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Sem novo marco, crise se aproxima do setor

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Com preço despencando nos leilões e sem novo marco, produtores desanimam e crise se instala no setor
Edição de Fev / Mar 2014 11 min de leitura
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Com preço despencando nos leilões e sem novo marco, produtores desanimam e crise se instala no setor

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Com preço despencando nos leilões e sem novo marco, produtores desanimam e crise se instala no setor


Cátia Franco, de São Paulo

O ano passado foi árduo para o setor de biodiesel. Agropalma, Biosep, Bionorte e Coomisa são apenas alguns dos nomes que deram adeus ao mercado de biodiesel. Pelo menos nove usinas ficaram pelo acostamento em 2013, e o número pode ser ainda maior dependendo do que o futuro reservar para a Camera de Ijuí (SP) e a Biopar de Rolândia (PR), que se encontram com a produção paralisada, embora ainda mantenham esperanças de voltar ao mercado.

Evidentemente, “crise” não é uma palavra inteiramente nova para o setor. A Brasil Ecodiesel que o diga. A empresa já figurou entre os grandes nomes do segmento nos primeiros tempos do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) e amargou a sua dose de dificuldades. Para conseguir sobreviver, teve que mudar de nome – desde 2011 se chama Vanguarda Agro – e de ramo de atuação.

Mesmo assim, existe uma percepção de que a situação se agravou ao longo de 2013. Além da sucessão de usinas saindo do mercado, verificada principalmente a partir do segundo semestre, chamou a atenção também o grande número de rumores sobre dificuldades enfrentadas por diversas empresas do setor. Rumores estes que cresciam à medida que algumas usinas passavam a se ausentar, de forma reiterada, dos leilões.

Corda bamba

A relação das que andam sumidas dos leilões inclui diversas usinas que costumavam ser habitués dos certames. Entre as mais notórias estão Bioverde, Biotins, Bionasa, Barralcool, Grupal e Biopar.

No caso dessas duas últimas a situação não é nada boa, como sabem os leitores do portal BiodieselBR.com. Em dezembro passado, a Grupal informou ao portal que estava de saída do setor e que pararia de operar a partir de janeiro. Mais recentemente, a Biopar (PR) também admitiu estar passando por dificuldades. Segundo seu diretor industrial, Nivaldo Tomazella, a planta paranaense está com a produção paralisada desde março passado e só deve voltar à ativa se conseguir respaldo de um novo parceiro comercial.

Outra fabricante que anda sumida é a Barralcool. A empresa ficou sem vender nos últimos três leilões e pode ficar sem vendas também no próximo (35º Leilão, que acontece em fevereiro), o que fez circular os inevitáveis boatos de que estaria preparando sua retirada. Contatada por esta reportagem, a usina limitou-se a informar que o “biodiesel não é o único negócio da empresa e que, como está operando em margem negativa, aproveitará para fazer alguns ajustes internos e esperar por um melhor momento”.

Segundo o diretor da Barralcool, Silvio Rangel, o mais provável é que a fabricante permaneça fora do mercado pelo menos até o Leilão 37 – o terceiro de 2014 – quando espera poder fazer sua volta.

Quanto à Bionasa, o recente desligamento de Adilson Paschoal Montanheiro, que respondia pela diretoria comercial da empresa, não parece indício dos mais promissores. “A Bionasa é um projeto maravilhoso que, infelizmente, vem sofrendo as incertezas do setor”, limitou-se a dizer Mon-tanheiro, em tom distintamente melancólico, ao ser procurado para comentar a situação de seu ex-empregador.

O susto

Mas o caso mais proeminente da nova leva de empresas do setor que vivem um mau momento talvez seja o da Camera, controladora de duas usinas de biodiesel – uma em Ijuí (RS) e outra em construção em Estrela (RS) – que contavam, juntas, 468 milhões de litros em capacidade.

Ao longo de 2013 vários comentários surgiram sobre a situação da empresa, mas as desconfianças foram reavivadas em dezembro passado com o desligamento de Fabio Magdaleno, executivo que ocupara o cargo de diretor financeiro nos últimos cinco anos. A empresa então decidiu encerrar os rumores enviando uma nota à redação de BiodieselBR, na qual informava estar reestruturando suas operações e que por isso ficaria de fora do mercado de biodiesel pelo menos durante o primeiro semestre de 2014.

Sem distinção

Em meio aos anúncios de despedida e confissões públicas de dificuldades, a grande pergunta que paira no ar é: Por que as usinas de biodiesel estão desistindo – de forma temporária ou definitiva – do negócio?

É relevante observar que a avalanche parece não fazer distinção entre usinas grandes e pequenas. A Camera, que em seus melhores tempos chegou a vender mais de 20 milhões de litros por leilão – o suficiente para incluí-la na elite do setor – foi atingida em cheio, da mesma forma que uma porção de usinas bem menores.

Um fator que ajuda a explicar as dificuldades são as ondas provocadas pela quebra na produção de soja na safra 2011/12, que parecem ainda reverberar pelo segmento. Os reflexos dessa crise foram lembrados no comunicado que o diretor-superintendente da Camera, Roberto Kist, enviou a BiodieselBR.com em dezembro para justificar a decisão da companhia. “Desde março de 2012, quando a principal região de atuação da Camera no Rio Grande do Sul foi afetada por uma severa estiagem, a (in)disponibilidade [sic] de soja para o processamento, bem como a alta volatilidade e consequente aumento do seu preço, penalizaram o modelo de negócios da companhia”, lia-se na nota.

Segundo o executivo, mesmo com a safra recorde em 2013, a usina acabou prejudicada em função do direcionamento da soja para o mercado de exportação de grãos. “Para um modelo de negócios altamente verticalizado e com um ciclo econômico longo – desde o fomento do plantio de soja até a venda do biodiesel –, a conjunção de preços altos e menor disponibilidade de maté-ria-prima é muito desafiadora”, considera.

Vocações diferentes

O fato de as gigantes do setor serem menos afetadas que as usinas de pequeno e médio porte tem uma explicação lógica. Em geral, as primeiras são tradings de commodities agrícolas, que verticalizaram sua atuação ao perceberem no biodiesel a oportunidade de agregar um pouco mais de valor aos seus produtos. Portanto, seu core business não seria tão afetado pelas turbulências do biodiesel. No caso das que têm como fim exclusivo a produção do biodiesel, a situação é totalmente distinta. Embora se ressintam mais nos períodos de baixa maré, essas usinas tendem a se mostrar mais resistentes a abandonar o barco. Afinal de contas, para elas o biodiesel não é mais um negócio – é o negócio.

É essa visão de mercado que diferencia a estratégia adotada, por exemplo, pela Biopar e pela Agropalma quando as coisas começaram a desandar.

A primeira se enquadra no grupo das empresas que atuam exclusivamente na produção de biodiesel. Por isso, ainda luta para assegurar a sobrevivência do seu negócio. Simplesmente baixar as portas significaria jogar fora anos de investimento.

No caso da Agropalma, cuja vocação original é a produção de óleo de palma, o biodiesel era um investimento secundário. O grupo parou de fabricar biodiesel em julho de 2010, quando o setor passava por um momento bem mais confortável, com o recente aumento da mistura para B5. Segundo nota encaminhada pela assessoria de imprensa da Agropalma, “como o preço do biodiesel não é estabelecido pelas forças de mercado, o grupo optou por manter o foco no fornecimento do produto para os setores de alimentos, de cosméticos e oleoquímico, onde a matéria- -prima é mais valorizada e o retorno financeiro, maior”.

Outra que pautou sua justificativa na linha do “deixou de ser um negócio interessante” foi a Vanguarda Agro. Situada em São Luís (MA), a usina de Itaqui – última remanescente do que, um dia, já foi o maior conglomerado de biodiesel do Brasil – teve as autorizações de operação e comercialização revogadas pela ANP em dezembro. “Com a incorporação da Maeda e da Vanguarda Participações, a companhia mudou seu direcionamento estratégico, passando a focar na produção de grãos e fibras”, justificou a Vanguarda Agro por meio de nota encaminhada por sua assessoria de imprensa.

Tábua de salvação

Além das turbulências no mercado de soja, também é preciso levar em conta o impacto que a frustração da expectativa em torno do marco regulatório produziu no setor.

“Sem mexer no marco regulatório, o governo está decretando a falência do setor e colocando fora de atividade as pequenas e médias empresas que não são verticalizadas, com produção própria de óleo degomado”, externou Antonio Alves, diretor administrativo da Grupal. O empresário observou ainda que, quando o governo convocou os empresários a apostarem e investirem no PNPB, a Grupal foi um dos grupos que “prontamente” atendeu ao chamado, “numa prova de confiança e crença no futuro do programa e do país”. Mas, de acordo com o Alves, o Planalto não ofereceu a contrapartida esperada.

A demora na apresentação do novo marco potencializou um pecado de origem de um setor que cresceu de forma explosiva em seus primeiros anos. “O setor ficou muito grande para o que vai se consumir nos próximos dez anos”, avalia Tomazella, da Biopar.

Isso confirma uma leitura que, embora não exatamente nova, ajuda a explicar o ponto de ebulição a que chegamos agora. O caso é que, ainda entusiasmadas coma antecipação do B5 em três anos pelo governo federal – o cronograma original do PNPB indicava que esse teor de mistura só deveria ser implementado em 2013 –, as usinas contaram com os ovos antes da galinha fazer seu serviço. Em bom português, ampliaram sua capacidade de produção de forma injustificada.

Uma boa medida dessa expectativa foi o número de autorizações para construção de usinas e para ampliação da capacidade produtiva concedidas pela ANP após o último aumento de mistura. Ou seja, uma capacidade produtiva que entrou no mercado sem que houvesse previsão de aumentos de demanda para sustentá-los.

Entre as 23 autorizações de construção concedidas e as 17 ampliações de unidades preexistentes, tivemos cerca de 3,5 bilhões de litros em capacidade nova sendo injetados no mercado, o que indica o grau de confiança em relação a um futuro que, passados quatro anos, ainda não aconteceu.

Fênix

A ânsia pelo novo marco regulatório é fomentada, em boa parte, pela esperança de se amenizar o excesso de oferta. O aumento da mistura, obviamente, não pode ser encarado como uma tábua de salvação. Mas, inegavelmente, ajudaria a injetar novo fôlego no setor. “Se vier o 7%, melhora, mas não vejo que seja solução dos problemas. Mas se continuar aumentando o número de usinas, não tem para todo mundo. O governo não vai aumentar de 7% para 10% para 15%. Já está difícil ir para 7%”, ironiza Tomazella.

Uma ponderação importante a ser feita em meio a esse cenário pouco animador é que, embora já não esteja mais em formação, o do biodiesel ainda é um mercado em maturação. Não faz muito tempo o setor enfrentava sérios desafios por conta de problemas relacionados à qualidade de seu produto. Mas conseguiu superá-los à custa de muito esforço.

Essa deficiência, inclusive, ocasionou a derrocada da Biocapital. Em maio de 2012, a ANP cassou as autorizações de operação e comercialização da usina. E, mesmo com pouca gente apostando no seu regresso, a Biocapital conseguiu viabilizá-lo no Leilão 34.

Verdade que ela não retornou com o mesmo status. Sua capacidade produtiva foi reduzida em 52%, e no leilão de reestreia a usina vendeu minguados 500 mil litros – volume inexpressivo quando comparado aos 30 milhões de litros que chegou a negociar em seus melhores dias.

“As dificuldades e as oportunidades – seja para entrar ou se manter no mercado do biodiesel – são, de uma forma geral, similares a outros mercados”, sentencia Setsuo Sato, diretor-presidente da Biocapital. “Cada empresa tem que encontrar a melhor estratégia para assegurar sua participação e manutenção. Para a Biocapital, que não é produtora de matéria- -prima, seja óleo de soja ou sebo bovino, é vital ter um processo de produção eficiente, de baixo custo e que permita o processamento de matérias-primas de diversas origens e qualidade.”

Por enquanto, a Biocapital configura-se como um caso inédito no setor, de uma usina que saiu mas está tentando retornar ao mercado. Quando a situação se estabilizar e o setor voltar ao eixo, saberemos se a “lista das fênix” contará com outros nomes. Sem aumento de mistura, a tendência é que o caso da Biocapital seja uma exceção.
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