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Alexandro Kurovski, de Curitiba
Quando o consumidor tem alguma suspeita em relação à qualidade da gasolina que está para colocar no tanque do carro, pode pedir ao frentista que realize o “teste da proveta”, para ficar sabendo na hora se a porcentagem de etanol misturado ao combustível está correta. Pode parecer pouco, mas é uma salvaguarda importante contra uma das fraudes mais comuns no setor de combustíveis. No caso do diesel, não existe nada parecido. Até o momento, não há um teste simples e rápido capaz de medir se o teor de biodiesel misturado ao combustível mineral está dentro das normas. Pesquisadores em todo o mundo têm se empenhado em tentar resolver esse problema pelo desenvolvimento de uma nova geração de testes.
A Resolução ANP 14/2012 determina os parâmetros de qualidade do biodiesel fabricado no país. Embora isso baste para garantir que o biodiesel puro siga criteriosamente as normas, não chega a blindar o mercado adequadamente contra problemas na mistura de biodiesel e diesel mineral, o que abre as portas para a ocorrência de fraudes. “O distribuidor que não quer misturar biodiesel pode comprar o biocombustível no Mato Grosso, colocar B20 e entregar tudo por lá mesmo, enquanto para São Paulo coloca zero”, explicou o diretor de abastecimento e regulação do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), Luciano Libório, durante a Conferência BiodieselBR realizada em outubro passado em São Paulo. Isso permitiria que empresas pouco idôneas faturassem um dinheiro a mais economizando em frete.
Embora nada tenha ficado provado nesse sentido, enquanto não houver um teste simples, esquemas como esses podem prosperar, já que são relativamente difíceis de flagrar. Do ponto de vista químico, as dificuldades residem na similaridade entre as moléculas do biodiesel e do diesel, o que restringe o número de técnicas que podem ter sucesso, e é agravado pelos baixos teores de biodiesel utilizados.
Mas também não é uma missão impossível, tanto que ideias interessantes para resolver essa questão não faltam. BiodieselBR conversou com pesquisadores brasileiros e norte-americanos para conhecer alguns desses projetos e entender os motivos que atrapalham sua aplicação comercial.
Não é de hoje que o setor de pesquisa está em busca de uma solução para esse nó. Ainda em 2005, pesquisadores paranaenses perceberam que, graças à presença do grupo carbonil (um tipo de ligação entre átomos de carbono e oxigênio) nas moléculas de biodiesel, havia uma pequena diferença na forma como a luz infravermelha era absorvida ao atravessar amostras de biodiesel e de diesel mineral.
A descoberta foi feita durante um curso sobre sensores promovido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pelo Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), e serviu como base para que uma equipe liderada pelo professor Cyro Ketzer Saul, do departamento de física da UFPR, desenvolvesse um equipamento capaz de determinar o percentual dos dois combustíveis misturados. “Verificamos que a variação ocorria e que era praticamente linear em toda a faixa de concentrações de biodiesel em óleo diesel de 0 a 100%”, explica o pesquisador, acrescentando que a margem de confiança chega a ser superior a 95%, especialmente em misturas relativamente baixas, até o B10.
Chegou-se a desenvolver um protótipo funcional usando componentes disponíveis no mercado nacional, contudo as pesquisas acabaram esbarrando na falta de um sensor que combinasse tempo de resposta e preço adequados. “Sensores existentes no mercado internacional para a faixa de infravermelho desejada custavam na faixa dos milhares de euros”, contraria-se Saul.
Apesar desse banho de água fria, a técnica foi patenteada, no Brasil e no exterior, e os pesquisadores continuam trabalhando para tentar resolver os problemas. Em 2008, foi aprovado pelo CNPq um projeto conjunto envolvendo UFPR e Tecpar para a criação de um sensor de baixo custo capaz de efetuar a medição de uma forma rápida e barata.
Chamada
O Brasil tem dado considerável atenção ao problema da aferição dos teores de biodiesel. Em agosto passado, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou uma chamada pública na qual destinou cerca de R$ 25,5 milhões para projetos relacionados à cadeia produtiva do biodiesel, e cerca de R$ 10 milhões desse montante foram para projetos na área de caracterização e controle da qualidade do biodiesel – o que inclui o desenvolvimento de projetos desse tipo.Segundo o coordenador-substituto de ações de desenvolvimento energético do MCTI, Gustavo de Lima Ramos, entre os 15 projetos contemplados nessa categoria há pelo menos três relacionados ao desenvolvimento de testes de aferição do teor de biodiesel. “Como os trâmites do edital ainda estão em fase de finalização e os relatórios sobre as pesquisas ainda não foram fechados, não há como precisar esse número”, esclarece.
A olho nu
De acordo com o professor Saul, o teste criado por sua equipe poderia ser utilizado diretamente nos distribuidores e postos de gasolina para evitar adulterações. No entanto, ele ainda depende do uso de equipamentos relativamente sofisticados para funcionar. Para contornar essa dificuldade, há pesquisadores trabalhando em testes que funcionem a olho nu. É o caso, por exemplo, de uma dupla de pesquisadores da Universidade do Tennessee que no ano passado apresentou ao mundo o protótipo de um sensor simples e portátil. A nova tecnologia foi desenvolvida pelo professor Ziling Xue, do departamento de química, em parceria com o estudante de doutorado Jonathan Fong, que identificaram uma substância química com altíssima sensibilidade ao biodiesel – ela reage a concentrações de até meia parte por milhão do biocombustível.Esse produto pode ser transformado numa tintura azul, que é, então, aplicada num papel especial. Quando esse papel é exposto ao biodiesel, muda de cor, assumindo um tom de rosa que pode ser identificado facilmente a olho nu. Em entrevista por e-mail, o pesquisador contou a BiodieselBR que seu objetivo principal era identificar traços de biodiesel onde não deveria haver nenhum – caso de alguns combustíveis para o setor de aviação. Segundo ele, a mistura involuntária – que pode acontecer acidentalmente na reutilização de tanques – aumenta o risco de mau funcionamento nos equipamentos.
Contudo, o professor Xue diz que sua técnica poderia ser facilmente adaptada para postos de combustíveis que queiram atestar que estão vendendo misturas com o teor correto. Para isso bastaria desenvolver uma tabela que permita comparar visualmente os tons de rosa obtidos com as respectivas porcentagens de biodiesel.
Ele comemora os resultados obtidos: “Nossos sensores são pequenos, fáceis de usar, baratos e podem ser fabricados em grandeescala e usados em testes descartáveis”. Mas o químico ainda não tem nenhuma previsão de quanto tempo o sensor levará para atingir o estágio de comercialização. “A primeira etapa já foi vencida, mas novos testes e ajustes para as porcentagens de mistura praticadas em diferentes países ainda precisam ser realizados”, explica.
O lado negativo do processo está em sua precisão. Para obter resultados 100% confiáveis, Xue admite que seria necessário o uso de um espectrômetro ou de um microscópio de varredura.
A cor também é a chave para um teste que está sendo aperfeiçoado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Trata-se de um método capaz de identificar a presença ou ausência de biodiesel nas amostras mediante a detecção de seus ésteres. “Basta adicionar alguns poucos reagentes, agitar a solução e, caso apareça uma cor específica, há presença de biodiesel”, conta o professor Nelson Antoniosi Filho, que vem coordenando o trabalho. “Esse é um teste que poderia facilmente ser realizado nos postos, diante do consumidor”, completa. Todavia, o método não pode determinar a quantidade de biodiesel que há na amostra testada.
Esse mesmo grupo de pesquisadores goianos foi responsável pelo desenvolvimento de dois métodos destinados a distribuidoras de combustíveis, capazes de confirmar de forma rápida se o diesel contém os 5% de biodiesel estabelecidos pela legislação nacional. Contudo, o pesquisador não apresenta maiores detalhes. A UFG também é uma das selecionadas pela chamada 40/2013 e agora terá recursos financeiros para seguir em frente no desenvolvimento de outras metodologias aplicadas ao controle da qualidade de biodiesel.
Outra linha
Uma equipe do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) está apostando na eletroquímica para resolver o problema. Capitaneado pelo pesquisador Eduardo Cavalcanti, o grupo tem planos de projetar um sensor que possa ser instalado nas bombas volumétricas. Isso permitiria manter um controle preciso do nível de mistura nas distribuidoras de combustíveis e, caso venha mesmo a virar uma realidade, poderia ser uma arma bastante eficaz no combate a fraudes. “O equipamento permite o controle e a transmissão dos dados para órgãos reguladores no momento em que a mistura é feita, coibindo adulterações”, descreve Cavalcanti. A iniciativa é outra que vai receber dinheiro do MCTI.Financiar a pesquisa básica é um bom começo, mas não significa que as tecnologias chegarão mesmo ao mercado. Para isso ainda falta que a iniciativa privada tome mais gosto por investir em produtos inovadores. Cavalcanti explica que a maioria dos investimentos em P&D param na etapa da pesquisa e desenvolvimento básicos, que é totalmente financiada pelo governo. O problema está nas etapas seguintes, que compreendem a prova de conceito, validação, demonstração em campo e finalmente a validação econômica para produção em escala comercial. “O setor depende de recursos e não há como dar seguimento aos projetos sem que o mercado seja convencido a realizar os investimentos adicionais necessários”, esclarece o pesquisador.
A despeito de nossa famosa “síndrome de vira-latas”, esse não é um problema exclusivamente do Brasil. O professor Xue contou à reportagem de BiodieselBR que a tecnologia por ele desenvolvida na Universidade do Tennessee também está parada esperando que apareçam parceiros interessados em comercializar a novidade.
Algo que poderia dar um empurrão extra para tirar algumas dessas novas tecnologias das prateleiras – ao menos aqui no Brasil – seria um maior envolvimento do poder público em criar atalhos para que elas cheguem ao mercado. No caso dos testes para o teor de biodiesel, a ANP não manifesta interesse em adotar novos métodos para fiscalização do percentual de biodiesel, nem em modificar as regras vigentes. Enquanto isso, essa pulga continuará atrás da orelha.
