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Países asiáticos aumentam apostas no biodiesel

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Países do Sudeste Asiático redescobrem o mercado de biodiesel e se preparam para dar um salto histórico na demanda pelo biocombustível
Edição de Fev / Mar 2014 10 min de leitura
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Países do Sudeste Asiático redescobrem o mercado de biodiesel e se preparam para dar um salto histórico na demanda pelo biocombustível

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Países do Sudeste Asiático redescobrem o mercado de biodiesel e se preparam para dar um salto histórico na demanda pelo biocombustível


Fábio Rodrigues, de São Paulo

O Sudeste Asiático redescobriu o biodiesel. De meados do ano passado para cá, pelo menos quatro países da região – Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia – anunciaram planos para aumentar suas respectivas misturas obrigatórias [veja tabela]. Levando em conta os dados da Agência Internacional de Energia (IEA) sobre o consumo de diesel em 2011 (os mais atuais disponíveis), se tudo correr como o planejado o consumo regional de biodiesel aumentará espetaculares 83,3%, saltando de 2,4 milhões de toneladas para 4,4 milhões de toneladas num prazo de apenas um ano. Isso daria algo perto de 5 bilhões de litros se considerarmos uma densidade de 0,88 kg/l.

Não que o biodiesel seja uma novidade para esses quatro países. Como em outros tantos cantos do planeta, os países asiáticos começaram a flertar com esse biocombustível na década passada. No entanto, confrontados por uma onda de alta nos preços dos óleos vegetais [veja gráfico], os governos perderam o entusiasmo inicial.

O que aconteceu com a Indonésia é um exemplo paradigmático. Sozinho, o país representa quase metade do mercado de biodiesel da região, com uma demanda superior a 2,4 bilhões de litros. Em 2006, foi estabelecido o Grupo Nacional dos Biocombustíveis, que ficaria responsável pelo desenho geral do programa indonésio de biocombustíveis. Esse grupo criou um cronograma prevendo a adoção do B10 antes de 2010, do B15 entre 2011 e 2015, e do B20 de 2016 em diante. Capacidade de oferta não seria um problema. De acordo com dados da Associação dos Produtores de Biodiesel da Indonésia (Aprobi), existem 23 usinas com uma capacidade produtiva conjunta de 5,6 bilhões de litros. Contudo, passados oito anos, foi só agora que Jacarta começou a se mover para implementar o B10.

Entretanto, os astros parecem ter se alinhado para fazer o Sudeste Asiático despontar como o mercado que reúne as melhores perspectivas de crescimento para a indústria do biodiesel no curto e médio prazos, especialmente numa época em que os mercados mais tradicionais têm mostrado possibilidades escassas de expansão – a União Europeia (UE) vem, inclusive, falando em restringir o consumo. E essa percepção é compartilhada por gente que acompanha o mercado bem de perto. “A gente acha que o Sudeste Asiático tem um potencial brutal”, empolga- se José Berges.

Berges lidera a linha de negócios de produtos de eletrólise e alcóxidos da Evonik, companhia alemã do segmento químico que é uma das principais fornecedoras globais de catalisadores para as usinas de biodiesel. Isso coloca o executivo numa posição privilegiada para acompanhar as andanças do mercado global.

Palma

Segundo o executivo, o que diferencia os fabricantes do Sudeste Asiático de todos os outros é o acesso facilitado a umafonte de matéria-prima abundante e barata: a palma de óleo.

A palma é, disparada, a fonte de óleos vegetais mais importante no mundo. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 2012 foram fabricados 56,2 milhões de toneladas de óleo de palma e de palmiste (também obtido do processamento dos frutos da palma). O segundo lugar do ranking ficou com o óleo de soja, cuja produção global no mesmo período foi de 41,2 milhões de toneladas. Nada menos que 48,9 milhões de toneladas – 87% – desse óleo todo foram produzidos no Sudeste da Ásia.

Indonésia, Malásia e Tailândia ocupam, respectivamente, o primeiro, segundo e terceiro lugares do ranking dos maiores processadores de palma do planeta.

Não bastasse isso, o crescimento da produção do óleo de palma tem superado de forma consistente a demanda. Isso aponta numa única direção: preços em queda. Criar uma nova fonte de demanda para o óleo de palma seria uma forma de ajudar a proteger os preços internacionais de um dos principais produtos de exportação da região.

As cotações do Banco Muncial mostram claramente essa tendência. Em fevereiro de 2011 a tonelada do óleo de palma atingiu US$ 1.292, seu maior valor histórico, e desde então vem cedendo. Em dezembro passado as cotações fecharam em US$ 912, um recuo de quase 29,5%. Esse é um valor cerca de 7,8% mais baixo que o do óleo de soja. “Hoje, a matéria-prima mais barata e mais eficiente para a fabricação de biodiesel é, sem dúvida nenhuma, o óleo de palma”, pontua Berges.

E esse é o preço de mercado. O entrevistado estima que para um produtor razoavelmente eficiente a tonelada do óleo de palma saia a menos de US$ 300. “Para transformar isso em biodiesel você gastaria em torno de US$ 100, o que daria um custo de US$ 400 por tonelada de biodiesel. Isso é competitivo com o diesel fóssil”, afirma. O problema é como resolver o chamado “custo de oportunidade” – dilema clássico da economia no qual uma empresa pode optar destinar seu produto para dois diferentes mercados. “Por que um fabricante deixaria de vender seu óleo de palma a um preço mais vantajoso para vender biodiesel?”, questiona Berges.

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Conta petróleo

O que pode ajudar a desatar esse nó é o petróleo. Os quatro países da lista são dependentes de importações de diesel e/ou de petróleo. Até a Malásia e a Indonésia, que costumavam ser grandes produtores e exportadores de petróleo, têm visto uma contínua erosão dos saldos nos últimos anos. Na última década, a participação do diesel importado no consumo interno subiu de 45,7% para 55,1% na Indonésia; e de 18,1% para 43,2% na Malásia.

Para termos de comparação, aqui no Brasil – onde as importações de diesel andam em grande evidência – essa relação foi inferior a 15% em 2012.

Segundo o pesquisador sênior do Centro Internacional para Pesquisas Florestais (Cifor) Krystof Obidzinski, os gastos do governo da Indonésia para subsidiar as importações de petróleo rondam a casa dos US$ 20 bilhões por ano. Aumentar o consumo de biodiesel seria uma forma de aliviar essa conta. “A Indonésia já tentou implantar misturas maiores no passado. Acho que agora há uma pressão muito mais forte, porque eles [o governo] querem realmente reduzir os subsídios”, analisa.

Para a Indonésia há um incentivo extra. O aumento do mercado interno é mais do que bem-vindo num momento em que a indústria precisa compensar o recente revés sofrido no mercado europeu. Em novembro passado, a Comissão Europeia julgou que a política de tarifas diferenciadas estabelecida pelo governo de Jacarta para incentivar as exportações de sua indústria de biodiesel permitiam que o produto entrasse no mercado europeu a preços que inviabilizavam a produção dos fabricantes locais. Por isso, impôs tarifas antidumping de 18,9% sobre o produto indonésio. Em 2012, a indústria do país asiático embarcou 1,1 milhão de toneladas de biodiesel com destino aos 27 países-membros da UE, faturando pouco mais de € 990 milhões.

Em comunicado enviado por e-mail à reportagem de BiodieselBR, a Aprobi disse que ainda é muito cedo para determinar como as tarifas vão afetar as vendas da indústria, embora admita que o “impacto deverá ser alto”. No entanto, o tom geral da nota é otimista, apontando inclusive que existe a expectativa de que novos aumentos da mistura obrigatória sejam anunciados em breve. “É uma oportunidade imensa para o desenvolvimento da indústria de biodiesel na Indonésia”, diz a nota.

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Incerteza

Os aumentos de mistura ainda não estão 100% garantidos. Tanto quanto o Brasil, o Sudeste Asiático não é para iniciantes. Para José Berges, da Evonik, a atual retomada dos programas de biodiesel deve ser aceita com um grão de sal. “A ideia de que eles queriam caminhar nessa direção sempre esteve clara. Porém, a implementação dessas políticas no Sudeste Asiático não tem sido das mais sérias”, comenta.

Em meados de janeiro, a Tailândia resolveu adiar a introdução do B7. Considerando quedesde novembro o país vive uma onda de protestos pela renúncia da primeira-ministra, Yingluck Shinawatra, não está claro quando é que a nova mistura poderá ser implementada.

Há dúvidas sobre a capacidade de outros países concretizarem seus planos. “A gente tem metas legais, mas não há consequências para quem deixar de cumpri-las. Essa é uma situação muito característica da Indonésia”, confirma Obidzinski, do Cifor, acrescentando que, na prática, a mistura de 10% funciona mais como uma orientação geral do que uma obrigação. Até porque a logística da Indonésia é ordens de magnitude mais complicada que a brasileira. O país é formado por 17,5 mil ilhas, das quais cerca de 6 mil são habitadas. No fim das contas, a mistura acaba valendo somente para as ilhas principais, como Java e Sumatra. “Transportar o biodiesel para todas as ilhas do país é um verdadeiro pesadelo”, resume o pesquisador.

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Sustentabilidade

Nem todo mundo está contente com esse novo momento do biodiesel no Sudeste Asiático. Há tempos as organizações ambientalistas internacionais acusam a expansão acelerada da palma de óleo de ser o principal vetor de desmatamento das floretas nativas da região. Essa nova onda de aumentos nas misturas obrigatórias pode acabar jogando ainda mais lenha – ou, neste caso, biodiesel – nessa fogueira. “Com suas taxas de crescimento extremamente aceleradas, especialmente na Malásia e na Indonésia, o óleo de palma pode ser considerado uma das maiores causas de desflorestamento do mundo atualmente”, protesta Robbie Blake, gerente de campanhas sobre agrocombustíveis da Amigos da Terra Europa. “O biodiesel é um dos focos de demanda para a palma que mais tem crescido”, completa.

Enquanto a área plantada com palma de óleo cresceu 40% na última década, nos países do Sudeste Asiático o crescimento foi de 63%. Ritmo de expansão que deixa o da soja – 27,5% no mundo e 34,6% para o Brasil – comendo poeira. O problema com isso é que aproximadamente metade desse crescimento ocorre mediante um avanço sobre áreas nativas. “Como temos 6 milhões de hectares de plantações de palma, isso significa que praticamente 3 milhões de hectares foram desmatados. É muita terra”, critica Obidzinski.

Para quem acredita que os biocombustíveis podem ser aliados contra as mudanças climáti-cas, os atuais desdobramentos no Sudeste da Ásia são particularmente preocupantes. “As florestas tropicais alagadas da Malásia e da Indonésia estocam quantidades muito elevadas de carbono em seus ecossistemas. Por isso, quando a palma avança sobre áreas alagadas, as consequências para o clima global são muito, muito ruins”, comenta Blake. Estimativas da Amigos da Terra indicam que, até 2025, 10 milhões de hectares de áreas alagadas serão transformados em plantações.

Não é tudo. O avanço também tem colocado em risco a biodiversidade da região – os simpáticos orangotangos têm visto seu habitat minguar conforme as plantações crescem – e aumentado a tensão entre empresas e comunidades locais. “Isso coloca mais pressão sobre as populações indígenas em termos de disputas de terras e até de conflitos com sérios riscos de segurança. Temos mais de 600 casos registrados só na Indonésia”, lamenta Blake.

O problema aqui é que, apesar do histórico notoriamente problemático, a palma tem um mérito importante: ela é muito mais produtiva do que outras oleaginosas. Enquanto um hectare de palma rende 6 toneladas de óleo, a soja pena para chegar aos 800 quilos. “Qualquer proposta que defenda a redução do uso do óleo de palma não vai ter sucesso em resolver os problemas ambientais”, ataca Stefano Savi, gerente de comunicação da Mesa Redonda para a Palma de Óleo Sustentável – organização multissetorial que tem como objetivo estabelecer critérios mínimos de responsabilidade para o setor. “A demanda simplesmente seria deslocada para outros óleos vegetais e os impactos ambientais ficariam inalterados ou até piorariam.”

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