém-se resultados diferentes. Cada ligação química entre átomos é ativada por um feixe de luz com energia específica e gera como resultado uma curva alongada, de tipo gaussiana, sendo que a altura da curva pode ser associada com a quantidade desse tipo de ligação que existe na amostra. Assim, quando se incide diversos feixes de luz infravermelha com energias diferentes sobre uma molécula ou uma mistura delas, o resultado final da análise são diversas curvas gaussianas, onde cada uma corresponde a um tipo de ligação química. No caso da EN 14078 é analisado um único ponto, ou apenas uma energia de luz, que corresponde à altura máxima da curva gaussiana, referente ao éster do biodiesel de colza.
Um dos experimentos que realizamos foi preparar quatro blendas B5 usando amostras de biodiesel obtidas a partir de soja e mamona com metanol e etanol. Analisando por infravermelho as quatro blendas, verificamos que para cada biodiesel a curva que representa o grupo éster muda de posição e também de altura. Ao determinar o teor de biodiesel conforme indicado no método da EN 14078, obtivemos resultados variando de 2% a 5%, dependendo tanto da oleaginosa como do álcool. Em resumo, mesmo tendo sido preparadas as amostras B5 com precisão de laboratório, a única que estaria dentro da especificação seria a de biodiesel metílico de soja. Por outro lado, após serem colocadas em condições de oxidação acelerada, todas as amostras saíram da especificação, sendo obtidos teores superiores a B5. Analisando por espectroscopia de massas, observamos que a oxidação leva a compostos que também absorvem luz infravermelha na região do éster, aumentando aparentemente o teor para aproximadamente B10 no caso da mistura com biodiesel metílico de soja.
Esses resultados, publicados na principal revista científica de combustíveis do mundo, a americana Fuel (volume 136, páginas 136–142, 2014), acende uma luz amarela para o uso do método EN 14078. Nossa conclusão é que para usar a norma devemos calibrar o método exatamente com o biodiesel usado na mistura e ter certeza de que a amostra não sofreu oxidação durante o armazenamento.
* Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.

