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Tatiane Matheus, de São Paulo
“Os volumes de glicerina exportados vêm aumentando ano a ano”, comemora Eduardo Oliva, coordenador da área de insumos e fracionados da UniAmerica, fornecedora paulistana de matérias-primas para a indústria química. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) dão-lhe toda a razão. Em 2013, o Brasil exportou 180,6 mil toneladas de glicerina, 7% a mais que no ano anterior e nono ano consecutivo de aumento nas exportações. Não que esse seja um negócio que movimente cifras das mais impressionantes, mas, com vendas externas da ordem de US$ 65,9 milhões no ano passado (R$ 154 milhões pela cotação médiada moeda norte-americana em dezembro), a exportação de glicerina tem feito a felicidade de muita gente.
A China continua sendo o principal destino da glicerina brasileira. “No ano passado, o Brasil exportou 177,3 mil toneladas de glicerina loura. Desse volume, 83,3% foi para a China, 8,9% para a Malásia e 7,8% com volumes irrelevantes para outros países”, enumera Oliva. Mas mesmo com as vendas robustas, os fornecedores nacionais não estão dando conta de aplacar o aparentemente inesgotável apetite chinês. É o que ressalta a diretora da Lumina Trading, Carla Vilas Boas. “As importações chinesas [de glicerina] cresceram perto de 30%, enquanto as exportações brasileiras cresceram cerca de 5%. O Brasil perdeu o posto de principal fornecedor de glicerina nesse mercado para a Indonésia”, analisa.
Segundo a executiva, hoje os principais competidores do Brasil no mercado de glicerina loira (produto que sai diretamente das usinas de biodiesel e, portanto, tem menor valor) são a Indonésia e a Tailândia, que têm uma vantagem logística significativa na disputa pelo mercado chinês. Colômbia e Estados Unidos também podem ser pedras no sapato, com volumes razoáveis de produção – os EUA já estão, inclusive, disputando a demanda chinesa. Outro player importante nesse mercado é a Argentina, que recentemente vem apostando em valor agregado e já conta com várias usinas de biodiesel devidamente equipadas para produzir glicerina destilada.
Diversificação da demanda
Para bater a concorrência, as traders que atuam com o produto brasileiro vêm se esforçando para abrir o leque de compradores. O gerente da unidade de oleochemical products da Aboissa, Felipe Camargo, lista entre os potenciais compradores que andam sendo cortejados a Coreia do Sul, Rússia, Itália e EUA. Já Oliva, da UniAmerica, acrescenta Oriente Médio, África e América Central à lista de regiões que começaram a ter interesse pelo produto nacional.Para ter sucesso em faturar uma fatia maior do mercado internacional, os eternos gargalos de infraestrutura brasileiros têm de ser enfrentados o quanto antes. “Ainda perdemos muitos negócios pelos altos custos que temos de logística”, diz Oliva, da UniAmerica. “A glicerina é um produto de baixo valor agregado e os fretes domésticos têm um impacto muito grande na redução das margens dos produtores”, prossegue Carla, da Lumina.
Outra dificuldade é a elevada quantidade de sebo usado pelas usinas brasileiras. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), até o mês de novembro mais de 535 milhões de litros de biodiesel haviam sido fabricados a partir de gordura bovina. Isso contribui para restringir o mercado potencial das exportações nacionais, uma vez que alguns compradores exigem glicerina 100% vegetal. “Temos poucas usinas rodando apenas com óleo vegetal, então esses compradores acabam sendo abastecidos por produtores de outros países”, pondera Oliva.
O mercado interno também tem seus atrativos. De acordo com Carla, a estimativa é que mais de 30% do volume total de glicerina produzida permaneça em território nacional. É uma demanda substancial. Contudo, para Oliva, o mercado interno continua pequeno em relação aos volumes exportados, e isso não deve mudar rapidamente, em especial num contexto onde a demanda chinesa continua crescendo em ritmo acelerado.
“Existem alguns projetos sendo inicializados com a glicerina loira e, hoje, vender glicerina no mercado já não é mais um problema”, acrescenta Camargo. Para ele, a tendência atual é de uma crescente desconcentração das exportações brasileiras para diluir riscos.
Mais exigentes?
Os clientes também estão mudando. Os entrevistados identificam uma maior exigência dos compradores internacionais em relação à especificação da glicerina que adquirem, e a tendência natural é que os clientes brasileiros sigam pelo mesmo caminho. “Hoje há clientes que exigem glicerina loira isenta de cloretos, outros com teorde metanol de 0,1% no máximo, outros com um grau de pureza entre 85% e 90%. O investimento em tecnologias que rendam um produto de maior valor agregado está se tornando mais interessante”, opina Camargo, da Aboissa.Embora não concorde tanto que o comprador tenha necessariamente ficado mais exigente, Oliva, da UniAmerica, reconhece que a qualidade realmente se tornou um fator relevante para a competitividade. “Hoje os principais compradores sabem quais as usinas que têm qualidade para atender suas especificações e que garantem e entregam o produto negociado”, ressalva, lamentando que ainda haja fornecedores que enviem um produto diferente do que foi combinado.
O responsável pela comercialização da glicerina na Granol, Marcelo Freiria, vai mais ou menos na mesma direção. “Desde que o produto esteja dentro das especificações, não houve mudança no nível de exigência”, diz.
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Novos investimentos
Ainda assim, Carla Vilas Boas, da Lumina, acredita que há uma tendência clara para que as usinas de biodiesel brasileiras ampliem os investimentos na qualidade de seu principal coproduto. Ela espera que em breve o país se torne um player significativo no mercado internacional de glicerina destilada.Um sinal claro de que caminhamos nessa direção está no fato de que uma das maiores fabricantes de biodiesel do Brasil, a Granol, instalou recentemente uma nova unidade de destilação de glicerina com capacidade para processar até 40 mil toneladas por ano. Essa nova unidade foi construída pela fornecedora de equipamentos industriais GEA Westfalia. “Foi a primei-ra planta em funcionamento no Brasil. Usamos tecnologia alemã, consolidada na Europa”, explica o gerente de vendas da companhia, Osvaldo Bullara, acrescentando que já recebeu consultas de outras usinas interessadas na construção de unidades destiladoras.
Freiria diz que, hoje, o diferencial de preço da glicerina destilada não chega a justificar os investimentos. “Mas acreditamos que se trata de uma sazonalidade, que isso deverá se ajustar.” Apesar disso, a Granol já tem planos para tornar o processamento de glicerina um negócio em si mesmo, podendo, inclusive, adquirir glicerina em estado bruto de outros fabricantes de biodiesel para vender o produto destilado e embolsar a diferença. “Mas só compraremos glicerina de terceiros se houver preços compatíveis com as possibilidades de venda da glicerina destilada. Até agora temos destilado exclusivamente glicerina de produção própria”, complementa o executivo.
Outra empresa que também construiu uma refinaria de glicerina foi a Olfar. De acordo com informações divulgadas pela empresa, a refinaria tem capacidade para refinar 150 toneladas de glicerina bruta por dia e foi inaugurada em setembro passado. O processo de produção é totalmente automatizado e possui tecnologia norte-americana, com capacidade de fabricar glicerina com qualidade suficiente para ser usada pelas indústrias alimentícia e farmacêutica – que exigem os padrões mais rígidos de qualidade e, portanto, pagam melhor pelo produto. É baseado no método de evaporação e destilação para garantir uma maior flexibilidade do equipamento e trabalhar com matérias- -primas de diversas origens.
Conforme novas usinas ampliem sua capacidade de destilar glicerina, o perfil das exportações brasileiras deverá mudar significativamente. “O impacto no mercado internacional será grande a curto e médio prazos, pois não só a Granol e a Olfar como outras usinas de grande porte também estão investindo em tecnologias que agregam valor ao coproduto. Então, ao menos no que diz respeito à exportação de glicerina loira, deverá ocorrer uma redução no volume”, aposta Camargo, da Aboissa.
A entrada dos fabricantes de biodiesel no ramo de destilação deverá forçar um rearranjo no mercado. “É cedo para saber qual realmente será o impacto dessas novas plantas de destilação. Caso elas rodem dentro das expectativas de produção, visualizo que o maior impacto será para as empresas que compram a glicerina para destilar aqui no Brasil, pois elas terão como concorrentes empresas que certamente terão preços mais vantajosos”, discorre Oliva, da UniAmerica.
Escala ascendente
Para Carla, da Lumina, esse é um mercado que está cheio de oportunidades. Com as novas plantas de glicerina refinada, o Brasil deve se tornar um exportador e importante player no mercado internacional. “As pesquisas referentes a novas aplicações continuam, e o Brasil, tendo uma das políticas de biodiesel mais consistentes, também é um fornecedor consistente de glicerina”, opina a empresária.Para Freiria, da Granol, a introdução de novos usos não chega propriamente a ser uma barreira, uma vez que a glicerina já é um produto dos mais versáteis. “Atualmente, ela é aproveitada no mercado cosmético, alimentar, farmacêutico e químico.”
Na opinião de Camargo, da Aboissa, o Brasil está começando a abrir os olhos às novas possibilidades de agregação de valor. “Existe um universo de oportunidades no mercado de produtos oleoquímicos, e a destilação de glicerina é só a ponta deste iceberg”, diz, acrescentando que a glicerina destilada pode ser transformada numa grande variedade de alternativas renováveis para matérias-primas que hoje são fabricadas a partir do petróleo. Embora isso jogue uma luz positiva sobre as perspectivas de futuro desse produto, boa parte desses novos aproveitamentos da glicerina ainda vão levar alguns anos até estarem completamente maduros. “Temos de bater palmas para as indústrias que conseguiram se manter vivas e operantes neste mercado. Sei que não foi fácil, mas é importante continuar investindo em tecnologia para se manter competitivo no mercado”, finaliza Camargo.

